quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Entrevista com José Cavalcanti, psicólogo do TRE/RS e membro da comissão contra o assédio moral

José Cavalcante é um brilhante profissional do TRE/RS. Promotor da comunicação não-violenta, ombro amigo em todas as dificuldades dos trabalhadores. Um dos idealizadores da comissão contra o assédio moral no Tribunal, dá uma enorme contribuição a todos nós sempre que necessitamos.


1. Por que você escolheu ser psicólogo?É uma profissão que me encanta. Através dela posso ajudar pessoas e comunidades, como a comunidade do TRE-RS.

2. Nestes tempos de "pós-modernidade" como você vê a psicologia?
A Psicologia se defronta com diversos desafios, os profissionais de psicologia também estão cansados e na tão falada correria, sofrendo os atravessamentos de um mundo muito veloz e exigente. Para mim, o fundamental é que a Psicologia se mantenha crítica, afeita a uma ética do bem-dizer. 

3. O que é para você "ser psicólogo hoje"?
É optar por uma atividade de cuidado, escuta e atenção para com as pessoas e comunidades.

4. Existem psicólogos clínicos sinceramente engajados num projeto de ajuda e escuta ao outro. Existem outros adaptados a um modelo "empresarial" de psicologia. Dentro do serviço público o que você tem a dizer sobre isso?
O serviço público brasileiro tem uma má fama de ineficiente e preguiçoso, mas penso que se o é, o é tanto quanto qualquer outro espaço em nossa sociedade. É muito fácil procurar culpados para aquilo que incomoda e fugir da responsabilidade desse incômodo, como se o problema fosse o outro. E, se o problema é o outro, eliminá-lo acaba com o problema. Daí essa animação com as privatizações. Em paralelo, outros modos de “eliminar” essa questão é exercer um controle maior, solicitar mais comprometimento, racionalizar processos de trabalho, etc, imaginando que seria possível melhorar essa reputação sofrida. Nesse ponto, a Psicologia é muitas vezes convocada a instigar as pessoas a oferecerem mais do que já oferecem, chegando mesmo a usar modelos em que cada um é uma espécie de empresário de si mesmo e o organismo fosse uma espécie de fábrica. A intenção pode até ser boa, só que quando estamos isolados assim no trabalho, cada qual cuidando da sua “empresa de si mesmo”, ansiosos por sucesso e reconhecimento, perdemos a dimensão coletiva, a única capaz de gerar uma comunidade de trabalho sustentável. É no coletivo que aqueles que trabalham desenvolvem modos de fazer capazes de lidar com os obstáculos reais, acionando aquela astúcia solidária frente ao imprevisto e fazendo com que se possa protagonizar a produção sem cair no vazio da solidão. Sozinhos estamos expostos a uma gigantesca perda de sentido do trabalho, a um fulminante sentimento de culpa e a um fracasso solitário.

5. Você é um profissional comprometido com o combate ao assédio moral. Defina essa violência, tanto o horizontal como o vertical, suas consequências e se possível relate um caso que exemplifique o que diz.
O assédio moral é uma violência psicológica. O termo assédio remete às máquinas medievais de cerco à cidades, tanto que em espanhol o assédio moral é chamado acosso. É como se a pessoa ficasse cercada, só que por uma ou mais pessoas que usam como armas atos negativos como fazer ataques pessoais, ridicularizar, intimidar, isolar ou também ser muito rigoroso no trabalho, como se fosse uma forma “exigente” de gestão do trabalho. Cada vez mais se tem observado esse último tipo de assédio moral, chamado organizacional, porque tem relação com o modo como o trabalho é organizado, normatizado, controlado. Se isso se dá de modo muito rígido, com supervisão excessiva, exposição das pessoas a constrangimentos, como se realmente se tratasse de uma guerra, daí todos ficam numa tensão insuportável, com medo de errar e, ao mesmo tempo, precisam fazer muito, mas têm pouco controle e recursos. Com o tempo, as pessoas acabam abandonando o trabalho, ou fisicamente, como numa remoção, ou psicologicamente, deixando de se importar. Também ficam muito vulneráveis ao adoecimento e podem experimentar transtornos como estresse pós-traumático e depressão. Não podemos revelar nada de nenhum caso específico atendido pela Comissão, mas o tipo de assédio que mais encontramos foi o organizacional e vertical, vindo da chefia superior. 

6. Você faz parte da Comissão contra o Assédio Moral do TRE/RS. Conte um pouco de como ela foi formada e como funciona para aquele que é vítima contatar a comissão.
A Comissão foi formada em 2014. Recebemos notícias de assédio moral através de email (assedio@tre-rs.jus.br) e telefone. Daí começamos as tratativas para a atuação, porque é essencial proteger a pessoa e esclarecê-la. Feito isso, visitamos o local de trabalho. Todo o processo gera bastante tensão, mas é um enfrentamento necessário. Realizamos uma pesquisa sobre o local, contexto de trabalho, atos negativos e entrevistamos servidores que lá trabalham e alguns que trabalharam, mas se removeram. No final, a Comissão escreve um parecer que é encaminhado para a Presidência, onde se posiciona se houve ou não assédio moral e faz recomendações. Isso é o suficiente para mudar a situação e levar a reajustes. A Administração tem nos apoiado bastante e tivemos avanços consideráveis. Para encontrar mais informações é só ir na intranet, no menu servidores e depois em Assédio Moral no Trabalho.


7. Fale das atividades circulares que estão sendo desenvolvidas no âmbito do TRE, em especial a experiência da CAE/Anexo I.
As atividades circulares são uma forma de se fazer atividades em grupos de um jeito mais afetivo. A ideia é que existam espaços de fala, para conversarmos sobre as relações de trabalho, comunicação, projetos, conflitos, etc. E a função disso é fortalecer o coletivo, pois trabalhar é também viver junto. No círculo podemos voltar a falar e ouvir uns aos outros, lidando com as diferenças que surgem e conhecendo um pouco mais daquela pessoa muitas vezes desconhecida, que está ali ao lado no dia a dia. Ora, não acho que estamos no trabalho pra baixar a cabeça e fingir que não tem ninguém ao lado. Pode parecer mais confortável assim, mas é sofrido tanto fingir que não vê quanto ser invisível. Por mais difícil que seja se aproximar desse desconhecido, por mais diferente que ele seja, minha humanidade e valor eu encontro junto com ele, mesmo que só um pouco ou aos poucos de cada vez.

8. O que é comunicação não-violenta?
É uma proposta relacional desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg. O desafio que ela propõe é criarmos espaços em que podemos nos comunicar de um modo tal que não nos alienemos e ao outro no processo. Quando estamos muito acostumados a não enxergar o outro ao nosso lado, quando estamos apressados e inconscientes de nossas necessidades e responsabilidades, tendemos a tratá-lo como uma coisa qualquer que existe para nos satisfazer. Costumamos imaginar que um pouco de violência é ok, tipo: só um tapinha na criança pra deixar de ser teimosa ou aquela pessoa que precisa levar um “aperto” pra se ajustar ou, ainda, aquela chefia que muda alguém de lugar ou de atividade sem falar antes com a pessoa e prepará-la. Parece pouco, mas esquecemos que somos constantemente agredidos por inúmeras ações como essa. O bom é que podemos utilizar um modo de comunicação mais afetivo e efetivo como a comunicação não-violenta. 

9. Como você vê o futuro da psicologia: um viés mais humanista ou uma tendência a uma integração ao sistema, hostil aos trabalhadores e instrumento de adaptação das pessoas?
Essas duas tendências coexistem na Psicologia. Por estranho que pareça, há coisas boas também na segunda delas. Por exemplo, os novos servidores precisam ser integrados, sem isso ficariam confusos. Às vezes uma adaptação é necessária, tanto por parte da pessoa como do ambiente, como quando alguém aprende algo novo ou ajustamos a altura da cadeira. Quanto à hostilidade, ela sempre vai permear as relações humanas, como um predador à espreita. Quem trabalha com Psicologia precisa entender o que há por trás da hostilidade e não se filiar a ela.