sexta-feira, 17 de junho de 2016

O Significado do Xadrez - Emanuel Lasker (Campeão Mundial 1824-1921)

Traduzo livremente a introdução do livro  "The Soviet Chess Primer" - A Cartilha do Xadrez Soviético, do famoso enxadrista Emanuel Lasker.

O Significado do Xadrez

Texto de Emanuel Lasker
Campeão Mundial ente 1894-1921)
Prefácio do livro “The Soviet Chess Primer” de Ilya Mazelis.
Escrito em 1936, em Moscou, como prefácio.
Traduzido por Alexandre Magalhães.

A história do xadrez remonta a um tempo muito distante. Milhares de anos atrás – ninguém sabe exatamente quando – pessoas começaram a satisfazer suas necessidades de diversão fabricando tabuleiros, riscando linhas neles, e colocando pedaços de pedras ou peças nas casas (assim chamadas as intersecções entre as linhas), bem como estabelecendo movimentos para estes objetos. Apareceram milhares de esboços e rascunhos destes jogos. Ilustrações foram encontradas nas pirâmides egípcias. Eles foram mencionados em músicas e narrados em sagas. Um jogo chinês é datado de milhares de anos; o xadrez foi criado na Índia há dois mil anos. A forma hindu de xadrez inspirou vários jogos e se espalhou por toda a Ásia.

O xadrez hindu atravessou a Pérsia e chegou à Europa. As regras do jogo mudaram – elas eram mais racionais. O xadrez original recebeu muitas mudanças depois de centenas de anos atrás na Itália. Outrossim, demorou muito tempo para que as mudanças inseridas no jogo fossem aceitas na Europa toda. O que chamamos de xadrez é a versão europeia do jogo, disseminada em todo mundo.



Na Índia o xadrez procurava se aproximar ao máximo com a imagem de uma guerra. O tabuleiro de xadrez se figurava como um campo de batalha. As peças eram divididas em dois campos opostos de cores diferentes (branco e preto). A classificação das peças era feita de acordo com as divisões do exército indiano. Na cabeça do exército figurava o Rei, chefe supremo, e era por causa da defesa de sua vida que a batalha era travada. As tropas eram constituídas de elefantes e cavaleiros, que se distinguiam pela sua mobilidade e força, bem como uma bem armada infantaria. As peças eram movidas pelos jogadores mediante regras previamente estabelecidas. Os inimigos iam subtraindo peças uns dos outros até o momento que o rei resta sem defesa e “morre”.

Com o passar do tempo, as características da guerra se modificaram. O momento em que a vida de uma única pessoa - o rei – era o prêmio de toda uma batalha, recuou há um tempo muito distante. Também os elefantes saíram como parte das hostilidades. Agora o jogo de xadrez retomou características que tinha quando nasceu. Até hoje, o jogador de xadrez move suas peças de acordo com regras pré estabelecidas e se vê como um cavaleiro numa batalha da qual o sucesso depende do êxito de seus planos. Se quisermos hoje representar a moderna guerra no xadrez, necessitaremos modificar todas as regras do jogo. Os jogadores, por sua vez, não sentirão nenhum trauma em relação a estas modificações, visto que seus objetivos são muito claros, executar e avaliar seus planos concebidos; e qualquer regra que torne isso possível serve – desde que ambos os oponentes se ponham de acordo em cumpri-las rigorosamente. O melhor de tudo é que o jogo possui uma longa história, uma vasta literatura, que pode instruir quem se interesse por ele.



Na vida de um homem existem frequentes situações que nos forçam a decidir aonde colocarmos nossos maiores esforços e onde quais tipos de obstáculos devemos superar. Para isso, temos que ter um plano definitivo. A faculdade de pensar distingue o ser humano dos animais que age por instintos. Ao longo dos séculos, o ser humano realizou verdadeiros milagres: subjugou desertos fazendo-os frutificarem; conquistou vastas áreas e construiu cidades; incrementou a vida social; ele criou monumentos de arte que se eternizaram; ele criou a ciência e a tecnologia. Criação necessita de esforço e luta. E neste processo de combate, o homem não obtém sempre sucesso na obtenção do êxito de seu plano. Neste processo, muitos erros acontecem. O homem é propenso a produzir noções preconcebidas e preconceitos em vez de usar a razão para o julgamento criterioso. Ele é inclinado a por sua confiança na astúcia e fazer estratagemas ao invés de por sua força para ser guiada pela razão. Isso não é o suficiente para resolver e evitar erros, pois no calor da luta muitas boas intenções são esquecidas.

O jogador de xadrez é o grande beneficiário, e esta cultura melhorada, pelo fato que ele adapta a si mesmo no vigoroso processo do jogo, e ele treina a si mesmo com indispensáveis planos com base em muita experiência.

Emanuel Lasker
Não há nenhuma dúvida que o treinamento constante foi uma proposta que o inventor dos inventores do xadrez (não temos a exata informação na origem do jogo) teve na sua mente. Isso fica evidente porque as regras do jogo não correspondem exatamente a uma guerra real. No xadrez, as duas partes têm exatamente as mesmas forças a sua disposição no início do jogo, bem como o mesmo tipo e quantidade de armas. Isso não acontece nas guerras reais. Com respeito ao jogo, ele é mais justo que a vida, aonde a força bruta geralmente prevalece. A vitória no xadrez não vem da força, mas do desenvolvimento do raciocínio. No xadrez, cada jogador joga uma vez e cede a jogada ao oponente. Nas guerras reais essa norma é totalmente desrespeitada. Esse respeito ao oponente tem um profundo significado. Ambos os jogadores têm igual chance de êxito, e a opinião de que aquele que teve o primeiro lance tem mais chances não procede, apesar de triunfar no debate. Os estudantes de xadrez devem adquirir o hábito civilizado de ouvir a opinião de seu oponente – e mais que isso, pacientemente esperar por ela.

Neste meio o estudante, gradualmente, vai se familiarizando com os princípios do combate. O conhecimento adquirido nos exercícios deriva para as partidas, e ele vai gradualmente adquirindo maestria. Mas ele deve ter a cautela de não seguir mecanicamente o conselho dos outros. Ele não deve jogar por hábito. Estudar a literatura ou seguir os conselhos de um professor não é o suficiente – o estudante deve formar seus próprios julgamentos e permanecer neles com persistência. Ao contrário, ele jogará xadrez da mesma forma que um papagaio pronuncia palavras – sem entender seu significado.

Pessoalmente eu nunca estudei mais de uma valiosa lição no mesmo dia que eu haveria de testemunhar um jogo sério entre mestres pela primeira vez. Meu irmão, acompanhado de outro mestre, estava jogando contra um par de outros mestres, consultando cada um deles. Cada um dos mestres estavam em salas diferentes. A mim foi atribuído o dever (era jovem na época) de retransmitir cada movimento dos oponentes em cada jogada. Como mensageiro das consultas, fui seguindo os movimentos sugeridos e prestando muita atenção nos argumentos a favor ou contra. A discussão de cada jogada chegava a durar um quarto de hora ou mais, até que cada um dos mestres chegasse a uma decisão final. Isso me ensinou a trabalhar no sentido da conclusão de acordo com um plano, e chegar aos meus próprios julgamentos. Se eu chegasse por mim mesmo a uma pista errada, eu ainda assim ganhava mais experiência, especialmente nas derrotas sofridas, contra a fé cega nos livros ou na autoridade de outros mestres. A derrota me afligia; mas sempre fazia-me tentar identificar meu erro e trabalhar melhor. Assim, pouco a pouco fui adquirindo um senso do que é bom ou ruim, o que genuinamente forte ou o que não passa de uma impressão. Depois disso eu não mais assustava meus oponentes com truques espertos; eu aprendi a confiar na força mais do que na intuição, mesmo que pensar assim é um caminho muito mais difícil. E eventualmente eu mudava o caminho que seguia, o que me dava melhores resultados.


Obviamente que o estudante não pode negligenciar toda a experiência acumulada antes dele. Isso não é somente porque o xadrez é um jogo milenar. Não é em vão que o jogo produziu grandes mestres que impactaram seus contemporâneos e as gerações futuras pelo estilo de seu jogo. Não é em vão que existe uma teoria do jogo que foi desenvolvida e tem aplicação prática. Não é em vão que torneios e matches entre mestres são observados e analisados. O estudante deve analisar e descobrir em que é melhor, se ele quiser devotar algum estudo útil ao aprendizado do xadrez. No entanto, ele pode sentir-se recompensado por este trabalho abundante, ele deve continuar o esforço de desenvolver sua criatividade. Com esta finalidade ele deve dedicar-se à análise, não somente o que lhe é recomendado, mas muito pelo contrário, ele deve devotar-se a tirar suas próprias conclusões. Desta forma ele vai adquirir aquilo que é mais valioso – a capacidade independente de ser criativo e fazer seus próprios julgamentos – e assim servir-se desse aprendizado para tornar-se de pleno direito um artista do jogo.

A perfeição na técnica sozinha é uma tarefa ingrata. Isso é perfeito para uma capacidade morta, adequada para vencer jogos contra oponentes medíocres e nada mais – enquanto que a faculdade de pensar e conceber planos permaneça constante e viva, nas mais inesperadas ocasiões, tanto no xadrez como na vida em si.


Essa faculdade é a mais importante e é precisamente dela que o jogador de xadrez deve desenvolver pelo exercício. Depois de algum tempo dedicado a devotar bastante atenção ao xadrez e portanto não pode deixar de avançar na maestria no xadrez, naturalmente vai adquirir o hábito independente e criativo de criar planos de singular valor para si mesmo, sabendo adaptar-se a várias situações diferentes da vida. O esforço expendido na aquisição e desenvolvimento dessas habilidades não pode ser desperdiçado.