sábado, 31 de outubro de 2015

Resenha: Trilogia "Divergente", Verônica Roth - As distopias e a luta de classes


Os três volumes, Insurgente

Títulos: Divergente (1º vol.), Insurgente (2º vol) e Convergente (3º vol)
Autora: Veronica Roth (EUA)
Editora: Rocco (Jovens Leitores)
Ano: 2014/15
Nº de páginas: por volta de 500 cada volume.
Formato: Capa semi-mole.



Sinopse e crítica: estamos num tempo de "moda" das chamadas "trilogias distópicas", sequência de histórias que se passam num mundo que é o exato contrário de uma utopia, ou seja, basicamente são realidades que se definem como "barbárie" (eu acrescentaria o "barbárie capitalista", que é sempre o modo de produção ainda vigentes nestes "mundos"). Um dos grandes sucessos atuais desse popular gênero "teen nerd" é a trilogia "Jogos Vorazes", de Suzane Collins, também norte-americana.

Ao longo da história da literatura do século XX várias distopias fizeram enorme sucesso e tornaram-se clássicos: 1984, de George Orwell, Farenheit 415 de Ray Bradbury e Admirável Mundo Novo, de Aldus Huxley. Os dois primeiros viraram épicos do cinema; 1984 filmado exatamente na época em que Orwell imaginou que os fatos narrados em sua obra iriam ocorrer, película britânica dirigida por Jonathan Gems e Michael Redford. A obra prima de Ray Bradbury ganhou vida nas telas pela mão do mestre François Truffaut, em 1966, considerado um dos maiores clássicos da ficção científica.

A trilogia ora comentada, Divergente, de Veronica Roth, tem como pano de fundo a cidade de Chicago, Illinois, cercada por muros por todos os lados, na qual se estabelece uma micro sociedade de uma cidade só, com um sistema de organização totalmente particular. A ideia é que, no passado, a humanidade haveria se exterminado em lutas intestinas, as quais, supostamente, teriam origem na "natureza humana", nos principais defeitos de caráter das pessoas que entrariam descontrole, como ira, agressividade, egoísmo, etc.

Assim, essa Chicago pós pós moderna divide-se em "facções", uma metáfora das classes sociais. São as facções a que devem ser membros os cidadãos da cidade: Audácia (que valoriza a "coragem" como virtude cardinal humana), a Amizade (que mantém a "fraternidade" e a alegria), a Abnegação (cuja pedra de toque é o "altruísmo" e também a caridade), a Erudição (conhecimento) e, por fim, a Franqueza (cujo valor é a "sinceridade"). Cada facção é representada por um "símbolo" gráfico (veja ilustração abaixo).




O problema é que o sistema de facções, longe de "harmonizar" as relações sociais nesta distopia, criam conflitos entre si, pois cada uma tende a crer que sua atividade é mais importante para a manutenção da estrutura social. Mas o pior de tudo, é que nem todos os que vivem em Chicago entram para uma facção; com o tempo, e com os rígidos testes de iniciação para a admissão plena em cada grupo, começa a aumentar um exército de "sem-facção", que são pessoas totalmente - e literalmente - "à margem" da sociedade faccionada. O lema "facção antes do sangue" e tido como precioso, ou seja, a facção é mais importante inclusive que os laços familiares; a pertença a ela define o indivíduo, o qual passa ter um "lugar ao sol", sem o qual sua situação é a de um "perdido", isto é, um "sem facção". A Abnegação, uma das facções, que é a que tem o "mando" do governo desta sociedade sob o pretexto de que seu valor "altruísmo" seria o mais adequado para exercer autoridade, começa a, ao perceber a crise do aumento exponencial dos "sem-facção", prestar-lhe caridade.

Assim, os indivíduos "sem facção", expulsos ou considerados inaptos a pertencer aos grupos na qual a cidade é dividida, passam a viver de trabalhos dos quais os membros "integrados" da sociedade não se sujeito: motoristas de trem e de ônibus, catadores de lixo, varredores, etc. Qualquer paralelo com os imigrantes, legais ou ilegais, no chamado "primeiro mundo", não é mera coincidência.

Desde Metropolis, o clássico do austríaco Fritz Lang de 1927, que quase todas as distopias têm como pano de fundo a revolução social. Tratam-se de sociedades capitalistas onde a desigualdade social chegou a extremos ainda mais
inconcebíveis que a nossa - fora o continente Africano - nas quais, mais cedo ou mais tarde, os grupos "inferiores" entram em convulsão contra a ordem vigente. Em Metropolis se faz um grande libelo ao "acordo harmônico de convivência entre capital e trabalho", tentando mostrar que aquela sociedade distópica do início do filme, afinal, pelo acordo entre trabalhadores e capitalistas, encontraria "paz e felicidade" utópicas, reacionáriamente utópica, pois é mais que ressabido que os interesses de capital e trabalho são irreconciliáveis.

Os protagonistas de Divergente são Beatrice Prior,
cognominada "Tris" em sua facção de escolha (Audácia), e Tobias Eaton, o "Quatro" da mesma Audácia, onde os dois se conhecem e se enamoram profundamente. Ambos "trocaram" de facção no ritual de iniciação que todo habitante dessa Chicago faz ao completar 16 anos; ambos pertenciam a Abnegação. Tobias é filho de outro personagem importante, Marcus Eaton, o líder de todas as facções, mas que foi um pai extremamente cruel e repressor; Tobias, ou "Quatro", literalmente "foge" para a Audácia para ficar longe do pai. 

Beatrice vem de uma família funcional e amorosa da Abnegação, onde tudo parece ir bem, mas para a surpresa de todos tanto ela quanto seu irmão Caleb, na iniciação, trocam de facção; ele para Erudição e ela para Audacia, rumo ao seu encontro com Tobias, que será seu instrutor até sua admissão oficial como membro da nova facção escolhida. Neste momento, se vê que os laços familiares - o que é humano, demasiado humano - pesam tanto ou mais que a "facção", pois são tidos como "traidores" e suas famílias eternamente mal vistas, por não terem conseguido, supostamente, passar os valores que cultivavam aos seus descendentes, que optam por outros rumos.

O primeiro volume é dedicado quase que exclusivamente à Beatrice "Tris" e sua "iniciação" na Audácia, um conjunto de provas marciais que lhe darão - caso seja classificada - o direito de pertencer a esta nova facção. A rivalidade entre os candidatos a novos membros é impressionante, bem como as exigências de crueldades mútuas entre eles, estando o treinamento, como dito, bem mais próximo do que um exército de elite exigiria dos seus do que um grupo para o qual se escolhe passar toda a vida. Neste volume, Tris descobre ser uma "Divergente", ou seja, tem uma capacidade - que depois se verá ser de origem "genética" - de ter múltiplas aptidões.

Em todo o "sistema" são utilizadas "simulações", ou seja, usa-se drogas injetáveis que proporcionam alucinações com propósitos especiais. Durante o "teste de aptidão" de cada membro, aos 16 anos, para saber qual a facção ele é mais "apto", usa-se um tipo de soro que simula situações de medo, egoísmo, etc. e conforme as reações do jovem lhe é dado o veredito de qual seu destinho mais "recomendável", muito embora a decisão de qual facção escolher seja sempre sua. Os chamados "Divergentes" tem a capacidade particular de "manipular" simulações, isto é, eles não sucumbem às alucinações e permanecem com um grau de consciência o suficiente para que saibam que o que estão vivenciando não é realidade. Daí conseguem como que "burlar" ou "confundir" resultados. 

Durante a chamada "simulação dos medos", que é aplicada em Tris por seu futuro namorado Quatro, por enquanto ainda seu instrutor na iniciação da Audácia, Tris antevê que aquelas situações que lhe geram pânico não são reais, conseguindo safar-se delas e manter o controle em tempo recorde, o que denunciam sua "divergência".

Para não estragar ainda mais a história aos que vão ler a trilogia, só digo que o sistema começa a ruir no momento em que Jeanniny Mattews, a líder da Erudição, começa uma verdadeira caçada aos divergentes, ao mesmo tempo que disputa, com todos os requintes de deslealdade de qualquer luta política, a liderança da Chicago distópica.

Tris e Quatro passam pelas situações mais inusitadas. Mas seu romance é um dos temas centrais da trilogia, e talvez a autora gaste tinta demais nas "discussões de relação" de ambos, particularmente no terceiro volume.

O que imprime um caráter de certa forma "reacionário" à trama é o fato de que os "sem-facção" nunca são retratados como o subproduto de uma sociedade, que vamos e venhamos, é radicalmente injusta (se o propósito dela era construir algum tipo de harmonia, existem vícios de origem insanáveis, e isso nunca é explicitado, a divisão social vista como algo "natural" ou "inevitável" em qualquer sociedade, do futuro ou do presente). Suas pretensões, legítimas ante o desamparo social que vivem, pois de fato não pertencem ao sistema da Chicago faccional, são apresentadas quase como delírios de pessoas marginais, que, talvez, deveriam resignar-se com sua situação. 

As duas primeiras partes, Divergente e Insurgente, são narradas do ponto de vista de Beatrice; Convergente muda essa perspectiva narratória, alternando capítulos em que o narrador continua sendo Beatrice e outros em que passa a ser Tobias. Não muda muito, mas não se entende o porquê de tal cambio. 

As facções são sempre colocadas como algo absolutamente próprios e pertencentes a cada indivíduo, uma parte indelével de sua natureza e identidade. O ruir do sistema de facções parece que fará estas pessoas perderem a si mesmas. É como que acreditar que a revolução social é impossível porque uns foram "talhados" para algumas tarefas - de obediência - e outros para as de mando. Basicamente o mundo de Divergente é um mundo de "castas", quase uma Índia, e em nada tem de "avançado" em relação ao próprio capitalismo, pois este, ainda que pequena - e cada vez menor - permite a mobilidade social. Mudar de casta em Divergente é uma coisa que se pode fazer uma vez na vida - aos 16 anos - e nunca mais, ou escorregar - o que alguns personagens expressar claramente ser "pior que a morte" - para o mundo dos "sem-facção".
Shailene Woodley

A trilogia já teve os dois primeiros volumes transformados em filme, de grande sucesso entre o público jovem principalmente, por seu caráter de ação. São bons filmes, razoavelmente fiéis aos livros. A direção é de Robert Schwentke; Shailene Woodley, a
Theo James como Tobias Eaton
protagonista de "Culpa é das Estrelas" (baseada na obra de John Green) é Beatric Tris Prior; Theo James é Tobias Quatro Eaton; conta ainda com a participação de Ansel Elgort, como Caleb, irmão de Tris, que com Shailene fez par romântico no mesmo "Culpa é das Estrelas".


A autora: Veronica Roth é uma jovem escritora de apenas 27 anos. É natural de Nova Iorque, mas seus irmãos moram na Chicago que é cenário da trilogia que lhe rendeu cerca de 17 milhões de dólares. Sua formação é em literatura e letras. É casada com o fotógrafo Nelson Ficht, e ambos, desde 2012, foram também morar em Chicago.


Veronica Roth









domingo, 25 de outubro de 2015

Especial: Crítica da reportagem "À Mesa com os Ditadores", de Carta Capital

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Crítica: Na famosa e muito conceituada - e excelente revista, diga-se de passagem - Carta Capital, em seu último número, 873 (28/10/215), pela pena do jornalista Nirlando Beirão, publicou-se uma reportagem intitulada "À Mesa com os Ditadores".

Hitler e Stálin: uma confusão proposital

Trata de um tema até meio desinteressante, que seriam os "hábitos alimentares" de todos os "ditadores" do século XX.

Mao Tsé Tung
A decisão de fazer esta crítica está no vício jornalistico e de muitos ditos "historiadores" que colocam num mesmo "saco" tanto os burocratas stalinistas que chefiaram com mão de ferro os Estados Operários, quanto os chefes fascistas, que por meio de golpes contra a classe operária e seus partidos, organizaram Estados capitalistas policiais. É o caso da comparação comum entre Hitler e Stálin; já que ambos foram "ditadores" e "assassinos", logo pertencem ao mesmo "gênero" de políticos. 

Kim Il Sung e Kim Jong Il, líderes da Coréia do Norte
Existe uma diferença brutal entre o fascismo e o stalinismo. Não é por nada que, durante a Segunda Guerra Mundial, as democracias aliaram-se não ao fascismo, mas à Stálin. Ele era um monstro sim, cometeu milhares de atrocidades, mas chefiava um Estado Operário, um país que, de uma forma degenerada, caminhava para o progresso. 

Ditadores fascistas: Salazar, Franco, Mussolini e Hitler
Salazar, Franco, Hitler e Mussolini representavam o que havia - e há, pois o fascismo não morreu - de mais atrasado na humanidade. Seus valores eram a "raça", um nacionalismo desvairado, a superioridade de seu país e povo perante todos os outros e um suposto "direito" de dominação destes, até conceitos medievais, que particularmente Hitler preservava. Hitler foi membro de sociedades "secretas" que cultivavam valores de uma suposta civilização alemã-ariana de tempos pretéritos, que teria sido desde sempre o "motor do progresso humano". A ideia de que a Idade Média tinha sido um dos melhores momentos da História perpassava a cabeça destes enlouquecidos o tempo todo. A democracia e seus valores - particularmente a IGUALDADE - eram tidos como "venenos" que jogavam os "piores" para cima em detrimento dos
Crianças judias em campos de concentração
"melhores". Em última análise, a eugenia, isto é, os processos de manipulação genética para que se construísse artificialmente um povo, ou uma raça, "superior" às outras, era o objetivo final, particularmente do nazismo. Se Hitler tivesse ganho a II Guerra, a escravidão teria voltado ao mundo - pois ele já escravizava judeus em seu território - e se ele não fizesse algum "pacto" com os EUA, teríamos vivido a hecatombe nuclear. 

A Revolução Russa é filha dos mesmos movimentos que deram origem ao mundo Ocidental que conhecemos hoje, particularmente a Revolução Francesa, exceto a Comuna de Paris, que foi um movimento de
Cartaz da Comuna de Paris
cunho essencialmente operário. Por isso que insistimos que, apesar do stalinismo ter "raptado" a Revolução de Outubro e vilipendiado seus ideais de liberdade e igualdade, de uma forma ou de outra a URSS permanecia sendo um país progressista. A Revolução tirou a Rússia tsarista, agrária, atrasada, desindustrializada, para a condição de um país com praticamente todo o analfabetismo erradicado, totalmente eletrificado, com gigantes hidrelétricas e estações de extração de petróleo (principalmente na região de Baku) e depois numa potência que foi capaz de derrotar a maior
Gagarin no Times
máquina de guerra da História (o nazismo), bem como mandar o primeiro satélite e o primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin. 

A reportagem de Beirão, ainda que de um tema insosso, reproduz essa confusão. São todos ditadores e ponto. São todos autores de regimes "totalitários", ponto. Não consegue colocar uma vírgula de diferenciação entre uns e outros, pois têm, como dito, uma natureza completamente diversa. Comunismo, Socialismo, Nazismo e Fascismo são categorias históricas RADICALMENTE DIFERENTES e não podem, de forma alguma, mesmo numa reportagem com tons de "chiste", serem colocados no mesmo barco. 

Repetimos que a revista CARTA CAPITAL é, na nossa opinião, A MELHOR REVISTA SEMANAL DO PAÍS. Tem uma qualidade editorial e uma linha de pensamento que destoa da grande mídia pró-golpismo, como dizem alguns, "coxinha". Mino Carta, seu proprietário, é um dos melhores jornalistas do país, e consegue com grande êxito dar um tom diferenciado à sua publicação. Não é por esta crítica que estamos desprezando a revista!

Mino Carta, proprietário da revista. Grande jornalista!




sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Especial: Revista Caros Amigos nº 76 "Modernidade Doente"


Título: Modernidade Doente
Autores: Vários, equipe editoral da Revista Caros Amigos
Editora: Editora Caros Amigos
Ano: 2015
Páginas: 31
Formato: Revista Tabloide


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Sinopse e crítica: A revista Caros Amigos é "show", como diz a gurizada. Tem um perfil plural, contando com a participação de pessoas do gabarito de José Arbex Júnior, Frei Betto, Leonardo Boff, o linguista Marcos Bagno, Laís Modelli, Fania Rodrigues e tantos outros.

A revista tem tiragem mensal e também publica edições especiais dedicadas a um tema único, como é o caso da presente. Em "Caros Amigos: Modernidade Doente", vários temas são abordados, como a "Depressão e Ansiedade" como "epidemias do século, a questão das redes sociais, o que são e como estão as cidades hoje, entre outros temas.

Gostaria de citar alguns em particular e deixar o resto para você comprar na banca de revista mais próxima (se ainda tiver) ou clicar no logo da revista e comprar online. 



O artigo "Solidão.com" de Fania Rodrigues foi meu preferido. Seu tema é a relação das redes sociais com a verdadeira sociabilidade, no mundo real, onde eu e você vivemos. Está já criado um mundo de fantasias nas redes sociais. Estou dizendo o óbvio ululante, pois todos sabem da famosa história de que "no Facebook todo mundo é feliz". Salvo algumas pessoas "diferentes" do padrão normal, só se posta no "Face", como é chamado, viagens, casamentos, festas, sempre bem vestido, alegre, na companhia de amigos.

Eu mesmo tenho que confessar que fiz várias postagens de minha viagem à Europa, num cruzeiro pelo Mar Adriático, quando conhecemos a Croácia, Grécia, Montenegro e as cidades de Veneza e Trieste na Itália (fomos de ônibus na Eslovênia também). Quem olha as fotos parece que aquilo foi um "sonho dourado". Tem uma foto de Trieste que eu olhei e achei incrivelmente bonita, MUITO MAIS BONITA QUE O LUGAR REAL! Isso me surpreendeu bastante. Aí vai ela:


Praça central de Trieste - Itália, eu com meu pai


São estes fenômenos da pós-modernidade que Fania Rodrigues, com uma clareza e lucidez excepcionais, aborda em seu artigo. "Tanta conectividade e tanta solidão, eis o paradoxo da atualidade." é a frase que abre a reflexão da jornalista. Ela afirma que o uso excessivo de redes sociais acentua a solidão. As pessoas acabem perdendo a referência com os amigos reais e ficam "boiando" num mundo "virtual" que não leva a lugar nenhum. Além disso, o bombardeio de informações, de todo tipo, além de posts de total inutilidade, besteiras inomináveis, etc. etc. que o usuário do Facebook fica sujeito. Não há como processar tudo, não há como interagir. Todos nós temos aqueles "amigos" que postam de forma enlouquecida, quase furiosos, viciados mesmo que estão em tentar dizer ao mundo coisas que estão trancadas em sua garganta e, sem sombra de dúvida, ELES NÃO TEM PARA QUEM FALAR! Sua solidão é de dar dó...

Outra matéria que não pode ser esquecida é "Geração de workaholics", de José Eduardo Bernardes. É mais longa que as outras e traz uma reflexão profunda sobre como as novas tecnologias, ao invés de liberar o homem da escravidão laboral, por conta do capitalismo selvagem que vivemos, coloca o trabalho acima de tudo e produz doenças. A matéria entrevista o sindicalista João Felício, hoje presidente da CSI - Confederação Sindical Internacional - que declara: "viver em função do trabalho é uma escravidão moderna".


"A internet, de fato, estendeu o trabalho além dos muros da empresa. A questão da globalização, da elevada competitividade, cria situações muito complicadas. O trabalhador precisa ter seu emprego, mas a que custo?"

Com esta frase encerro a resenha renovando o convite a meus leitores que comprem e leia a revista. Bom proveito!



sábado, 17 de outubro de 2015

Resenha: Rubem Alves, "Dogmatismo e Tolerância"



Capa da Obra. Ed. Paulinas.


Título: Dogmatismo e Tolerância
Autor: Rubem Azevedo Alves (Rubem Alves)
Editora: Edições Paulinas
Ano: 1982 (a versão atual é das Edições Loyola, dos jesuítas)
Páginas: 172
Formato: capa mole

O autor: Rubem Alves foi uma figura ímpar no contexto literário brasileiro. Foi um "inconformado" por excelência, no melhor sentido da palavra, usando essa sua "inconformidade" com situações da vida e do mundo que o rodearam desde a infância como um combustível incrível para sua grande capacidade criadora. Cronista, poeta, teólogo, romancista, autor de livros infantis, atuou em diversas áreas do saber literário com um intelectual de ponta, sempre requisitado para palestras e seminários. Foi chamado "intelectual polivalente". 
Destacado membro do movimento Teologia da Libertação, muito reprimido pelas hierarquias eclesiásticas, tanto protestantes quanto católicas, particularmente sob a autoridade do papa João Paulo II e seu braço direito Joseph Ratzinger, que depois virou Bento XVI.
Rubem Alves era Mestre em Teologia, com formação nos EUA (sua origem eclesial é a Igreja Presbiteriana), foi um dos maiores pedagogos brasileiros. Também tinha formação psicanalítica e vasto conhecimento nesta área. Seus primeiros livros tratavam justamente das dificuldades que enfrentou no meio protestante com suas ideias progressistas, o que lhe valeu várias "punições". 
Faleceu em 2014, aos 81, deixando um legado invejável para as futuras gerações. A obra ora resenhada é uma delas.

Sinopse e crítica: Dogmatismo e Tolerância é uma obra do início da maturidade intelectual de Rubem Alves. Trata-se de uma coleção de crônicas, tanto de cunho pessoal como crítico de vários assuntos concernentes a questão básica dos rumos do cristianismo no Brasil e na América Latina, da natureza do protestantismo brasileiro e do ecumenismo, particularmente com a Igreja Católica Romana. 
Rubem Alves conta, em uma das passagens, seu isolamento entre as crianças de sua classe, por não ser católico. Mineiro de Boa Esperança, que nas décadas de 30 e 40, distando a cidade 283 km de Belo Horizonte, estava ele em terras quase "polonesas", ou seja, "mais papistas que o Papa". No entanto, era membro de uma família presbiteriana, e nunca abandonou a identidade protestante, mesmo com sua pertença legítima no movimento TL (Teologia da Libertação), que teve como lideranças sacerdotes, leigos e religiosos católicos romanos, como Leonardo Boff, Dom Pedro Casaldáglia, Frei Betto, no Brasil, e em outros países latino americanos Gustavo Gutierres, Jon Sobrino e Juan Luis Segundo.

O livro inicia justamente com um libelo à identidade protestante do autor, texto denominado "O Vento Sopra onde quer: confissões de um protestante obstinado":

"sou protestante. Sou porque fui. Mesmo quando me rebelo e denuncio. Minha história não me deixa outra alternativa. Sou o que sou em meio às marcas do passado. Mesmo que eu não quisesse, esse passado continuaria a dormir comigo, assombrando-me as vezes com pesadelos e fúria"

Tudo isso é dito porque as obras de Alves podem ser comparadas ao famosíssimo "Igreja Carisma e Poder", de Leonardo Boff, numa versão protestante. Como Boff, que por conta do livro foi convidado pelo então cardial J. Ratzinger a um "silêncio obsequioso" de 10 anos, destituído de vários cargos que possuía na Igreja e outras punições - que culminaram com sua renúncia ás ordens do sacerdócio romano - Alves disseca as vicissitudes do protestantismo no Brasil. Seu americanismo, sua falta de aculturamento à realidade brasileira.

Frei Betto, OP e Leonardo Boff. Foto Atual.


São muitos os temas abordados por Rubem Alves, mas como este é um blog opinativo e com aspectos de pessoalidade de seu autor, digo que acredito que o tema mais relevante que Alves levantou em sua vida - e particularmente em Dogmatismo e Tolerância - é o tema da "identidade". Como ele, era um dos únicos - as vezes o único - que quando a professora perguntava a religião a massa levantava a mão quando se identificavam como católicos, alguns espíritas, e eu protestante.

Nasci na Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, IECLB, um dos dois ramos do luteranismo no país, o
chamado "tronco original germânico", vez que rivaliza com a Igreja Evangélica Luterana do Brasil, a IELB, que vem de uma missão de pregadores norte-americanos (mas que sua vez também tem origem alemã!), do chamado "Sínodo Luterano Missouri", um ramo "rebelde" da Igreja Evangélica Alemã (EKD, sigla original em alemão), a qual consideram "degenerada" por não preservar um "luteranismo autêntico". A mesma opinião hostil mantinham em relação à IECLB, mas as relações entre ambas são cordiais hoje em dia, sendo a unificação das duas, na minha opinião, algo só compreensível por interesses eclesiásticos, não da massa de fiéis, que na prática acreditam e professam a mesma fé luterana. O grande "defeito" de ambas, mesmo da IELB com sua origem norte-americana, é um excesso, as vezes radical em alguns membros, de sua "germanidade". Isso acabou acontecendo no mundo todo; a mensagem de Lutero revolucionou a Igreja, mas o luteranismo em si - não o protestantismo me geral, com seus infinitos ramos - ficou restrito à Alemanha, aos lugares de imigração alemã (como o sul do Brasil e Chile) e aos países da Escandinávia (que não tiveram surtos migratórios). Nunca romperam esse isolamento, que acabou sendo cultural e até teológico, pois a religião também é parte da cultura de um povo e se não expressa em sua língua, forma e costumes, isola-se. É por isso que de todas as Igrejas Históricas protestantes no Brasil, a IELB e a IECLB são as únicas que vêm perdendo membros a cada senso do IBGE.

Minha situação ainda era mais difícil, pois fui luterano meio que por "acidente", visto que tenho um sobrenome bastante "lusitano". Isso era sempre visto com olhos estreitos, como alguém que não era "de origem". Este "estranhamento" Rubem Alves coloca muito bem; mas ele sentia-se parte da sua comunicada eclesial, mas deslocado num mundo profundamente romanista. A Igreja Romana também tem um profundo problema de aculturamento no ambiente latino-americano, mostrando sempre seu caráter europeu colonialista. O movimento Teologia da Libertação tinha, entre outros objetivos, dar um basta nisso e vitalizar todo o cabedal cultural-religioso criado no Brasil ao redor do catolicismo; Nossa Senhora Aparecida e sua devoção, por exemplo, é algo profundamente brasileiro, uma santa negra achada nos rios por humildes pescadores, uma imagem na qual os escravos encontravam perfeita identificação, inclusive entrando para o panteão sincrético das religiões afro-brasileiras.
Mas os setores conservadores, até hoje, procuram manter de pé e como devoções "predominantes", por exemplo, Nossa Senhora de Fátima, que tem raízes brancas e europeias bem mais sólidas. Não é a toa que as organizações mais conservadoras e retrogradas da Igreja Católica têm em Fátima um pilar sólido de seu proselitismo.

Nesta obra, Rubem Alves explora os conceitos de "dogmatismo" - os pilares afastados da realidade latino americana, em particular - e "tolerância" - suas ideias ecumênicas, que se rivalizam no seio das Igrejas Históricas tradicionais. Rubem Alves usa a figura da "gaiola", como se fossemos pássaros presos pelos dogmas, que nos impedem de alçar voos mais altos, contrários ao destino do homem cristão, mas que estão repletos na História do Cristianismo. Enfim, o livro trata destas "gaiolas", como superá-las, que a todo tempo nos aprisionam.




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Dois pequenos brochuras de Trotsky: A Revolução Permanente na Rússia e Lições de Outubro


A REVOLUÇÃO PERMANENTE NA RÚSSIA, editora Antídoto, Portugal. 


Trata-se de uma palestra que Trotsky proferiu em 1932 na Dinamarca. Ele estava no auge de seu exílio político e teve que ir às escondidas para aquele país para ser observado atentamente por um auditório de jovens que queriam conhecer aquela figura que, de líder da Revolução, tinha sido alçado ao posto de maior traidor da causa do comunismo, fruto da propaganda stalinista.

De pronto Trotsky anuncia que proferirá a conferência em língua alemã, vez que não dominava o dinamarquês. Além disso, mesmo sendo multi poliglota, seu alemão era sofrível. Isso empobreceu o discurso.

Em uma das partes mais importantes, Trotsky explica didaticamente o que é a "revolução permanente", sua maior contribuição teórica ao marxismo. Diz ele:

"Em relação à suas tarefas imediatas, a Revolução russa é uma revolução burguesa. Mas a burguesia russa é contrarrevolucionária. Por conseguinte, a vitória da revolução só é possível com a vitória do proletariado. Ora, o proletariado vitorioso não se deterá ao programa da democracia burguesa, passará ao programa do socialismo. A Revolução russa tornar-se-a a primeira etapa da revolução socialista mundial"



Temos aqui um ponto central das diferenças políticas entre Trotsky e todos aqueles que, mesmo se dizendo marxistas, caíram nas garras - de uma forma ou de outra - do stalinismo. Segundo este, a revolução nos países de capitalismo periférico deveria processar-se por "etapas"; uma primeira em que a burguesia "nacionalista e progressista" assumiria o poder e instauraria um regime democrático constitucional. Só depois é que os comunistas estariam aptos a "tomar o poder".

Prestes (PCB), logo ao sair da cadeia, apóia Getúlio
O que se viu na História foram dezenas de PCs funcionando como apêndices de partidos burgueses, como foi o caso do PCB, que apoiou o getulismo e depois tentou de todas as formas aproximar-se de Jango e participar do governo, numa miopia política incrível, pois nunca contaram com a hipótese do golpe militar de 1964. O que ocorreu foi uma crise sem precedentes no PCB, sendo que várias dissidências formaram grupos que forma para a chamada "luta armada", e acabaram morrendo nas mãos do aparelho repressivo militar.

Em outra parte do mesmo texto, na mesma página do livro (nº 58), Trotsky avalia a grande pedra de toque do stalinismo: a doutrina do socialismo num só país. Stálin acreditava que a URSS sobreviveria isolada do mundo capitalista e mesmo que não acontecessem revoluções em outros países, a "pátria mãe do comunismo" estaria a salvo. Chegou a afirmar, em sua famosa entrevista no New York Times, que "nós fizemos nossa revolução. Se os outros quiserem, que façam a sua". Seu internacionalismo não existia.

Afirma Trotsky:

"As atuais forças produtivas ultrapassam desde há muito as barreiras nacionais. A sociedade socialista é irrealizável nos limites nacionais. Por mais importantes que sejam os sucessos econômicos de um Estado Operário isolado, o programa do 'socialismo num só país' é uma utopia pequeno burguesa. Só uma Federação Européia, e em seguida mundial, de repúblicas socialistas, pode abrir caminho para uma sociedade socialista harmoniosa"

Na China, por diversas vezes, Stálin ordenou Mao Tsé Tung a aliar-se com o partido burguês nacionalistas Kuomitang. E sempre foram alianças desastrosas para os comunistas, inclusive massacrados por membros do Kuomitang. Só quando Mao e o PC chinês resolveram agir sozinhos é que alcançaram resultado positivo.

Basicamente o pensamento de Trotsky centra-se na teoria da Revolução Permanente. Ela é a chave para entender o trotskismo. E este pequeno volume nos ajuda muito.



AS LIÇÕES DE OUTUBRO, editora Nosso Tempo, Coimbra, Portugal

Esse pequeno brochura foi escrito às pressas em 1924, ano que, logo em janeiro, falecera Lênin. Imediatamente o aparato stalinista começou a mover-se para tomar o poder, e isso significava claramente afastar Trotsky de qualquer posto de poder político.

Logo no início, Trotsky afirma claramente a necessidade imperiosa dos revolucionários estudarem a Revolução de Outubro. Segundo ele, os ensinamentos da revolução que ajudou a dirigir, são fundamentais para que não ocorram derrotas do proletariado em outras insurreições. Particularmente se vivia sob o espectro da derrota da revolução na Alemanha - grande esperança dos bolcheviques - na qual morreram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Segundo o autor, qualquer falta de clareza sobre o papel protagonista do Partido Revolucionário no processo de derrota da burguesia, levará, inevitavelmente, a derrotas.


Diz ele:

"Embora, como é evidente, saibamos que cada povo, cada classe e até cada partido se educam principalmente a partir de sua própria experiência, de modo nenhum isto significa que a experiência dos outros países, classes ou partidos, seja de pouca importância. Sem o estudo da Grande Revolução Francesa, da Revolução de 1848 e da Comuna de Paris, nunca teríamos realizado a Revolução de Outubro, mesmo com a experiência de 1905. " (p. 10)

Sendo assim, o livro analisa os pormenores da Revolução, o papel do partido e dos sindicatos, as famosas "Teses de Abril" (nas quais Lênin afirma a necessidade imediata de uma revolução de caráter proletário), a formação dos soviets e a insurreição em si.

Um livrinho de fácil leitura e que muito nos ensina.


Marx e Engels, "A Ideologia Alemã e Teses sobre Feuerbach", edição resumida


Título: A Ideologia Alemã e Teses sobre Feuerbach
Autores: Karl Marx e Friedrich Engels
Editora: Moraes
Ano: 1ª edição de 1984
Páginas: 119
Formato: brochura

Sinopse e crítica: A Ideologia Alemã é um dos livros mais conhecidos de Marx e Engels e, ao mesmo tempo, com a história
Hegel
mais obscura. O livro é uma polêmica filosófica de alto calibre com os chamados "irmãos Bauer", marcando o rompimento da dupla com o chamado "heglianismo de esquerda". Estes, apesar de críticas ao mestre (Hegel), ainda eram prisioneiros de uma lógica metafísica e idealista.


Foi o primeiro livro escrito a duas mãos pelos autores, mas só chegou ao público postumamente, em 1933, quando foi publicado em Leipzig na Alemanha, e em Moscou. 

Fazer uma resenha de A Ideologia Alemã é uma tarefa hercúlea, já que o próprio livro é uma obra monumental. Por isso ele chegou ao Brasil fragmentado, quando algumas editoras de esquerda, como a Editora Moraes, publicaram-no de forma resumida, particularmente com ênfase no primeiro capítulo, seguido das famosas Teses sobre Feuerbach, outro heglianista de esquerda que, segundo Marx e Engels, não conseguiu libertar-se completamente do idealismo filosófico.



Trata-se de um livro de filosofia, mas para os marxistas, a filosofia é um instrumento de trabalho na luta de classes, não um "abstrato" "pensar o mundo e as coisas". O materialismo dialético parte do pressuposto da chamada cognicibilidade da matéria, isto é, o mundo é material e pode ser conhecido pelo homem (no sentido de humanidade) através dos cinco sentidos e até mais, com o desenvolvimento da ciência. Assim eles dizem, na p. 23, quando afirmam a célebre frase de que "não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência".

Li este livro na minha adolescência. Fiquei absolutamente deslumbrado com as várias descobertas dos autores. A que mais me marcou foi quando os autores negam que exista "o homem" como "categoria filosófica". Explico-me. Por todos os séculos, todos os pensadores calcaram sua obra na análise de uma entidade abstrata que chamavam de "o homem", ou "humanidade", ou o que seja. Foi muito comum os debates sobre "a natureza humana", se "o homem" era "bom" ou "ruim" por essência (como em Rosseau) e tantos rios de tinta gastos nestas discussões.

Marx e Engels, por toda esta obra, têm por objetivo HISTORICIZAR todos os problemas. Não existe, de forma alguma, "um ou o 'homem'" abstrato, fora da história, muito menos uma metafísica "natureza humana". Não que isso seja algo determinista, como muitos acreditaram de forma equivocada e, até hoje, imputam ao marxismo a pecha de ser uma ideologia autoritária na essência, pois veda ao indivíduo sua natureza.

Ao contrário, Marx e Engels descobriram uma RELAÇÃO DIALÉTICA entre o homem, sua consciência, e o meio onde vive. Afirmam na p. 49 outra frase clássica: "as circunstâncias fazem os homens tanto quanto os homens fazem as circunstâncias".

Outro conceito que me marcou na época foi o questionamento do livro acerca de "rótulos ideológicos". Isso funciona mais ou menos
assim: algumas pessoas se dizem socialistas, anarquistas ou comunistas. Mas elas fazem o que exatamente? Sua atividade é intelectual literária, elas aderem a estas correntes do movimento operário no plano das ideias? Isso não faz ninguém nada. Segundo A Ideologia Alemã, só é comunista aquele que realmente é filiado a um partido comunista e exerce uma atividade militante, real e concreta na luta de classes. O resto é bazófia. A praxis é o critério da verdade.

Esta ideia de que o homem faz a si mesmo por ausência completa de uma natureza "prévia" que o conduza a algum lugar será a base da filosofia existencialista, particularmente de Jean-Paul Sartre. Tal corrente tem conexões fortes com o marxismo mas não é, de forma alguma, marxista.

Algumas correntes ditas marxistas revelam certo desprezo pela filosofia, pela filosofia em geral, acreditando que Marx deu cabo de tudo que esta matéria deveria conter. É lógico que as obras marxistas deram um salto gigantesco no conhecimento filosófico, bem como fixaram marcos bastante importantes e rigorosos para o entendimento do mundo. Vale citar aqui um dos grandes filósofos marxistas pós Marx, Engels, Lênin e Trotsky, Louis Althusser:
Louis Althusser


A filosofia surge logo que o domínio teórico aparece, logo que uma ciência (num sentido estrito) nasce. Sem a ciência não há filosofia, apenas visões de mundo. A aposta na batalha e o campo de batalha devem ser distinguidos. A aposta definitiva da luta filosófica é a luta pela hegemonia entre as duas grandes tendências de visão de mundo (materialista e idealista). O principal campo de batalha dessa luta é o conhecimento científico: contra ou a favor dele. Deste modo, a batalha filosófica mais importante ocorre na fronteira entre o conhecimento científico e o ideológico. Lá, as filosofias idealistas que depredam a ciência lutam contra as filosofias materialistas que servem às ciências. A luta filosófica é uma esfera da luta de classes existente entre visões de mundo. No passado, o materialismo sempre foi dominado pelo idealismo.

https://www.marxists.org/portugues/althusser/1968/02/filosofia.htm

Não sou certamente a pessoa mais qualificada para resenhar essa obra gigantesca, até porque li somente seu resumo. Muito ainda haverá de ser aprendido em A Ideologia Alemã. Termino com a famosa última tese sobre Feurbach, conhecidíssima, mas válida e atual:




"Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão é transformá-lo!"

O original de A Ideologia Alemã encontra-se disponível em português pela editora Boitempo.



Resenha: "A Montanha dos Sete Patamares", Thomas Merton


Título: A Montanha dos Sete Patamares
Autor: Editora Mérito (existe edição atual da Vozes)
Ano: 1954
Páginas: 462
Formato: capa dura/papel jornal (as edições mais modernas têm formatos diversos)



Sobre o autor: O livro em si é uma autobiografia e, portanto, você vai conhecer mais sobre Merton, ao menos sobre um período de sua vida que ele deixou ser exposto, pois existe outro livro que são excertos de seus diários que o autor deixou expresso em seu testamento que queria que fossem publicados somente 25 anos após sua morte. Aliás, sobre a morte de Merton repousam muitas dúvidas; ele, desde que tornou-se monge trapista, nunca havia saído da Abadia de Getsêmani, Kentucky (EUA); somente por conta de um encontro internacional de monges de várias religiões - entre os quais o Dalai Lama, com o qual Merton mantinha viva
correspondência - ele abandonou sua morada e, no alojamento do hotel onde ficou hospedado para o evento, após tomar banho, pisou em um fio desencapado de um ventilador e morreu eletrocutado. 
Merton foi uma pessoa ímpar na história do século XX. Por tempos esquecido, sua obra vem sendo lembrada a cada dia seus principais livros relançados por editoras católicas. Foi um escritor profícuo sobre vários temas: o amor, vida de oração, vida monástica, história do monaquismo, vida de santos, autobiografias e diários, livros de aforismos espirituais, liturgia, as mudanças do Concílio Vaticano II e muitos outros temas. Viveu somente 53 anos, mas deixou um legado de espiritualidade, ecumenismo e paz impressionantes. Também foi missivista com Martin Luther King Jr., ambos protestando contra a guerra do Vietnã, cada uma a sua maneira.
Abadia de Getsêmani, em dia de festa

Sinopse e crítica: A Montanha dos Sete Patamares não é um livro que possa ser convertido em quadrinhos; apesar de não ser complexa, guarda toda a intimidade do conflito do jovem Thomas - depois irmão e padre Luís - de sua vida dita "mundana" para a reclusão em um dos mais rígidos claustros da Igreja Católica Romana: a Ordem Cisterciense Reformada da Estrita Observância, os trapistas.
Cabe aqui um parêntesis: é muitíssimo comum, pessoas inclusive cultas, acreditarem que o apelido da Ordem, "trapista", venha do fato de que eles se vestem de trapos, ou ainda uma história maluca -atribuída a Jorge Luís Borges (que chegou a lançar um dicionário satírico com "ares de seriedade") - de que os trapistas "recolhiam restos de tecido - trapos - para fazer papel". Nada disso é verdade. Nunca usaram trapos e seu hábito é preto e branco, muito parecido com o hábito dominicano.

Monges trapistas em coro, com seu hábito típico.


Merton nasceu na Nova Zelândia. Seu pai sofria de certo indiferentismo religioso; já sua mãe pertencia a seita quacker, protestante, e ambos eram artistas plásticos. Merton nasceu, portanto, protestante, sendo batizado na Igreja Anglicana. Viajou por muitos países, sendo o primeiro os Estados Unidos, mas também as Bermudas; em sua adolescência foi morar com os avós na Europa, aonde conheceu a França, Itália e Inglaterra, onde estudou seus primeiros anos e sentiu certa repulsa pela Igreja da Inglaterra, pelo seu indiferentismo religioso.

Em 1934, já nos Estados Unidos, de volta, concluiu seus estudos em língua e literatura inglesas. É quando inicia-se uma intensa crise espiritual no jovem. Havia vivido uma vida na época tida como "dissoluta", mas que hoje seria o normal de um jovem ou adolescente, com namoradas e festas. Chegou a aproximar-se do movimento comunista norte-americano, pelo qual, por algum tempo, foi vivamente interessado, mesmo nunca sendo militante.
Merton, ao conhecer o catolicismo romano, tem uma experiência espiritual gradual. Fica entusiasmado com o carisma  romano, com suas múltiplas devoções e, particularmente, com a vida religiosa, com o clero e sua forma de vida, inexistente no protestantismo já por demais secularizado. O livro narra em detalhes as reflexões de Merton sobre a Igreja Romana e sua crise de valores, sobre o que cultivava até então como verdade, pois dizia-se ateu.

Imagem medieval. Cistercienses.
Logo aceita o batismo e torna-se fervoroso católico, ao ponto de querer ingressar na vida religiosa. Sua primeira opção são os franciscanos, que não o aceitam. Sua decepção é enorme mas não desiste. Ao descobrir a vida monástica procura o mosteiro trapista de Getsêmani, aonde passará o resto de seus dias.  O livro conta as duras provas que o noviço é submetido, a vida em comunidade monacal, narra a personalidade e a santidade de alguns irmãos, e a trajetória de Merton de irmão cooperador até sacerdote consagrado. Tudo entremeado de reflexões sobre Deus, a fé, a vida em comunidade e balanços de sua existência, o "antes" e o "depois" do mosteiro.

Merton torna-se, a princípio, como a maioria dos "convertidos", uma pessoa muito radical e de inclinação bastante conservadora. O livro narra, depois, que, durante uma enfermidade, Merton tem um "segundo despertar", no qual passa a ver a Igreja e a humanidade de uma forma diferente, mais aberta.

Também permeia toda a história os conflitos constantes entre Merton e seus superiores, uma vez que nosso herói tem pretensões intensas de viver uma vida eremítica, mesmo dentro de uma ordem de vida comunitária. Acaba construindo um pequeno eremitério onde exerce a contemplação e produz suas mais de 70 obras, além de seus famosos diários.

Uma trajetória singular, de um homem singular.

A obra é encontrada aos quilos em sebos e sites de venda virtual de livros usados. As reedições, mais modernas, normalmente nas livrarias da Editora Vozes. Pode ser também baixado da internet.

Existem somente dois mosteiros trapistas no hemisfério sul. Um na Argentina, próximo a Buenos Aires, e outro aqui no Brasil, no sul do Paraná, o lindíssimo Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo.



domingo, 11 de outubro de 2015

O Esperanto e seu estudo autodidata


Este é o livro mais famoso no Brasil para a aprendizado do Esperanto. Ele pode ser baixado na internet, com segurança, em formato pdf., no seguinte site

http://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/06/EsM-p.pdf

Vou reproduzir algumas perguntas e respostas sobre o esperanto de sites especializados na internet, bem como colar alguns vídeos:

Como o esperanto surgiu?
O esperanto é uma língua auxiliar para a comunicação internacional, de aprendizado rápido e fácil. Iniciado em 1887 pelo médico polonês Dr. Lázaro Luís Zamenhof, é amplamente utilizado, em escala mundial, tanto em congressos internacionais quanto em redes sociais, como o Orkut e o Facebook. É essencialmente um idioma neutro, isto é, que não pertence a nenhuma nação, e por isso é um eficiente instrumento para a preservação de todas as línguas e culturas do globo e para a promoção da igualdade entre os povos. A principal proposta do esperanto é a de que cada povo continue a falar sua própria língua materna e possa, conjuntamente, fazer uso de um idioma neutro nas comunicações internacionais.
Bandeira verde, símbolo do esperanto.
Apesar de seus mais de 120 anos de existência, ainda hoje, porém, muitas pessoas se perguntam o que vem a ser o esperanto, e aquelas que já ouviram falar dele geralmente têm ideias preconcebidas que muitas vezes não condizem com a realidade.
Hoje, o esperanto é, acima de tudo, uma língua viva. É um instrumento de comunicação entre pessoas, com história, cultura e evolução, usado diariamente para o tratamento dos mais diversos assuntos, por uma comunidade ativa e consideravelmente grande. ontem, porém, podemos também dizer que o esperanto era, de fato, um projeto de língua internacional.
Dr, Zamenfof, fundador do esperantismo. Selo em homenaagem.
Por que isso? Primeiramente porque, tendo surgido como projeto, o esperanto é uma língua “criada”, isto é, teve suas bases pensadas por pelo menos uma pessoa, que definiu regras gramaticais, palavras, fonética e tudo o mais que um língua precisa para funcionar. No caso do esperanto, esta pessoa foi o jovem médico polonês Luís Lázaro Zamenhof, que, em 1887, quando tinha apenas 28 anos, apresentou ao mundo uma brochura em russo que ensinava o idioma. E por que “de língua internacional”? Porque sua proposta é a de que o mundo utilize uma mesma língua, neutra, para a comunicação entre países, sem que cada nação deixe de cultivar seus próprios idiomas e sua riqueza cultural. – Não à toa, um dos motes do chamado movimento esperantista é: “para cada povo sua língua, e para todos os povos o esperanto”.
Esta ideia, mesmo tendo sido lançada em uma Rússia problemática e censória, em menos de uma década já possuía livros didáticos em pelo menos polonês, alemão, francês, inglês, tcheco, sueco, italiano e português, além do russo e do próprio esperanto, tendo atingido diversos pontos da Europa. A partir de então, já se formava uma comunidade que usaria o esperanto para comunicação, produção literária e viagens. Esta comunidade, formada por homens e mulheres, trabalhadores da linha de frente e intelectuais, católicos e judeus, políticos, militares e civis, foi a primeira responsável por dar, àquele projeto, vida, retirando-o do estado de simples proposta e levando-o para o estado de uso, produção e constante transformação. Portanto, já nas primeiras horas, o esperanto não era mais fruto do pensamento de um único homem, mas de todos que dele faziam uso e para ele contribuíam, constituindo-se aí a primeira fasa da língua viva dos dias de hoje.

O que é o Esperanto?
O Esperanto é uma língua internacional planejada que foi lançada em 1887 com objetivo de facilitar a comunicação entre os povos de diferentes países e culturas.
O autor do Esperanto foi o médico polonês Lázaro Luís Zamenhof (1859-1917) que o lançou com o pseudônimo "Dr. Esperanto" que significa nesse idioma "aquele que tem esperança" em um livro denominado "Unua Libro de la Lingvo Internacia". Portanto, o nome original do Esperanto é "Lingvo Internacia", que melhor se traduz por "língua para ser internacional".
A língua Esperanto é consideravelmente mais fácil de ser aprendida do que as línguas nacionais, uma vez que o Esperanto foi planejado para ser mais simples e mais regular. Diferentemente dos demais idiomas, ao se falar em Esperanto, estabelece-se imediatamente uma comunicação de igual para igual entre pessoas de línguas diferentes. Isso é importante, pois se evita a vantagem cultural que um falante nativo teria ao empregar sua língua natal em um contato internacional.
A proposta do Esperanto não é a de substituir qualquer outra língua nacional, mas complementá-las, sendo assim utilizado como uma língua neutra quando falado com alguém que não tenha a mesma língua do interlocutor.
O uso do Esperanto também protege as línguas minoritárias. Essas línguas culturais teriam melhor chance de sobrevivência em um mundo dominado por poucas línguas poderosas.
Presentemente, o Esperanto é falado por uma grande comunidade internacional, em mais de 120 paises. Estima-se que seus falantes estejam na ordem de milhões.
O Esperanto é tanto falado como escrito. Seu léxico provém principalmente das línguas da Europa Ocidental, enquanto sua sintaxe e morfologia mostram fortes influências eslavas. Os morfemas do Esperanto são invariáveis e quase infinitamente combináveis em palavras diferentes, de modo que a língua também tem muito em comum com línguas isoladas como o chinês, enquanto sua estrutura vocabular apresenta semelhanças com línguas aglutinantes como o turco, o swahili e o japonês.

Estrela Verde, símbolo do Esperanto. Clique nela e assista um vídeo sobre a língua.




Aula inicial de Esperanto

O Esperanto no Movimento Espírita Brasileiro


A iniciativa de chamar a atenção dos espíritas para o Esperanto nós a devemos ao vulto ímpar de Leopoldo Cirne, quando, no exercício da presidência da Federação, faz publicar importante manifestação de espíritas franceses a respeito do idioma que, então, contava apenas 22 anos de existência.
A argumentação contida nesse documento permanece atualíssima, destacando-se, sobretudo, um elemento de inspiração mais tarde cabalmente confirmado, isto é, o fato de que o Esperanto nasceu no plano espiritual para solucionar problema linguístico lá existente. Juntamente com as mensagens A Missão do Esperanto, do Espírito Emmanuel, e O Esperanto como Revelação, do Espírito Francisco Valdomiro Lorenz, ambas recebidas psicograficamente por Francisco Cândido Xavier, respectivamente em 19.1.40 e 19.1.59, o artigo transcrito em Reformador de 15 de fevereiro de 1909 compõe a tríade inspiradora das realizações esperantistas nos círculos espíritas do Brasil.
Eis a íntegra do escrito da autoria de J. Camille Chaigneau que, segundo Reformador, havia sido impresso em 1908, na revista de Gabriel Delanne, e posteriormente reproduzido por La Vie d’Outre Tombe, de Charleroi, com o título O Esperanto e o Espiritismo:
“O Esperanto é uma língua artificial criada pelo Dr. Zamenhof, contando aderentes no mundo inteiro (mais de 80.000) e afirmando a sua vitalidade crescente, os seus progressos imensos em reuniões de Congressos notáveis, pela sua facilidade e seus méritos intrínsecos.
Existe a seu favor um argumento que tudo resolve: é falado.
Não ameaça qualquer língua nacional e foi escolhido por uma comissão de sábios como língua auxiliar internacional, recomendável à adoção nos diferentes países. Por isso, a maior parte dos movimentos de caráter universal começaram a servir-se do Esperanto.
Os documentos mais importantes vindos dos mais diversos países do mundo podem ser concentrados em uma revista comum, e, graças a uma língua neutra, ser postos ao alcance de todos os que estudam uma mesma ordem de questões. Pensando na quantidade de fatos que a nós espíritas nos escapam por falta de tradução, na demora que essa mesma tradução traz à nossa documentação, parece que o Espiritismo deve ter todo o interesse em constituir uma revista central em que os fatos mais salientes possam vir grupar-se, graças a uma língua comum a todos os países.
É preciso, pois, que o Espiritismo aproveite essas vantagens. Somente o fato de se servir do Esperanto estabelece um laço fraterno entre todos os esperantistas e favorece a intercomunicação das doutrinas escritas ou faladas. É de absoluta utilidade para toda ideia sincera.
A adesão de uma coletividade ao Esperanto é uma força de engrandecimento para esta língua, mas, em compensação, essa coletividade goza da força comunicativa intrinsecamente contida no Esperanto.
Se quiséssemos procurar a gênese dessa língua, verificaríamos que ela aparece como um fato de colaboração com o Invisível.
Essa impersonalidade constitui a sua superioridade; essa assistência faz a sua força de atração.
Todos aqueles que trabalham no campo do progresso concorrerão para esta obra tão bela e tão fecunda à aproximação dos homens. O Esperanto possui a chama da fraternidade; ele viverá.
Compete aos espíritas aproveitar as suas aspirações vivificantes e dar-lhes um reforço de vitalidade.”
*
O crescimento da família espírita mundial, impondo a necessidade das relações entre os movimentos de diferentes nações, deu-lhes mais nítida consciência do problema linguístico com todo o seu cortejo de prejuízos materiais e espirituais. E o instrumento para que tal obstáculo seja facilmente removido está às mãos.
Como seria natural, aos espíritas brasileiros coube a tarefa de, acolhendo a nobre criação de Zamenhof, cultivá-la, difundi-la, utilizá-la em seus círculos, para que, no momento oportuno, os confrades de outras terras tivessem facilitada a sua adoção.
Cumpramos, pois, agora mais essa etapa do programa relativo ao Esperanto nos círculos do Espiritismo. Estendamo-lo aos nossos irmãos de outros continentes, façamos dele a nossa língua comum para as relações internacionais, e certamente conheceremos um surto de progresso digno de um ideal universalista como é o Espiritismo Cristão.
http://www.febnet.org.br/blog/geral/estudos/o-esperanto-no-movimento-espirita-brasileiro/