domingo, 7 de agosto de 2016

Esperanto e Marxismo

Como um dos temas mais tratados aqui neste blog é a questão do Esperanto, reproduzo aqui um texto de minha autoria já publicado em blogs da internet.

Esperanto e Marxismo

Alexandre Magalhães

Os revolucionários marxistas sempre tiveram um princípio inabalável: o internacionalismo. Trotsky a vida toda lutou contra a pseudo-teoria stalinista do "socialismo num só país", visto que, por sua própria natureza, tanto econômica quanto política, o socialismo precisa ser implantado no mundo todo. Não é por nada que o lema final do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels é "proletários de todos os países, uni-vos".

La Permanenta Revolucio - Jornal trotskista em Esperanto
publicado entre 1935-36. Orgão da propaganda
bolchevique-leninista e da IV Internacional [ 1 ]


Marx prenunciou no Manifesto que, com o avanço da tecnologia, particularmente dos meios de comunicação, criariam uma contradição para a burguesia, pois os operários adquiririam meios de entrar em contato uns com os outros com mais facilidade e em distância cada vez maiores. Esta previsão se cumpriu de forma absolutamente fidedigna, com as redes sociais, celulares, televisão e toda profusão enorme de meios eletro-eletrônicos de comunicação em massa.

Um dos maiores, senão o maior, obstáculo ao intercâmbio de relações de militantes de diversos países é o fator linguístico. As diferentes línguas muitas vezes criam barreiras intransponíveis entre as pessoas, o que causa um grande prejuízo, não só às questões do movimento operário, mas no âmbito da cultura, das artes, das relações humanas em geral.

As diferentes línguas criam "barreiras", termo que se tornou usual. Mas em cada época, a potência econômica exerceu o domínio da "língua internacional". Sempre houve, em particular para o comércio, a necessidade de uma língua de entendimento comum para a realização dos negócios; a potência militar-econômica acaba impondo sua língua, e com ela aspectos de sua cultura e modo de vida. Assim foi com o grego "koiné", com o latim, com francês e atualmente com o inglês.

Pululam argumentos sofismáticos para defender o inglês como língua de intercâmbio mundial.

O primeiro é de que ela é a "língua mais fácil do Ocidente". Pode até ser que o inglês seja uma língua pobre, mas não é fácil; a suposta facilidade vem do fato que estamos constantemente imersos em um mundo anglófono, com filmes e músicas neste idioma, o que facilita em muito o aprendizado. Para nós brasileiros, seria muito mais fácil utilizar espanhol ou italiano, por exemplo. Resta por evidente que o inglês é a língua dominante no mundo porque os Estados Unidos são a grande potência mundial, impondo hegemonia econômica e também cultural.

O sonho de uma língua "neutra", isto é, que não fosse imposta pela questão econômica ou militar, é antigo, sempre soou como uma "utopia". Não se acreditava na possibilidade de, de forma "artificial" ou "inventada" seria possível criar um idioma funcional.

Esta realidade caiu por queda pelas mão de um homem com habilidades especiais para com línguas, o médico judeu polonês Ludwik Zamenhof. Essa personalidade singular conseguiu um feito que parecia impossível: criou, sistematizou e popularizou uma língua de sua autoria, que ganhou o apelido de "Esperanto", que quer dizer "esperança".

Desde os primeiros dias o Esperanto foi alvo de ataques, às vezes violentos, de pessoas interessadas em manter o domínio cultural da potência política hegemônica. Naquela época, final do século XIX, o inglês despontava o mas o francês mantinha-se como língua mundial.

O argumento de que o Esperanto é uma língua "artificial" é facilmente desmontável. Ele não é "artificial", mas um idioma PLANEJADO, o que é razoavelmente diferente. Zamenhof chegou a tentar uma língua artificial baseada em monossílabos; não deu NADA certo. Foi então que ele baseou-se em um sistema que ele mesmo inventou, com 16 regras fixas e imutáveis.

Se há uma crítica se fazer ao Esperanto é seu eurocentrismo. Infelizmente, Zamenhof tinha que partir de algum lugar, e partiu daquilo que sabia: línguas europeias. Por isso o Esperanto vem de radicais latinos, gregos, eslavos e anglo-saxões. Mesmo assim, para um oriental, é 10 vezes mais fácil aprender Esperanto do que inglês. Esperanto não tem conjugação verbal; inglês tem. Esperanto não tem variação fonética; inglês tem.

Agora existe o grande argumento do "inglês fácil". Esse argumento é derrubado em si mesmo e também ajuda a espancar mais ainda a tese da "artificialidade" do Esperanto.

Primeiro teve se ter em conta que existem vários "inglêses" e não um só. Existe aquele - ou aqueles - que são falados nos Estados Unidos. Existe os falados na Grã Bretanha, cujo mais famoso é o da Inglaterra, mas há as variantes escocesas e irlandesas. Esses são idiomas NACIONAIS, NATURAIS. Mesmo assim, possuem diferenças grandes entre si, mesmo que não são dialetos, pois há mútua compreensão.

O fato mais "atípico" é que, sendo o inglês a língua franca internacional, surgiu "mais um inglês", o chamado "Simple English", que é o inglês que aprendemos nos cursos de idiomas, e aquele que usamos quando dois estrangeiros falam inglês. E este fato empírico comprova algumas coisas. Dois estrangeiros que falam o "Simple English", cheios do seus sotaques nacionais, compreendem-se melhor que um estrangeiro falando com um norte-americano ou britânico. Isto é, surgiu, TAMBÉM COM PLANEJAMENTO, uma língua franca que não tem uma raiz FIXA nacional; nenhum país fala Simple English; ELE É O INGLÊS INTERNACIONAL. Os outros são tão nacionais como qualquer língua, e muitas vezes, para o falante de uma língua neolatina, é praticamente impossível compreender um norte-americano, visto que as nossas línguas são silábicas, e o inglês nativo dos EUA absolutamente não. Os estrangeiros "sibilizam" o inglês, como também fizeram os falantes anglófonos na Índia.

Mais argumentos desmontam a tese da inviabilidade de uma língua planejada. O idioma oficial da República Federal da Alemanha é conhecido internacionalmente somente como "alemão". O que muitos não sabem é que esse "alemão" é UM TIPO DE ALEMÃO, conhecido como o "Alemão Oficial", ou Hochdeutsch, o chamado "Alto Alemão". Esse idioma até é falado desde criança por algumas regiões alemães, mas são minoria diante da profusão de dialetos. Sua "base" é a Bíblia de Lutero, ou seja, foi de onde foram tirados os "paradigmas de planificação do Hochdeutsch". Nem por isso ninguém critica o alemão.

O uso sistemático de uma língua fanca como o Esperanto não é um ato "revolucionário" em si mesmo, como poderiam pensar alguns pseudo gramscianos. Ele é uma ferramenta de comunicação entre internacionalistas, que poderia ser ensinada nos partidos, pois são necessários em média oito meses para um domínio razoável da língua.

Nota:

1. https://www.marxists.org/esperanto/sat/permanenta-revolucio/index.htm