domingo, 19 de junho de 2016

Grandes Mestres, personalidades controvertidas (I): Bobby Fischer

Bobby Fischer no auge da carreira

Robert James Fischer (1943-2008), de apelido "Bobby", é o maior mito do enxadrismo norte-americano. Em plena guerra fria e com a hegemonia brutal dos soviéticos nos campeonatos de xadrez, Fischer sagrou-se campeão mundial de forma heróica, contra o soviético Boris Spassky. O feito foi celebrado nos EUA de forma entusiástica, pois o tabu da invencibilidade soviética havia sido quebrado.

No entanto, Bobby Fischer nunca jogou xadrez para ser uma peça da Guerra Fria. É dele a seguinte afirmação:

"Os Estados Unidos são baseados em mentiras. São baseados em roubo (...) A história do país é basicamente o quê? Ganhar algo do nada. Certo? Tomar. Matar. Eles invadiram o país; roubaram as terras dos indígenas. Mataram quase todos eles. Trouxeram escravos para trabalhar os campos, construir o país. Certo? (...) Agora por quê o homem branco não veio à América de maneira civilizada, dizendo nós somos perseguidos na Europa, não temos liberdade de religião? Gostaríamos de vir aqui. Gostaríamos de assimilar. Gostaríamos de nos casar com suas mulheres, etc, certo? Mas não. Eles disseram estamos vindo aqui para tomar sua terra e matá-los, certo? (...) Essa é a história dos Estados Unidos, um país desprezível. Mesmo como garoto, eu nunca tive o menor interesse em história americana. Nunca! Eu sabia que havia algo de podre no Reino da Dinamarca".


Bobby Fischer e Spassky na final de 72


Bobby Fischer foi um verdadeiro gênio, talvez só superado por Kasparov. Foi campeão norte-americano 8 vezes e venceu praticamente todos os torneios que participou.

Traduzo aqui uma pequena introdução ao livro "Bobby Fischer Teaches Chess" (Bantam Books), ainda sem tradução no Brasil:


O FENOMENAL BOBBY FISCHER

Ele nasceu com o nome de Robert James Fischer em 9 de março de 1943, em Chicago, mas cresceu no Brooklyn. Quando ele tinha seis anos, sua irmã Joan lhe comprou um tabuleiro de xadrez, no qual aprendeu as primeiras noções.
O desenvolvimento de Bobby no xadrez é incomparável. Quando ele tinha 30 anos, ele tinha alcançado fama internacional proveniente da vitória naquele que foi considerado o "jogo do século". Em 1957 ele foi campeão dos EUA pela primeira vez. Ele tinha 14 anos. Bobby ganhou ou empatou todas as partidas que disputou nos quatro anos seguintes.

Em 1963-64 Bobby realizou o inédito feito de, no Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos, ganhar todos os onze jogos sem um único empate.
Em 1965, no Capablanca Memorial Tournament, Bobby 
demonstrou mais um episódio de sua lendária energia. Tendo em vista a Revolução Cubana e o veto de acesso de cidadão norte-americanos ao país de Fidel, Bobby revolucionou e jogou contra seus oponentes através de teletype. Foi um feito até então inédito em todos os campeonatos.

Em 1970 ele realizou mais um dos maiores feitos do xadrez mundial. Ele venceu sete jogos diretos num torneio internacional. Foi neste ano que ele venceu Mark Taimanov, um russo, em uma das rodadas do campeonato mundial.
Ele alcançou o primeiro conhecido como "shutout", que é o mach que um dos jogadores não ganha nenhuma partida. O placar foi seis a nove. Bobby havia ganho treze partidas consecutivas. No round seguinte ele bateu o dinamarquês Bent Larsen pelo mesmo escore! Dezenove jogos numa mesma carreira!

O próximo desafio de Fischer seria o ex-campeão mundial Tigran Petrosian, um soviético, em Buenos Aires; ganhando estaria classificado para a finalíssima com Spassky. Contra Petrosian, Bobby ganhou o primeiro jogo com a tática de prolongar a partida. Então ele ficou resfriado e perdeu a segunda partida. Tudo ficou em suspenso até que Bobby se recuperou. Ele venceu.

Segundo um especialista alemão em xadrez falou à revista Life, "nenhum outro jogador tinha tanta ferocidade para vencer. No tabuleiro ele irradiava perigo, e mesmo os oponentes mais fortes se sentiam 'gelados'. Eles eram coelhos e ele uma pantera. Mesmo suas fraquezas eram perigosas. Quando jogava com brancas ele sempre abria o jogo da mesma maneira, o que possibilitava seus oponentes fazerem planos de forma antecipada. No entanto, ele era tão forte que os planos nunca funcionavam. No meio-jogo ele era preciso, inventivo e fabuloso, e no final simples que ninguém o vencia"

 
Fischer tinha uma personalidade irascível e era hostilizado por outros jogadores. Seu ego era monstruoso e sua competitividade passava dos limites. Perdeu a serenidade muitas vezes.

Fischer largou o xadrez no ápice de sua carreira de forma inexplicável. Para provar que não era um marionete da Guerra Fria renunciou à cidadania americana e tornou-se islandês. 

Ficou famosa sua declaração sobre os atentados de 11 de setembro, de que para ele pouco importava, e que os judeus eram "ladrões, mentirosos e bastardos".

Bobby Fischer inventou uma modalidade de xadrez que denominou "960". As peças da segunda linha são dispostas de maneira aleatória, com o intuito de que o jogador não tenha que memorizar aberturas, usando sua criatividade.