quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Resenha: Como Eu Era Antes de Você e a continuação Depois de Você - Jojo Moyes

Títulos: Como eu era antes de Você e Depois de Você
Autora: Jojo Moyes
Editora: Intrínseca (Rio de Janeiro)
Formato: Brochura (capa mole)
Número de páginas: 318 (ambos)
País de origem: Inglaterra.


A saga de Louise Clark, uma jovem de vinte e poucos anos - já chegando aos 30 - e Will Traynor está há semanas na lista dos mais vendidos de, por exemplo, da revista Veja. Um sucesso editorial absoluto. O primeiro livro já virou filme hollywoodiano de grande bilheteria. 




Trata-se, por evidente, de uma nem tanto açucarada comédia romântica, mas bem ao gosto do grande público. Os personagens são bem construídos, mostrando o cotidiano de uma família de trabalhadores da Inglaterra (no caso de Louise) e de uma abastada - mas disfuncional - família burguesa do mesmo país, a de Will Traynor. O personagem masculino protagonista da trama teve, até os 33 anos, uma carreira meteórica de sucesso no setor de investimentos em valores mobiliários, chegando a ser aquilo que a burguesia chama de "CEO" de uma grande empresa de capital rentista. Tido como astuto e ousado, admirado e invejado por todos, vivia uma vida repleta de satisfações de todos os gostos, entregando-se as sacrossantas instituições do capitalismo, como o edonismo, a acumulação de fortuna e uma sexualidade que nunca respeitou suas parceiras. Apesar de vir de uma família abastada, não deixava de ser um self made man britânico, conhecidíssimo na "City", a versão londrina de Wall Street. Will realmente aproveitava tudo que o dinheiro pode comprar, principalmente fazendo viagens a lugares exóticos, esquiando, andando a cavalo na China, esportes radicais, etc. Uma espécie de sorte absoluta e de paraíso na terra o acompanharam nestas três décadas.

Mas como afirma o budismo, tudo é impermanente, ou nas palavras de Marx no Manifesto, "tudo que é sólido se desmancha no ar". Num dia comum de sua rotina de "trabalho", chuvoso, ao atravessar uma das rua da City, como já tinha feito milhares de vezes, Will encontra um destino catastrófico: é atropelado por uma moto, acidente que o deixa tetraplégico, movimentando só a cabeça e um dos dedos das mãos. Para ele era o fim de tudo.

Aí Louise entra na história. Carismática - apesar de uma enorme timidez - ela consegue impôr uma empatia com o destroçado emocionalmente Will. Ele cobra dela que "viva com mais intensidade", pois Louise nunca tinha saído da pequena cidade turística a 100km de Londres, só para poucas vezes conhecer a capital. Mas um abismo social os separa e suas visões de mundo são completamente diferentes. Will não vê nenhuma esperança em poder conviver com sua nova situação; Louise, ao contrário, tenta desesperadamente injetar-lhe doses elevadíssimas de otimismo, para dar um pouco de brilho à sua limitada vida.

Ambos trocam muito suas experiências, pontos de vista sobre tudo: vida, arte, diversões e até amor. Não é adiantar o final ou estragar o livro, mas é óbvio que entre os dois personagens surge uma afeição fortíssima, mesmo que Will, por conta do acidente, tenha ficado permanentemente impotente.

São hilárias algumas tentativas frustradas de Louise a levar Will a "divertir-se", particularmente o episódio em que ela o leva para assistir uma corrida de cavalos, onde tudo sai errado. Por outro lado, Will leva Louise, pela primeira vez, a um concerto sinfônico, e esta fica estasiada com tudo que vê, sente e ouve.

No mais não posso contar o fim, mas infelizmente uma mensagem otimista não vinga. Isso contamina a continuação - que é bem inferior ao primeiro livro - na qual Louise tem que lidar com as sequelas do desaparecimento de Will, particularmente seu encontro com uma filha encapetada dele, feita nos tempos de universidade, a qual ele nunca conheceu. Louise e suas crises pessoais - bem como de sua família - também centralizam o romance, mostrando bem o cotidiano de uma comum família britânica.

Cabe aqui comentar algo de cunho muito pessoal. Depois de ler "Como eu era antes de você" resolvi ver o filme. Apesar de ser um profundo questionador do projeto de vida que o capital nos oferece, senti uma ponta de inveja de Will, acentuada pelo fato de que o ator que o interpretou ser um homem de muito boa aparência. Quando ele interroga Louise sobre o que ela faz para "dar sentido à sua vida" me senti atingido, questionando minha própria existência, e o fato de todos - ou quase todos - sermos prisioneiros de uma certa ou grande rotina claustrofóbica. Não consigui ir adiante na pelícola.




Entretanto creio que os livros levantam questões relevantes, como a discussão da distanásia e do direito do paciente dipôr de sua própria vida. São questões muito importantes. Não vejo como causalidade o sucesso desta dupla.