quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Resenha - Autores Gaúchos - Cães da Província - Luiz Antônio de Assis Brasil

Título: Cães da Província
Autor: Luiz Antônio de Assis Brasil
Editora: Mercado Aberto (Porto Alegre)
Páginas: 261
Formato: brochura



O autor desta obra, o intelectual, músico, jurista e professor universitário Luiz Antônio de Assis Brasil, já é um consagrado nas letras nacionais. Uma de suas especialidades é compor novelas e romances tendo como pano de fundo realidades históricas concretas, particularmente da realidade rio grandense, da qual é profundo conhecedor.

Fotomontagem com o retrato de Qorpo Santo

Neste livro, Assis Brasil propõe uma pequena narração novelada de singulares episódios da vida da pacata e provinciana Porto Alegre do II Império, os quais versam sobre a vida e obra de um dos tantos personagens folclóricos que povoam a memória e a vida da capital gaúcha, a do dramaturgo José Joaquim do Campos Leão, auto intitulado "Qorpo Santo" (com "q" mesmo), o qual, junto com o fanha da Rua da Praia, Maria Degolada e tantos outros, configuram um panteão de figuras exóticas do passado portoalegrense, com muitas histórias, reais ou imaginadas.


Qorpo Santo era uma pessoa de personalidade altamente irreverente, um homem a frente de seu tempo, mas cuja a genialidade andava pari passu com excentricidades e até "maluquices" intoleráveis ao ambiente de uma cidade que, mesmo capital, à época era uma minúscula caixa de fofocas, intrigas e até acontecimentos mais dantescos. Dentre entes configura-se o famoso caso da Rua do Arvoredo (ver a resenha de "Canibais" de David Coimbra, já resenhado neste blog), no qual um açougueiro catarinense e sua esposa européia são acusados - depois julgados e mortos - de matar pessoas e com suas carnes fazer linguiça de carne humana, fartamente consumida - inclusive em altas esferas sociais e eclesiásticas - da pequena Porto Alegre da época. Tal fato também compõe a narrativa de "Cães da Província", ainda que não de forma central.

Mas por conta do episódio do açougue e do consumo da carne canibalesca, a cidade viveu dias de polvorosa, situação que respingou na vida do não convencional Qorpo Santo. Dono de hábitos estranhos - como entrar em casa pelas janelas e conversar com governantes europeus como se visitassem sua casa - o dramaturgo é processado para que se lhe obtenha sua interdição. Sua resistência, seus amigos e todo o ambiente histórico pitoresco, formam um delicioso romance.

Em 2013 o jornal Zero Hora publicou que "Qorpo-Santo – batizado José Joaquim de Campos Leão – é uma figura do século 19 redescoberta cem anos depois, por iniciativa do professor Aníbal Damasceno Ferreira, morto em abril de 2013. Na década de 1950, ele se encarregou de encontrar volumes da obra do escritor com colecionadores e passou a divulgá-la entre a intelectualidade porto-alegrense. Seu grande achado foi um volume com 17 peças (uma delas não concluída) que representa, até hoje, a parte mais conhecida da produção de Qorpo-Santo.".

Algumas frases de "Cães da Província" são memoráveis, e aqui as transcrevo como um petisco antes da leitura do livro em si:

"Somos escravos de nossas palavras e senhores do nosso silêncio" (p. 90)"

"Divinizemo-nos antes, se pudermos!" (p. 52)

"A força de vontade, se bem domada e organizada, pode transformar a dor em motivo de alegria, uma vez ultrapassada" (p. 146)