sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Resenha Espiritualidade: "O Caminho Mais Certo Para a Felicidade", Madre Basiléia Schlink

Madre Basiléia Schlink foi uma mulher à frente de seu tempo. Ela viveu o trauma da II Guerra e a destruição de seu país, a Alemanha, e de sua cidade, Darmstadt, que foi bombardeada em 11 de setembro de 1944.

Madre Basileia Schlink, já idosa


Basiléia era uma mulher profundamente cristã, oriunda da maior igreja da Alemanha, a EKD, originalmente a confissão luterana mas hoje uma confederação ecumênica de denominações cristãs protestantes tradicionais, que vivem em paz com o catolicismo. Diante do trauma da guerra e particularmente da descoberta do grande crime nazista - o Holocausto judeu - Basiléia promove um avivamento nos grupos de jovens que tinha contato em sua igreja. Por conta dessa situação surgem as condições e vocações para que mulheres - mesmo no meio protestante, tradicionalmente avesso à vida religiosa e ao monaquismo - fundassem uma congregação, denominada Irmandade Evangélica de Maria. (OBS: não é por nada que Maria está no nome da irmandade, pois o carisma mariano - e também o franciscano - estão muito frequentes entre as irmãs; ainda que não aderiram até hoje à Igreja Católica, sua postura é de profundo ecumenismo para com ela).

Irmãs com hábito, cantando louvores


Em 30 de março de 1947 é fundada a Irmandade. Hoje ela tem casas na Alemanha, França, Coréia, Brasil e muitos outros países. Tem um profundo trabalho de evangelização.

UM LIVRO SOBRE O ARREPENDIMENTO



"O Caminho Mais Certo Para a Felicidade", de Basiléia, é um pequeno brochura sobre o marco zero do cristianismo: o arrependimento, com a consequente confissão dos pecados e mudança de rumo de vida (conversão). No evangelho segundo São Mateus, 4:17, a Bíblia nos conta a primeira frase da pregação de Jesus: "Arrependei-vos porque está próximo o Reino dos Céus".

O arrependimento é o começo de tudo. O arrependimento é a porta pela qual é aberto o caminho do Evangelho para Ele (Deus) chegar até nós.

Madre Basiléia estabelece dois passos essenciais ao verdadeiro arrependimento:

1º passo: Conhecimento de que necessitamos e que nos falta arrependimento.

2º passo: Não posso dar-me o arrependimento a mim mesmo; é necessária uma dádiva de graça.

Como obstáculos ao arrependimento ela cita particularmente a chamada Justiça Própria, a justificação de nossos atos contrários à vontade de Deus, e com isso chegando mesmo a acusar o próprio Deus, como fizeram Adão e Eva no Paraíso (Gen 3: 11-13).

"Por todas as desculpas frias, explicando como caímos nesta ou naquela tentação, ou como nos vimos forçados pelas circunstâncias a falar ou agir desta maneira, tornamo-nos cegos para o fato de que pecado é pecado, culpa é culpa, e que nós somos responsáveis por nossa culpa" p. 39

"Caímos então em depressões e melancolia, pois sentimo-nos inocentes como quem sobre injustamente, sem querer humilhar-nos. É verdade, o sofrimento causado por pessoas que tornam penosa nossa vida, incute, muitas vezes, amargores no coração e nos leva a ter pena de nós mesmos. Afundamos sempre mais neste martírio, nossa compaixão de nós mesmos e ficamos sempre mais sombrios, descontentes e infelizes" p. 45

Somente um coração verdadeiramente contrito - o que é graça de Deus - que confessa um a um seus pecados e se dispõe a reparar os danos causados a outros, faz jus à promessa bíblica de I João 1:9: "Se confessarmos nossos pecados, Ele é fiel e justo para perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça".

Nenhum casamento, nenhuma igreja e nenhuma comunidade podem sobreviver sem arrependimento. Estar de bem com Deus, estar de bem com as outras pessoas - é isso que significa o arrependimento. O arrependimento é a porta de entrada para relacionamentos restaurados - E ALEGRIA!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Estudar xeque mates! Como funciona a didática da Escola Soviética de Xadrez.



Aqueles que querem evoluir no jogo e na arte do xadrez, via de regra, ficam perdidos por onde começar seus estudos. A lógica elementar parece indicar que o estudo deve começar pelas chamadas "aberturas". (O xadrez é dividido em três fazes: 1) abertura, 2) meio jogo e 3) final ou fase do cheque).

Titulo: Abertura de Xadrez para Leigos
Autor: James Eade (Mestre de Xadrez pela federação estadunidense de xadrez)
Editora: Alta Books
Ano:2012
Coleção: Dummies
Páginas: 359


Comprei um excelente livro de aberturas, da coleção "Dummies" da Editora Alta Books, "Aberturas de Xadrez para Leigos". Dediquei-me horas a aprimorar a abertura que mais ou menos domino, a Ruy Lopéz, ou abertura espanhola, inutilmente, pois meu xadrez não evoluía.


Foi conversando com um professor particular, lendo os livros que tratam da escola soviética e particularmente depois que comprei o excelente "Como aumentar a Força Enxadrística" que fui corrigido; para o iniciante o mais importante é estudar o final do jogo! Isso mesmo, ir pelo lado aparentemente o contrário.



Tudo isso se dá porque o importante é ganhar o jogo e não "ganhar bonito". Entre iniciantes o domínio das outras etapas do xadrez, quanto mais cálculo ou estratégia, é mínimo. O que lhe importa é poder enxergar, quando aparece no tabuleiro, uma situação real de cheque ou cheque-mate, onde poderá por fim à disputa em seu favor.

No já citado neste blog, o excelente "The soviet Chess Primer" (de Ilya Maizelis), o primeiro capítulo é uma explanação geral do jogo e já o segundo - quando começa o estudo mesmo - é intitulado "Aim of the Game" (o objetivo do jogo). Já se vê aí a preocupação dos mestres soviéticos em logo introduzir o estudo dos mates nos iniciantes.



Vi muitos vídeos no youtube, fiz cursos pela internet e
mesmo no prestigiado site chess.com não consta esta dica tão importante para o iniciante. Vejamos o que diz o professor John Barroso, autor de "Força Enxadrística: método, técnicas e foco mental":

"Vamos aos fatos: primeiro se aprende a andar, depois a correr. Há uma ordem lógica nas coisas. No xadrez não é diferente: primeiro se aprende o básico, depois o avançado." (...) "Agora a maior verdade de todas: ao iniciante é mais importante praticar finais do que aberturas. Isso porque, o iniciante (digamos quem nunca jogou em torneio, mas já sabe as regras de xadrez e que rankeia abaixo de 1400 pontos), cometem tantos erros no início de tal forma que o erro do um cancela o erro do outro assim o que vale realmente é o que acontece no final!" LÓGICO!!!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Tradução livre: A União Soviética e os jogos Olímpicos




A União Soviética e os Jogos Olímpicos




Em tempos de Olimpíada, faz-se necessário resgatar a memória da maior potência esportiva dos jogos de todos os tempos, a União Soviética. Mesmo tendo participado de somente 9 Olimpíadas, a URSS liderou várias vezes o ranking de medalhas. Até hoje, mesmo com sua queda, é o país em segundo lugar no ranking, com metade das medalhas dos Estados Unidos, sendo que estes participaram de mais de 20 jogos.

Transcrevo aqui matéria do site "Guided History" (História Guiada) de Boston, sobre o  tema.



No início da União Soviética, todas as coisas que foram vistas como ferramentas do capitalismo foram renunciadas; isso incluía esportes competitivos. Portanto, a União Soviética se recusou a participar nos Jogos Olímpicos internacionais. No entanto, na década de 1930 a União Soviética começou a tomar uma postura diferente em matéria de desporto competitivo. A URSS viu os Jogos Olímpicos como um meio para exibir o poder soviético. Os Jogos proporcionou uma oportunidade para mostrar o domínio da União Soviética para o mundo, bem como ao seu próprio povo. Devido à Segunda Guerra Mundial, a União Soviética não se juntou os Jogos Olímpicos até 1952.

Os Jogos Olímpicos não são apenas uma série de competições que trazem as nações do mundo juntas; há mais em questão que os Jogos. Por exemplo, a política desempenha um fator influente quando se trata de os Jogos Olímpicos. Portanto, a evolução cena política na União Soviética dos anos 1950 com a queda da URSS pode ser rastreada até os Jogos Olímpicos. Os Jogos Olímpicos não só exibem a configuração política dentro da União Soviética, mas também como as relações externas evoluíram entre a URSS e as outras nações do mundo.

Após a Revolução bolchevique, a nova União Soviética se recusou a participar nos Jogos Olímpicos Internacionais. esportes modernos eram vistos como elitistas e defensores do capitalismo ocidental. O desporto foi alterado nível nacional e internacional na União Soviética. No início de 1920 o Esporte Vermelho International foi encarregado de difundir ideais revolucionários através do desporto, particularmente o coletivismo.

Chaves, Barbara. "Desporto Soviético e Cultura de Massa Transnacional na década de 1930". Revista de História Contemporânea . 38. não. 3 (2003): 413-434. 10,2307 / 3.180.645 (acessado em 07 de abril de 2013).
"No geral, no entanto, o principal impulso do envolvimento internacional Soviético na década de 1920 centrada sobre o desporto de massas e agitação revolucionária em clubes dos trabalhadores europeus, e não na realização atlética. A ênfase permaneceu na promoção de coletivismo e desencorajar o individualismo. Apesar dos contatos ocasionais com o esporte "burguês", havia pouco sentido de que os êxitos do desporto Soviético devem ser medidos contra os resultados alcançados no desporto estrangeiro".

Na década de 1930 as coisas começaram a mudar. Desporto na União Soviética tornou-se uma ferramenta para mostrar o poder da União Soviética.

Chaves, Barbara. "Desporto Soviético e Cultura de Massa Transnacional na década de 1930". Revista de História Contemporânea . 38. não. 3 (2003): 413-434. 10,2307 / 3.180.645 (acessado em 07 de abril de 2013).
A ênfase na retirada de desporto ocidental tradicional passou por uma transformação dramática no início de 1930, como o principal objectivo da União Soviética estabelecer intercontatos desportivas nacionais passou de agitação revolucionária dentro de um sistema desportivo independentes à concorrência orientada a resultados dentro do sistema. Os esportes do ocidente frustrado pela fraqueza dos esportes comunistas, impressionado com o poder crescente de desporto regular, o regime passou a ver desporto internacional ocidental como um meio útil de atingir um grande número de trabalhadores estrangeiros e de impressionar os governos estrangeiros com força soviética. O Sportintern, cortado de contatos com os clubes socialistas, como resultado de uma política desastrosa de confronto, mudou-se para aumentar a sua influência na Europa, dedicando mais atenção aos grandes números de trabalhadores em organizações.



Em 1972, a rivalidade entre a URSS e os EUA foi extremamente elevada. Por este ponto, os jogos foram usados ​​como uma ferramenta da política; um meio de exibição para o domínio do mundo. Os EUA foi uma potência no basquetebol, mas nos jogos de 1972 a URSS perturbar essa reputação. Isto foi visto como um grande feito dentro da União Soviética, e provou seu poder. No entanto, o resto do mundo, especialmente os EUA, questionou a integridade dos funcionários do jogo.

Após a invasão do Afeganistão pela URSS, Jimmy Carter, o presidente dos Estados Unidos, ordenou os EUA para boicotar os Jogos Olímpicos, realizada em Moscou.Ele convidou um número de nações aliado para participar no boicote. A União Soviética foi devastada pela pequena volta para fora para os jogos de prestígio.



Guttmann, Allen. "A Guerra Fria e os Jogos Olímpicos." International Journal .43. não. 4 (1988): 563-564. 10,2307 / 40.202.563 (acessado em 07 de abril de 2013).




Em alguns aspectos, a resposta soviética foi o mais interessante. "Desde o início a URSS recusou-se a aceitar o fato de que o boicote foi uma reação à invasão do Afeganistão. Entre as explicações que ele oferecia, em vez foram: que o presidente Carter precisava de algo para salvar sua popularidade afundando em um ano eleitoral; que militaristas OTAN o desejavam, para diminuir as chances de co-existência pacífica; e que os norte-americanos não foram capazes de contemplar o pensamento do sucesso de Moscou no acolhimento das nações. Enquanto Tass anunciou que o boicote violou a Carta Olímpica, os acordos de Helsínquia, a Carta das Nações Unidas, e a "Amador Sport Bill", de 8 de novembro de 1978, Sovetsky explicou que o boicote era contrária à Constituição dos Estados Unidos.As razões expostas pelo Carter foram omitidas. Embora a União Soviética e seus aliados minimizou o impacto do boicote e os protestos feitos nos jogos, onde muitas nações evitaram bandeiras e hinos nacionais e aproveitados si mesmos do simbolismo olímpico, Moscow proclamou 1980 jogos a mais gloriosa de todos.Apesar das palavras corajosas, era óbvio para todos que os jogos foram seriamente diminuída pela ausência das equipes americanas, canadenses, alemães e japoneses. avaliação de David Kanin é provavelmente som: "A URSS perdeu uma quantidade significativa de legitimidade internacional sobre a questão Olímpico.

domingo, 7 de agosto de 2016

Resenha religiosa: Tratado de Devoção à Santíssima Virgem - S. Luís Maria Grignion de Montfort


Título: Tratado de Devoção à Santíssima Virgem
Autor: São Luís Maria Grignion de Montfort
Editora: Vozes
Ano: 44ª edição de 2014
Páginas: 320



São Luís Maria Grignion de Monfort foi sacerdote francês elevado à honra dos altares por sua exemplar fé mariana, inclusive no combate às heresias de seu tempo, particularmente os jansenistas, que tinham certa hostilidade com a devoção à Mãe de Deus, conforme a justa fé católica. O santo nasceu na cidade de Montfort-sur-Meu, localizada na região administrativa da Bretanha, no ano de 1673. Veio a falecer em 1726. É hoje candidato a tornar-se doutor da Igreja.

O livro em questão é um dos mais importantes tratados de mariologia. É dividido em oito capítulos, no qual explica detalhadamente os motivos pelos quais o verdadeiro cristão católico deve dar suma importância a Maria, ser devoto dela, apontando a maneira correta de fazê-lo, com abundante fundamentação teológica e bíblica. Além disso, trata-se de uma obra devocional, ensinando como consagrar-nos à Virgem Mãe, com exercícios espirituais e orações de grande valia.



O autor afirma sobre a Santa Virgem: “Ela deu Jesus Cristo ao mundo a primeira vez, a há de fazê-lo resplandecer também na segunda vez” (TVD 13)."

Abaixo, insiro um vídeo ilustrativo do padre Ricardo sobre a obra.



Esperanto e Marxismo

Como um dos temas mais tratados aqui neste blog é a questão do Esperanto, reproduzo aqui um texto de minha autoria já publicado em blogs da internet.

Esperanto e Marxismo

Alexandre Magalhães

Os revolucionários marxistas sempre tiveram um princípio inabalável: o internacionalismo. Trotsky a vida toda lutou contra a pseudo-teoria stalinista do "socialismo num só país", visto que, por sua própria natureza, tanto econômica quanto política, o socialismo precisa ser implantado no mundo todo. Não é por nada que o lema final do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels é "proletários de todos os países, uni-vos".

La Permanenta Revolucio - Jornal trotskista em Esperanto
publicado entre 1935-36. Orgão da propaganda
bolchevique-leninista e da IV Internacional [ 1 ]


Marx prenunciou no Manifesto que, com o avanço da tecnologia, particularmente dos meios de comunicação, criariam uma contradição para a burguesia, pois os operários adquiririam meios de entrar em contato uns com os outros com mais facilidade e em distância cada vez maiores. Esta previsão se cumpriu de forma absolutamente fidedigna, com as redes sociais, celulares, televisão e toda profusão enorme de meios eletro-eletrônicos de comunicação em massa.

Um dos maiores, senão o maior, obstáculo ao intercâmbio de relações de militantes de diversos países é o fator linguístico. As diferentes línguas muitas vezes criam barreiras intransponíveis entre as pessoas, o que causa um grande prejuízo, não só às questões do movimento operário, mas no âmbito da cultura, das artes, das relações humanas em geral.

As diferentes línguas criam "barreiras", termo que se tornou usual. Mas em cada época, a potência econômica exerceu o domínio da "língua internacional". Sempre houve, em particular para o comércio, a necessidade de uma língua de entendimento comum para a realização dos negócios; a potência militar-econômica acaba impondo sua língua, e com ela aspectos de sua cultura e modo de vida. Assim foi com o grego "koiné", com o latim, com francês e atualmente com o inglês.

Pululam argumentos sofismáticos para defender o inglês como língua de intercâmbio mundial.

O primeiro é de que ela é a "língua mais fácil do Ocidente". Pode até ser que o inglês seja uma língua pobre, mas não é fácil; a suposta facilidade vem do fato que estamos constantemente imersos em um mundo anglófono, com filmes e músicas neste idioma, o que facilita em muito o aprendizado. Para nós brasileiros, seria muito mais fácil utilizar espanhol ou italiano, por exemplo. Resta por evidente que o inglês é a língua dominante no mundo porque os Estados Unidos são a grande potência mundial, impondo hegemonia econômica e também cultural.

O sonho de uma língua "neutra", isto é, que não fosse imposta pela questão econômica ou militar, é antigo, sempre soou como uma "utopia". Não se acreditava na possibilidade de, de forma "artificial" ou "inventada" seria possível criar um idioma funcional.

Esta realidade caiu por queda pelas mão de um homem com habilidades especiais para com línguas, o médico judeu polonês Ludwik Zamenhof. Essa personalidade singular conseguiu um feito que parecia impossível: criou, sistematizou e popularizou uma língua de sua autoria, que ganhou o apelido de "Esperanto", que quer dizer "esperança".

Desde os primeiros dias o Esperanto foi alvo de ataques, às vezes violentos, de pessoas interessadas em manter o domínio cultural da potência política hegemônica. Naquela época, final do século XIX, o inglês despontava o mas o francês mantinha-se como língua mundial.

O argumento de que o Esperanto é uma língua "artificial" é facilmente desmontável. Ele não é "artificial", mas um idioma PLANEJADO, o que é razoavelmente diferente. Zamenhof chegou a tentar uma língua artificial baseada em monossílabos; não deu NADA certo. Foi então que ele baseou-se em um sistema que ele mesmo inventou, com 16 regras fixas e imutáveis.

Se há uma crítica se fazer ao Esperanto é seu eurocentrismo. Infelizmente, Zamenhof tinha que partir de algum lugar, e partiu daquilo que sabia: línguas europeias. Por isso o Esperanto vem de radicais latinos, gregos, eslavos e anglo-saxões. Mesmo assim, para um oriental, é 10 vezes mais fácil aprender Esperanto do que inglês. Esperanto não tem conjugação verbal; inglês tem. Esperanto não tem variação fonética; inglês tem.

Agora existe o grande argumento do "inglês fácil". Esse argumento é derrubado em si mesmo e também ajuda a espancar mais ainda a tese da "artificialidade" do Esperanto.

Primeiro teve se ter em conta que existem vários "inglêses" e não um só. Existe aquele - ou aqueles - que são falados nos Estados Unidos. Existe os falados na Grã Bretanha, cujo mais famoso é o da Inglaterra, mas há as variantes escocesas e irlandesas. Esses são idiomas NACIONAIS, NATURAIS. Mesmo assim, possuem diferenças grandes entre si, mesmo que não são dialetos, pois há mútua compreensão.

O fato mais "atípico" é que, sendo o inglês a língua franca internacional, surgiu "mais um inglês", o chamado "Simple English", que é o inglês que aprendemos nos cursos de idiomas, e aquele que usamos quando dois estrangeiros falam inglês. E este fato empírico comprova algumas coisas. Dois estrangeiros que falam o "Simple English", cheios do seus sotaques nacionais, compreendem-se melhor que um estrangeiro falando com um norte-americano ou britânico. Isto é, surgiu, TAMBÉM COM PLANEJAMENTO, uma língua franca que não tem uma raiz FIXA nacional; nenhum país fala Simple English; ELE É O INGLÊS INTERNACIONAL. Os outros são tão nacionais como qualquer língua, e muitas vezes, para o falante de uma língua neolatina, é praticamente impossível compreender um norte-americano, visto que as nossas línguas são silábicas, e o inglês nativo dos EUA absolutamente não. Os estrangeiros "sibilizam" o inglês, como também fizeram os falantes anglófonos na Índia.

Mais argumentos desmontam a tese da inviabilidade de uma língua planejada. O idioma oficial da República Federal da Alemanha é conhecido internacionalmente somente como "alemão". O que muitos não sabem é que esse "alemão" é UM TIPO DE ALEMÃO, conhecido como o "Alemão Oficial", ou Hochdeutsch, o chamado "Alto Alemão". Esse idioma até é falado desde criança por algumas regiões alemães, mas são minoria diante da profusão de dialetos. Sua "base" é a Bíblia de Lutero, ou seja, foi de onde foram tirados os "paradigmas de planificação do Hochdeutsch". Nem por isso ninguém critica o alemão.

O uso sistemático de uma língua fanca como o Esperanto não é um ato "revolucionário" em si mesmo, como poderiam pensar alguns pseudo gramscianos. Ele é uma ferramenta de comunicação entre internacionalistas, que poderia ser ensinada nos partidos, pois são necessários em média oito meses para um domínio razoável da língua.

Nota:

1. https://www.marxists.org/esperanto/sat/permanenta-revolucio/index.htm

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Resenha, coleção "Chess Classics": Questions of Modern Chess Theory, a soviet classic, de Isaac Lipnitsky

Título: Questions of Modern Chess Theory, a soviet classic (Questões da Teoria Moderna do Xadrez, um clássico soviético)
Autor: Isaac Lipnitsky
Editora: Quality Chess (Glasgow, Reino Unido)
Ano: primeira edição em russo de 1956. Edição britânica de 2008.
Formato: brochura
Páginas: 228
Idioma: Inglês




Este livro, considerado uma das mais influentes obras enxadrísticas entre os mestres soviéticos, tendo sido publicado originalmente em 1956 e até então inédito em língua inglesa. Infelizmente ainda não contamos com uma tradução castelhana ou portuguesa - que nos é mais acessível - desta pérola da maestria do rei do jogos.

Seu autor foi um fenomenal dos tabuleiros, e teria se consagrado ainda mais se a morte não o tivesse levado em idade precoce em 1959. Esta obra é, de forma unanime, tida como um dos mais influentes livros de xadrez do século XX.

Não se trata de um tratado, no entanto aborda tema para os mais iniciado, discutindo problemáticas partindo do pressuposto de que o leitor já tenha o conhecimento básico das estruturas e problemáticas postas no tabuleiro. 

O livro é dividido em 16 capítulos, escrito de uma forma livre, mais um debate, no qual o autor levanta mais questionamentos do que respostas, acerca de questões que na época estavam formando o que depois veio a ser conhecida como a "escola soviética de xadrez". Ele aborda temas como o centro, a mobilização das peças, a iniciativa, os gambitos modernos, entre outros.

Pode-se afirmar que a obra está a frente de seu tempo, buscando resolver problemas num momento transicional entre velhas e conservadoras formas de manusear a arte enxadrística, rumando para outras diferentes e mais modernas.

Para quem está avançando nos seus estudos de xadrez, vale a pena investir neste belo livro, que muito lhe ajudará a dar passos largos rumo a maestria.

O que foi dito do livro:

"Este livro soberbo obteve uma enorme reputação na URSS, e com uma boa razão... definitivamente o livro do mês, e muito provável o livro do ano" Bernard Cafferty, BCM

"'Questions of Modern Chess Theory' se lê como um livro de Dvoretsky - em todo lugar o autor delineia regras e princípios, mas nunca de uma forma de uma simplificação exagerada da sua posição... extremamente recomendado" IM Sam Collins, Chess Today

"Mesmo depois de 50 anos este trabalho permanece uma obra prima" John Elburg

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Resenha - Autores Gaúchos - Cães da Província - Luiz Antônio de Assis Brasil

Título: Cães da Província
Autor: Luiz Antônio de Assis Brasil
Editora: Mercado Aberto (Porto Alegre)
Páginas: 261
Formato: brochura



O autor desta obra, o intelectual, músico, jurista e professor universitário Luiz Antônio de Assis Brasil, já é um consagrado nas letras nacionais. Uma de suas especialidades é compor novelas e romances tendo como pano de fundo realidades históricas concretas, particularmente da realidade rio grandense, da qual é profundo conhecedor.

Fotomontagem com o retrato de Qorpo Santo

Neste livro, Assis Brasil propõe uma pequena narração novelada de singulares episódios da vida da pacata e provinciana Porto Alegre do II Império, os quais versam sobre a vida e obra de um dos tantos personagens folclóricos que povoam a memória e a vida da capital gaúcha, a do dramaturgo José Joaquim do Campos Leão, auto intitulado "Qorpo Santo" (com "q" mesmo), o qual, junto com o fanha da Rua da Praia, Maria Degolada e tantos outros, configuram um panteão de figuras exóticas do passado portoalegrense, com muitas histórias, reais ou imaginadas.


Qorpo Santo era uma pessoa de personalidade altamente irreverente, um homem a frente de seu tempo, mas cuja a genialidade andava pari passu com excentricidades e até "maluquices" intoleráveis ao ambiente de uma cidade que, mesmo capital, à época era uma minúscula caixa de fofocas, intrigas e até acontecimentos mais dantescos. Dentre entes configura-se o famoso caso da Rua do Arvoredo (ver a resenha de "Canibais" de David Coimbra, já resenhado neste blog), no qual um açougueiro catarinense e sua esposa européia são acusados - depois julgados e mortos - de matar pessoas e com suas carnes fazer linguiça de carne humana, fartamente consumida - inclusive em altas esferas sociais e eclesiásticas - da pequena Porto Alegre da época. Tal fato também compõe a narrativa de "Cães da Província", ainda que não de forma central.

Mas por conta do episódio do açougue e do consumo da carne canibalesca, a cidade viveu dias de polvorosa, situação que respingou na vida do não convencional Qorpo Santo. Dono de hábitos estranhos - como entrar em casa pelas janelas e conversar com governantes europeus como se visitassem sua casa - o dramaturgo é processado para que se lhe obtenha sua interdição. Sua resistência, seus amigos e todo o ambiente histórico pitoresco, formam um delicioso romance.

Em 2013 o jornal Zero Hora publicou que "Qorpo-Santo – batizado José Joaquim de Campos Leão – é uma figura do século 19 redescoberta cem anos depois, por iniciativa do professor Aníbal Damasceno Ferreira, morto em abril de 2013. Na década de 1950, ele se encarregou de encontrar volumes da obra do escritor com colecionadores e passou a divulgá-la entre a intelectualidade porto-alegrense. Seu grande achado foi um volume com 17 peças (uma delas não concluída) que representa, até hoje, a parte mais conhecida da produção de Qorpo-Santo.".

Algumas frases de "Cães da Província" são memoráveis, e aqui as transcrevo como um petisco antes da leitura do livro em si:

"Somos escravos de nossas palavras e senhores do nosso silêncio" (p. 90)"

"Divinizemo-nos antes, se pudermos!" (p. 52)

"A força de vontade, se bem domada e organizada, pode transformar a dor em motivo de alegria, uma vez ultrapassada" (p. 146)