quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Resenha: O Método Histórico de Karl Marx, Paul Lafargue


Título: O Método Histórico de Karl Marx
Autor: Paul Lafargue
Editora: Publicações Vorkuta da Liga Comunista (LC)
Ano: 2012
Páginas: 79
Formato: brochura


Sobre o autor: Lafargue era genro de Karl Marx, casado com sua segunda filha, Jenny. Ambos foram ativos militantes socialistas e adeptos do marxismo, dedicando muito tempo de sua atividade para a tradução da obra de Marx para o francês. Viveram até 1871 na França, de onde foram expulsos após a derrota da Comuna de Paris, na qual tinham-se empenhado. Vão para o exílio na Espanha. Lafargue era dirigente da Primeira Internacional. Sua principal obra intitula-se "O Direito à Preguiça" (1880), um libelo contra a super exploração dos trabalhadores, caricaturado pela burguesia como um livro de "vagabundos" (sic!).
Lafargue e Jenny tiveram um ocaso muito singular; percebendo a inexorável decadência imposta pela velhice e, antes de completarem 70 anos, cometeram suicídio. Usaram como argumento a ética estoica de que o homem tem o direito de dispôr de sua própria vida, evitando o fardo aos outros decorrentes da velhice e a incapacidade de continuar com sua atividade revolucionária.

Sinopse e crítica: este livro é minha única tradução publicada. Muitas das notas de rodapé são de minha autoria. Usei como base o texto espanhol disponível no site marxists.org .

Basicamente se trata de um pequeno texto que visa dar uma visão abrangente de como o marxismo analisa a História, ou seja, o materialismo histórico, sem entrar nos pormenores da dialética. O livro é divido em quatro curtos capítulos.

No primeiro, "Os Críticos Socialistas", Lafargue estabelece uma polêmica com aqueles que, se dizendo partidários do socialismo, exitavam em utilizar o método materialista para não chegarem a conclusões que "molestassem as ideias burguesas". Seriam os centristas e vacilantes, numa época em que o marxismo não detinha a maioria militante nem a hegemonia política na AIT (Iª Internacional). 

No segundo capítulo, "Filosofias Deístas e Idealistas da História", Lafargue pormenoriza as diferenças do materialismo histórico com as duas principais vertentes da filosofia e da historiografia burguesas. Basicamente, enquanto o deísmo e o idealismo praticavam o chamado "primado das ideias", partindo do pressuposto de que o ideal vem antes do real, o marxismo postula a determinação da realidade das condições materiais da vida sobre o homem, seu modo de vida, sua História e sua consciência. Lafargue critica tanto aqueles que acreditavam que Deus dirigia a História, quanto aqueles que elevavam a categorias "divinizadas" os conceitos de "Justiça", "Ordem", "Liberdade", etc., que nada mais era que uma forma disfarçada de manter a visão religiosa da análise da realidade. Ele demonstra com exemplos concretos o fracasso desse método e prossegue introduzindo os conceitos básicos do materialismo marxista.

No terceiro capítulo, Lafargue faz uma explanação sobre as "Leis Históricas de Vico". Este mesmo personagem é citado no famoso "Rumo à Estação Finlândia", de Edmund Wilson.
Apesar de pouco conhecido, o italiano Giovanni Vico (1668-1744)
foi um pensador renascentista genialmente revolucionário. Basicamente seus postulados, mesmo que de forma limitada, abriam caminho para o desenvolvimento de uma visão científica do caminhar da História humana, e ainda com contribuições no campo da epistemologia em geral. Vico havia lido Francis Bacon, que defendia os métodos científicos nas ciências naturais e que destas investigações poderiam ser tirados postulados tidos como "verdadeiros". Isso contrariava toda a filosofia idealista, ultra dominante, que, de uma forma mais declarada - como no solipsismo de Berkley - ou mais envergonhada, defendiam que a verdade - se é que existia - estava somente em Deus ou em grandes imperativos impenetráveis. Bacon foi o precursor da ciência moderna. A grande sacada de Vico foi concluir que era possível aplicar os postulados de Bacon à História humana, construindo sistemas de interpretação da mesma. Isso, para sua época, era revolucionário e subversivo. Vico postulou a existência de verdades históricas, e de um desenvolvimento mais ou menos ordenado da mesma, o que a faria uma ciência. No campo da filosofia, Vico defendeu contra os idealistas, afirmando que nem tudo é fruto da subjetividade; ainda era limitado pelas ideias teológicas de seu tempo, mas defendia que a realidade natural e histórica poderia ser pensada, mesmo que não compreendida completamente, pois isso cabia a Deus.
O pensamento de Vico só foi reconhecido com o advento do marxismo, por suas coincidências com ele.

Na quarta parte, "O Meio Natural e o Meio Artificial", é onde Lafargue entra propriamente no método marxista. É na relação dialética entre a transformação da natureza pelo homem, criando seus meios de subsistência, isto é, formando a economia e os modos de produção, que se encontram os "segredos" fundamentais da dinâmica do desenvolvimento das sociedades. É neste processo que se realizam os processos de acumulação de riquezas e o aparecimento das classes sociais, cuja luta entre si - por seus interesses antagônicos - é o "resumo da História humana", conforme a famosa frase do "Manifesto Comunista". 

Um livro bastante útil para entender os fundamentos intelectuais do método marxista, numa leitura não muito pesada e acessível.



Resenha: "A Revolução Sexual", Wilhelm Reich


Título: A Revolução Sexual
Autor: Wilhelm Reich
Editora: Guanabara
Ano: 1988 (8ª edição)
Páginas: 311
Formato: brochura



Sinopse e crítica: Wilhelm Reich dispensa apresentações. Um dos mais influentes psiquiatras do século XX, tem uma vasta obra sobre os problemas da sexualidade humana. Iniciou sua carreira vinculado ao Partido Comunista Alemão, mas logo foi desligado por divergências, muitas ligadas à ortodoxia stalinista daquela organização. Reich era um irreverente por natureza, de tipo libertário; sua grande preocupação foi sempre a felicidade humana, que acreditava possível aqui e agora, diferentemente de Freud que postulava que o homem viveria sempre com uma certa melancolia, muito ao estilo do que pensava Schopenhauer (que influenciou muito Freud, muito embora este nunca tenha reconhecido).

Seu livro "O Combate Sexual da Juventude" (já resenhado neste blog) foi escrito no calor de sua militância ativa no PC alemão. Era um período de grandes esperanças e da construção de programas para o futuro. A Revolução Sexual é marcada pela decepção de Reich com a condução das questões da sexualidade humana na União Soviética, principalmente depois da morte de Lênin e da ascensão do stalinismo (o que ele escreve claramente). 

O livro não é um manifesto sobre uma revolução sexual, mas um lamento sobre seu fracasso naquele tempo. Tanto que a primeira parte da obra é intitulada "O Fiasco da Moral Sexual" e a segunda "A Luta pela 'Nova Vida' na União Soviética".

A primeira parte é uma crítica vigorosa aos postulados ideológicos da moral burguesa. Diz Reich: "Toda a moral nega a própria vida (moral burguesa, entenda-se), e a revolução sexual parece não ter tarefa mais importante de possibilitar finalmente ao homem, ao ser humano vivo, a satisfação e a realização de sua vida" (p. 57). Ao responder aos seus críticos, que o acusavam de defensor da promiscuidade e da anarquia das relações, Reich replica que "O alvo de uma revolução cultural é o estabelecimento de pessoas com uma estrutura que as faça capazes de autocontrole". Ou seja, o projeto de uma revolução sexual era a abolição de uma moral doentia, que tornava as pessoas infelizes e por isso mesmo inclinadas, em alguns casos, a disfuncionalidades sexuais, como a extrema promiscuidade, a falta de afeto nas relações, e coisas mais graves como o estupro e a pedofilia. Estes seriam os subprodutos da moral burguesa; a revolução sexual tornaria homens e mulheres maduros em suas relações, felizes e satisfeitos.

Hoje vivemos, com o super advento dos meios de comunicação, uma era em que a pornografia tornou-se uma indústria poderosa e extremamente lucrativa. Além disso, a estimulação de uma sensualidade idealizada, de corpos perfeitos e sempre jovens, cria multidões de frustrados, inclusive pessoas belíssimas, que fazem academia e tudo mas estão sempre insatisfeitas com seu próprio corpo; cria a epidemia da bulimia e da anorexia, doenças gravíssimas e mortais. A "revolução sexual" dos anos 60 e 70, que nos libertou de muitas amarras, vem sendo, pouco a pouco, sequestrada pela "nova" moral burguesa, que camaleonicamente se modifica para controlar os avanços sociais. A homofobia e o machismo permanecem presentes.

Nesta linha, cito recente reportagem da revista Caros Amigos, escrita pela jornalista Laís Modelli, que cita o aumento vertiginoso da violência sexual nas redes sociais. Ela cita o chamado "revenge porn", termo inglês utilizado para definir os atos de exposição de imagens íntimas na internet sem consentimento. Em 2013 ficaram famosos dois casos de suicídio no Brasil (um na Paraíba e outro no Rio Grande do Sul), que se mataram após terem fotos suas divulgadas na internet. Além disso, como exemplo, o Facebook permite a criação de "fan pages" sem quase nenhum critério; um exemplo é a página "Orgulho de ser Hétero", a qual espalha mensagens de ódio a homossexuais - de forma direta ou como "piadinhas" - e é de um machismo revoltante, colocando a mulher sempre como objeto sexual do "macho 'alpha'" (sic!).

Imagem da página "Orgulho de ser Hétero" - Facebook


Uma das frases mais brilhantes do livro - e até profética - é quando Reich afirma que "evidentemente a doença venérea não pode ser subestimada. Mas, em geral, ela é usada como um espantalho, como um meio de obrigar à repressão sexual" (p. 139). Nos tempos áureos da epidemia da AIDS isso foi uma verdade gritante; não foram poucos moralistas, pastores, padres e até médicos e pseudo cientistas que colocavam a existência da AIDS como um "produto natural da promiscuidade dos anos 70". Alguns, mais enlouquecidos, a taxavam como castigo divino pela imoralidade. O pior é que ainda fazem isso... E não nos esqueçamos de campanhas de prevenção de cunho absolutamente terrorista, como aquele slogam criado no famigerado governo Collor, que dizia "Se você não se cuidar, a AIDS VAI TE PEGAR!". (É obvio que defendemos a prevenção e os cuidados, as relações responsáveis, mas de forma alguma devemos compactuar com a disseminação de campanhas de pânico, como essa).



Em "A Revolução Traída" e "Questões do Modo de Vida" Trotsky avalia alguns pontos que Reich analisa com mais profundidade neste livro. As leis que facilitavam o divórcio, que foram promulgadas imediatamente após a Revolução de Outubro, não exigindo quaisquer formalidades para a dissolução do contrato matrimonial, foram pouco a pouco sendo revogadas pelo stalinismo até que a separação e o divórcio voltaram a ser processos longos, formais e demorados, tudo com o intuito de "preservar as relações", mesmo que completamente deterioradas. A família, a juventude e as relações afetivo-sexuais, passo a passo, foram sendo tratadas pelo Estado Soviético de forma idêntica ao mundo capitalista. E isso se espalhou por todos os países sob a influência da URSS; em Cuba, por exemplo, como cita Leonardo Padura, os chamados "invertidos" (homossexuais), normalmente eram taxados de pessoas não confiáveis e imorais, não podendo ocupar postos importantes no serviço público, universidades e muito menos no partido. Uma versão freudiana tacanha e preconceituosa da psicanálise passou a ser a norma para o stalinismo, e nessa a homossexualidade é vista como um "desvio", senão como "patologia". Essa homofobia disfarçada de ciência ganhou tantos adeptos na esquerda que mesmo alguns que se reclamavam do trotskismo, como um famoso dirigente argentino, que chegou a escrever que "o vício da pederastia é condenável mas deve ser tolerado no partido" (sic!). Em alguns lugares, o stalinismo chegou mesmo a tratar homossexuais como criminosos, ou arranjar pretextos para afastá-los do convívio social.

Cartaz soviético do dia internacional da mulher trabalhadora, 8 de março.

O machismo também sobreviveu a tudo isso. Reich critica vigorosamente a volta do papel submisso da mulher no casamento na sociedade soviética stalinizada, com o refreamento do direito ao controle da natalidade e a volta de muitos costumes de uma Rússia com uma longa história de moral retrógrada da Igreja Ortodoxa. As mulheres, que tiveram grande participação no partido bolchevique, como Alexandra Kollontai, ou mesmo Rosa Luxemburgo na Internacional Comunista, desapareceram na vida política soviética na era Stálin. A camarilha burocrática e todos os escalões dirigentes do partido eram monopólio dos homens.

Por tudo que foi dito, trata-se de um livro histórico mas atualíssimo. As tarefas da revolução sexual foram cumpridas muito parcialmente e, cada vez mais, a ideologia burguesa se apodera fraudulentamente das conquistas. As piadas contra o feminismo, a taxação da liberdade amorosa como promiscuidade, o terrorismo com as doenças venéreas e, particularmente, o avanço do fundamentalismo religioso, são perigos que a leitura de Reich nos ajuda a compreender e combater.




As biografias de Stálin (IV) - Isacc Deutscher


 Título: Stálin, uma biografia política
Autor: Isaac Deutscher
Editora: Ediciones Era (México) - editado no Brasil pela Civilização Brasileira
Páginas: 580
Formato: brochura, papel jornal

Sobre o autor: Deutscher era um excepcional historiador. Militante marxista, rompeu com o PC polonês em 1926, por desacordos com o alinhamento desse com o stalinismo. Assim, foi simpático à dissidência trotskista mas discordou dela em uma questão absolutamente fundamental: a fundação da Quarta Internacional. Essa divergência marcou profundamente sua obra, inclusive a biografia de Stálin, pois o pensamento de Trotsky tinha como pedra de toque a caracterização do stalinismo como uma casta parasitária de natureza irreversivelmente contrarrevolucionária. Deutscher faleceu em 1967.


Sinopse e crítica: a biografia de Stálin escrita por Deutscher é um livro magnífico, científico, a qual traça a vida do biografado desde sua infância até sua morte no principio da década de 50. Repleta de detalhes sobre a vida de Stálin, também traça um retrato psicológico rico do ditador.

Outrossim, por conta das posições políticas do autor - pode-se ser a favor delas, mas não é meu caso - Deutscher comete alguns escorregões. O primeiro deles, e o mais grave, também presente na sua trilogia sobre Trotsky, é supervalorizar aspectos de "personalidade" que dividiam os dois oponentes. Resta evidente a enorme discrepância entre as duas figuras; Trotsky era um intelectual poliglota brilhante, um teórico genial e um líder nato. Stálin era uma figura bruta e medíocre, mas que conseguiu especializar-se no jogo mesquinho das disputas intestinas do partido, usando todo tipo de artimanhas sujas pelo poder. Mas certamente, apesar disso, o que separava os dois eram divergências de caráter político, como dito acima. As questões subjetivas eram apenas secundárias, ainda que, 
talvez, um pouco relevantes.

Deutscher, como militante, foi contaminado pelo vício do impressionismo, o que é compreensível diante da magnitude do que significava a União Soviética e particularmente depois de sua vitória na Segunda Guerra Mundial. O stalinismo adquiriu mundialmente um prestígio gigantesco e simbolizava todos os ideais do socialismo e do leninismo, muito embora os traísse a cada passo. Deutscher nunca deixou de acreditar numa possível "auto reforma" da burocracia soviética, reconduzindo a URSS para o curso da transição ao socialismo e voltando a ser o núcleo da revolução mundial. Isso fica patente em sua obra posterior A Rússia depois de Stálin, um grande libelo de esperanças na mudança de rumos da camarilha stalinista. Neste livro, Deutscher afirma textualmente que, pelo curso da História, a restauração capitalista ou a queda do regime tornará-se impossível; infelizmente o ano de 1989 desmentiu duramente esta falsa previsão.

Apesar de seu brilhantismo, Deutscher enganou-se profundamente sobre o caráter da burocracia stalinista, vindo a romper com Trotsky pois, como dito, foi contra a fundação da Quarta Internacional, organização fundada pelo primeiro partindo da premissa que o stalinismo e os partidos comunistas haviam se tornado um instrumento da contrarrevolução. Deutscher rejeitava essa tese e insistia no combate dentro dos PCs, confiante numa mutação futura do stalinismo que nunca veio. 

Ao contrário do historiador trotskista Pierre Broué, Deutscher atribuiu grandes glórias à direção soviética pelo triunfo na guerra. Broué, corretamente, afirmou que a "URSS ganhou a batalha não com Stálin, mas apesar dele".

Mas, como dito, o livro prima pela objetividade dos fatos. O impressionismo de Deutscher não chega a comprometer o conjunto da obra. O autor prima pela crítica do stalinismo, particularmente quando narra os famosos "Processos de Moscou", nos quais Stálin dizimou toda a velha guarda bolchevique - Zionoviev, Kamenev, Bukharin e outros - bem como militantes que tinham sido fiéis a ele desde sempre, mas que por sua paranoia representavam de alguma forma um obstáculo à manutenção de seu poder absolutista. Critica a posição stalinista no episódio da ascensão do nazismo, quando a Internacional Comunista stalinizada orientou o Partido Comunista Alemão a hostilizar violentamente a social-democracia, negando-se a construir a Frente Única operária, pois somente esta tática seria capaz de evitar que Hitler chegasse ao poder, o que acabou acontecendo.

Objetivamente os fatos são narrados com precisão e o livro dá um panorama bastante confiável do que foi o fenômeno do stalinismo na época em que seu maior representante ainda vivia. Com a distância histórica que vivemos hoje, parece incrível que Deutscher não tenha percebido a correção das posições de Trotsky; entretanto, há que se dar um desconto ao autor pelo fato de que, imerso no contexto de que a URSS representava o único Estado Operário no mundo e a esperança de todos os comunistas, as políticas genialmente visionárias de Trotsky muitas vezes pareciam  demasiadamente inviáveis. Realmente a Quarta Internacional, como mesmo diz em seu programa fundacional, não nasce de uma situação em que ela tem todas as chances de sucesso; ao contrário, estas eram mínimas. Mas foram nestas que os trotskistas se agarraram, pois o projeto de uma nova Internacional não nascia baseado na sua viabilidade, mas basicamente numa necessidade imperativa do movimento revolucionário de contar com uma ferramenta sem máculas para sua luta pela tomada do poder. Ela representava uma parcela ínfima de militantes, mas mesmo assim, diante do apodrecimento completo do stalinismo, Trotsky não viu outra alternativa senão apostar todas suas fichas na sua criação, pois a luta intestina na Internacional Comunista estava absolutamente fadada ao fracasso. Essa previsão foi completamente confirmada pelos acontecimentos, pois a própria IC foi dissolvida depois da Segunda Guerra, como parte dos acordos de Stálin com o imperialismo, acentuando a política nefasta da "coexistência pacífica" entre o então recém nascido "bloco socialista" e o mundo capitalista. Restava a esperança vã numa auto reforma da burocracia, que por certo não aconteceu; justamente o contrário, a camarilha stalinista, mesmo com as vociferações de Kruschov contra os "crimes de Stálin", permaneceu cumprindo seu papel de algoz da revolução. A necessidade de derrubá-la pela revolução política permaneceu inabalável, mesmo que tenha sido uma posição que não encontrou eco até entre a direção da Quarta Internacional, que foi abatida por um impressionismo idêntico ao de Deutscher, quando o dirigente "trotskista" Michel Pablo anunciou a "mudança de caráter" da burocracia, e que esta "faria a revolução à sua maneira", orientando as seções da Quarta a dissolverem-se nos partidos comunistas, naquilo que foi conhecido como "entrismo sui generis". Na prática, esta política representou a quase completa destruição do trotskismo, não fosse a resistência da seção francesa.

Complementando, essa resistência dos franceses também parecia um projeto utópico, mais ainda quando, a partir deste núcleo de militantes, decidiu-se, após a queda do muro de Berlim, reproclamar, em 1993, a Quarta Internacional. As mesmas críticas de "falta de representatividade" no movimento operário foram repetidas, ignorando-se o fato de que, diante da nova situação aberta com a queda do stalinismo, mais do que nunca um núcleo organizador da revolução se fazia uma necessidade imperativa, e este núcleo só poderia ser a Quarta Internacional, pela confirmação e atualidade de seu programa fundacional. 




terça-feira, 29 de setembro de 2015

As biografias de Stálin (III): "Um Stálin, este desconhecido" de Zhores e Roy Medvedev



Título: Um Stálin desconhecido: novas revelações dos arquivos soviéticos
Autores: Zhores A. Medvedev e Roy A. Medvedev
Editora: Record
Páginas: 443
Ano: 2003
Formato: brochura


Sobre os autores: Zhores e Roy Medvedev são irmão gêmeos e dissidentes do regime soviéticos, exilados em Londres desde os anos 70. Zhores é bioquímico e historiador e Roy é somente historiador. Ambos são muito citados como referência de história do stalinismo.


Sinopse e crítica: o primeiro grande defeito do livro é acreditar que traz informações "revolucionariamente inovadoras", por conta do acesso dos autores a arquivos até então secretos na ex-URSS. A primeira é a ressuscitação da tese de que Stálin foi assassinado pelos membros do alto escalão da burocracia que ele mesmo dirigia:
Beria, Kruschov, Motov e outros. Ele teria sido vítima de um complô, algo que lhe atormentou por toda a existência. Sobre o tema da morte de Stálin gira o capítulo I do livro.




No capítulo seguinte os autores se debruçam sobre a temática da relação de J. Stálin com a produção de armas nucleares na URSS, dando início à corrida armamentista com os EUA. Nesta mesma época a URSS começa a protagonizar o papel de campeã da defesa da "paz mundial"; por hipocrisia ou não, era ela justamente a que estava atrasada no desenvolvimento bélico nuclear, o que a colocava em franca desvantagem frente aos EUA. Os autores escrevem vários artigos acerca das opiniões de Stálin sobre o tema. 

O terceiro tópico fala da relação tresloucada do stalinismo com a ciência. A burocracia soviética acreditou ser capaz de criar uma "ciência proletária", sendo que tudo aquilo que contradizia o "seu" marxismo deformado era considerado anti-científico. Era a completa inversão metodológica da obra de Marx; esse submetia seus postulados aos princípios da ciência, ao método científico, a fim de observar se eles eram válidos ou não.
O quarto capitulo, que tem somente dois subtópicos, trata da postura de Stálin durante a Segunda Guerra Mundial, na qual a URSS desempenhou o papel mais importante, vencendo a Alemanha Nazista. Trata-se de um tema muito controvertido, vez que os marxistas - em particular os trotskistas - denunciaram atitudes absolutamente irresponsáveis de Stálin, particularmente nos meses que antecederam a guerra, tais como um expurgo em massa de membros do alto oficialato soviético, desarmando o exército de seus melhores dirigentes às vésperas de um conflito sem precedentes. Os autores, por sua vez, não entram no tema central, que é justamente esta sucessão de desastres que quase levou à ascensão nazista, contando histórias um tanto quanto "pitorescas" sobre a postura do "líder" ante o conflito.

Por fim, o último capítulo é dedicado a "personalidade" de Stálin: sua relação com a mãe, seus "sentimentos" ante o assassinato de Bukharin (por ele mesmo ordenado) e as posições dele ante o nacionalismo russo.

De um modo geral, o livro não pode ser chamado de stalinista, mas tenta passar "panos quentes" ante a figura de Stálin. Coloca algumas de suas posições francamente contrarrevolucionárias como "equívocos", oriundos da originalidade das situações impostas.

Do ponto de vista trotskista, esta posição dos autores é absolutamente rejeitada. Pouco importa, do ponto de vista da dinâmica da História e da luta de classes, a "subjetividade" e o "foro íntimo" de seus atores e protagonistas; dura é a vida, mas é a vida. Se Stálin no íntimo do seu coração acreditou que tudo que fez foi para defender o socialismo, isso nada muda o fato que ele foi seu primeiro coveiro. Por equívoco ou por intenções claramente de capitulação ao capitalismo, o stalinismo permanece sendo o ator do enterro das experiências de Estado Operário no leste europeu, independentemente do que "morava no coração" de Stálin.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

As biografias de Stálin (II) - Domenico Losurdo, Stálin, história crítica de uma lenda negra


Título: Stálin, história crítica de uma lenda negra
Autor: Domenico Losurdo
Editora: Editora Revan
Páginas: 378
Ano: 2010
Formato: Brochura


Sobre o autor: o italiano Domenico Losurdo é talvez um dos únicos intelectuais vivos confessamente stalinista. Historiador, leciona na Universidade de Urbino, na Itália. Teve sua formação na Alemanha.

Sinopse e crítica: o próprio subtítulo da obra já é uma ironia; o livro de forma alguma é uma "história crítica", mas um grande manifesto em defesa de Stálin e do stalinismo. Nas orelhas da obra editada no Brasil, lemos que "grandes estadistas", como Churchil e De Gasperi, "respeitavam profundamente" Stálin. Figuras de ponta do imperialismo. Diga com quem andas que eu te direi quem és.

O livro é um verdadeiro imbróglio metodológico, pois ele não se propõe a ser, de fato, uma biografia mas, como dito, uma espécie de "manifesto" em defesa do stalinismo. Seu inimigo principal é Kruschov e o chamado "relatório secreto", divulgado no XXº Congresso do Partido Comunista da URSS (PCUS), no qual o então líder soviético denunciou - certamente de forma parcial para não cometer suicídio político - os "crimes de Stálin", centrando fogo no que chamou de "culto à personalidade". Secundariamente, como não podia deixar de ser, as farpas são atiradas contra Trotsky e o trotskismo.

Losurdo tenta justificar o injustificável do ponto de vista marxista: a política da "coexistência pacífica" entre os campos socialista e capitalista, decorrente da política do socialismo num só país (dogma inquestionável do stalinismo), as atuações criminosas de Stálin na Alemanha de 1933, na China da década de 20 e todas as medidas internas destinadas a acabar com a velha guarda bolchevique.

Seus argumentos são pífios e não fazem mais do que repetir a cantilena stalinista da época; inova muito pouco, apoiando-se sempre no fato de que foi a URSS, sob o comando de Stálin, quem venceu o super aparato de guerra nazista. Este é seu maior trunfo, que repete à exaustão nas páginas do livro. Mas como disse o historiador trotskista Pierre Broué, a URSS não ganhou a guerra "por causa de Stálin", mas "apesar dele"...

Um dos trechos mais chocantes, para um revolucionário que venha a ler o livro, é a repetição de trechos da entrevista que Stálin deu ao New York Times, no qual ele afirma, com toda cara de pau que Deus lhe havia outorgado - mas coerente com a linha do "socialismo num só país" - é sobre a má vontade da URSS em apoiar as revoluções em outros cantos do mundo. "Nós fizemos a nossa revolução; eles que façam a deles", afirma o chefe dos burocratas. 

Li este livro indicado por um companheiro que respeito muito de um dos PCs do Brasil. Mas somente esta frase me convenceu por completo que no debate com Trótsky, era o Velho quem detinha a razão. O resultado da política stalinista demorou mais veio, em 1989.

Losurdo gasta quase um rio de tinta em detalhes enfadonhos sobre o "relatório Kruschov", que chama de "revisionista", bem no jargão stalinista. Este relatório denunciou, em sua maioria, os crimes intestinos cometidos pelo ditador contra facções rivais interna corporis do próprio stalinismo. Nunca se preocupou com a reabilitação de Trotsky ou a retomada da política bolchevique. Manteve intactos os pilares da política stalinista, em particular os pactos com o imperialismo - como a criminosa divisão da Alemanha - e a linha do "socialismo num só país/coexistência pacífica". 

É um livro que certamente vale a pena ser lido para dirimir quaisquer dúvidas que possam passar pela cabeça de um revolucionário sobre o papel pró-imperialista da política de Stálin e seus asseclas burocráticos. 

Da mesma forma, o livro apela para aspectos emocionais das diferenças entre Trotky e Stálin, o que em absoluto corresponde  com a história  real.



As biografias de Stálin (I) - Jean - Jaques Marie


Título: Stálin
Autor: Jean-Jaques Marie
Editora: Babel
Ano: 2011
Páginas: 849
Formato: Capa mole

Sobre o autor: Jean - Jaques Marie é um intelectual orgânico no movimento operário e uma das maiores autoridades internacionais no que tange à história da Revolução Russa e seus protagonistas. É autor de uma biografia de Lênin e de "Trotsky, Revolucionário sem Fronteiras". Como historiador e marxista, J-J Marie detêm-se nos aspectos políticos e econômicos que determinaram as escolhas e as trajetórias destes homens que mudaram a História do mundo; ao contrário de outros biógrafos, influenciados pelas diversas matizes da historiografia burguesa, Marie não se perde em subjetivismos pseudo-psicológicos que teriam "determinado" os caminhos de Stálin e Trotsky, como sua suposta "inimizada anímica".

J-J Marie é formado em História, exercendo a profissão de historiador; colabora com várias instituições dedicadas à preservação da memória do movimento operário e da trajetória revolucionária deste. É trotskista e milita no Partido Operário Independente (POI) da França, junto com Daniel Glockstein, seu secretário geral. Foi amigo e colaborador de Pierre Lambert enquanto este viveu e militou.

Sinopse e crítica: este livro é uma das melhores biografias já escritas sobre esta figura tão controversa chamada Joseph Stálin. É
um colosso de pesquisa histórica sobre todos os acontecimentos do partido bolchevique durante a vida do ditador, antes e depois de sua usurpação do poder. Claro que, pela própria opção política do seu autor, a obra tende a ser uma duríssima crítica ao biografado, apontado claramente como chefe e representante da casta burocrática que expulsou os bolcheviques do poder e instaurou a ditadura stalinista.
No entanto, Stálin não é apontado como um "monstro" de "super poderes" como é tão comum; trata-se de um indivíduo que, por conta destas idiossincrasias da História, foi alçado a uma posição de protagonismo por conta de fatores que não haviam sido previstos nem por Trotsky nem por Lênin. Ambos acabaram ficando impotentes ante a reação burocrática; o primeiro por ter sido derrotado politicamente e o segundo por sua morte prematura. Sobre este fato, sabemos que existe a possibilidade de que Lênin, se tivesse sobrevivido à sua enfermidade, pudesse liderar uma ofensiva contra a camarilha stalinista. Mas isso é somente especulação; o que concretamente sabemos é que o líder e fundador do partido bolchevique percebeu a deformação burocrática do Estado soviético e, em seu testamento político, solicitou o afastamento de Stálin das posições mais importantes de direção.

Marie conta todos esses fatos nos mínimos detalhes de uma forma que, como dito, prima pela objetividade científica da análise dos fatos. Não se trata de uma biografia "moral" ou uma coletânea de história sobre o "czar vermelho", mas uma biografia POLÍTICA deste homem que, pelas vias do destino, acabou chefiando a casta parasitária que veio a substituir o proletariado na condução da recém nascida União Soviética. Marie não fica analisando as subjetividades de Stálin, se ele era, "em foro íntimo", um comunista; o que realmente importa - dura a vida, mas assim o é - é que os atos emanados do Kremlin, sede do governo da URSS e que contava com Stálin como principal dirigente, passaram de uma posição revolucionária para contrarrevolucionária com a ascensão da burocracia ao poder. Isso ficou particularmente evidente com a defesa intransigente por parte de Stálin e sua camarilha da chamada política do "socialismo num só país". Essa máxima seria absolutamente impensável nos tempos de Lênin; toda a política do partido bolchevique estava orientada para a implantação da ditadura do proletariado na Rússia na plena confiança que o operariado mundial, particularmente o da Europa Ocidental, conduziria revoluções vitoriosas que iriam amparar a primeira pátria dos soviets. Não é uma ideia trotskista, mas algo que era aceito como verdade por todo o conjunto do partido.

Assim, as questões entre Trotsky - que ficou sendo o sucessor da política bolchevique, pois negou-se até o fim a capitular a Stálin - e o biografado, nunca foram de natureza de "divergências de caráter" ou de "raiz psicológica". O que colocou o trotskismo e o stalinismo em campos diametralmente opostos foi uma profunda e irreversível divergência de caráter político sobre a natureza da URSS e sobre a necessidade da revolução mundial, entre outras tantas questões. A política assassina do Kremlin para com a nascente revolução chinesa e, particularmente, o desastre da capitulação do PC alemão que oportunizou a ascensão do nazismo, são exemplos gritantes desta realidade.

A obra caminha sempre nesta linha segura e nos conduz a um entendimento científico e sólido sobre a natureza do stalinismo. E a compreensão acerca do que foi e do que é o stalinismo é uma das tarefas mais importantes de qualquer um que queira entender a realidade de ontem e de hoje, apesar da historiografia burguesa negar este fato evidente. O stalinismo marcou definitivamente a História do século XX e seu ocaso no final daquele período tem influências gigantes na dinâmica da geopolítica internacional nos dias de hoje.

Trata-se de uma obra realmente indispensável.





Conhecendo os cenários de Game of Thrones - diário de viagem


Como é sabido, um dos objetivos deste blog é também comentar e resenhar séries da TV. Uma das mais famosas dos últimos tempos é a maravilhosa "Game of Thrones", baseada na coleção "Crônicas do Gelo e do Fogo" de George R. R. Martin, publicada no Brasil pela editora Leya.

Recentemente, estive em viagem pela Europa, mas precisamente pela costa do mar Adriático, saindo de Trieste na Itália e indo até as ilhas gregas. Pelo trajeto, passamos por Split e Dubrovnik, duas cidades croatas que serviram de local para as filmagens de Game of Thrones.

A série, ambientada numa distopia medievalista, foi filmada em várias partes da Europa que guardam o estilo da alta Idade Média, como Belfast na Irlanda, Espanha, Marrocos, na ilha de Malta, Islândia e nas duas cidades croatas referidas. Nossa viagem passou pela Itália, Croácia, Montenegro e Grécia.

As cidades de Split e Dubrovnik são realmente encantadoras. 

Split é a segunda maior cidade croata, apesar de, em termos de Brasil, ser uma cidade pequena. Apesar das várias guerras que assolaram a região, Split, ou Spalato em italiano, mantém uma conservação singular dos seus edifícios históricos. É um porto estratégico dentro da geopolítica da região, por isso foi sempre muito disputada pelas diferentes potências econômicas. Já passou pelo domínio romano, bizantino e outros, até sua anexação à antiga Iugoslávia, que foi desmembrada após a queda do Muro de Berlim.
Split


Já Dubrovnik, que fica no extremo sul croata, é uma localidade absolutamente encantadora. Realmente temos a impressão que, quando entramos na chamada "cidade velha", estamos mergulhando na atmosfera de The Game of Thrones. Dubrovnik conserva muitos prédios e monumentos do período romano, uma muralha de proteção da cidade e paisagens urbanas muito singulares. É considerada patrimônio mundial pela Unesco. Em Dubrovnik foram filmadas as cenas relativas à "King's Landing" da série.

A indústria do turismo, principal atividade econômica de ambas as cidades, tem explorado muito o fato delas terem sido escolhidas como sets da série. Em todos os cantos vemos propagandas de excursões a pé pelos "caminhos de The Game of Thrones", bem como são vendidas todo tipo de bugigangas relativas ao programa. 


As duas cidades parecem verdadeiros formigueiros de turistas, vindos do mundo inteiro, particularmente em cruzeiros marítimos, pois ambas são portos. As partes mais antigas são apenas poucas quadras, mas movimentar-se nelas é uma verdadeira luta.


A Croácia, do meu ponto de vista, muito corretamente, preservou sua moeda local, a "kuna". Desta forma eles não ficam reféns da União Européia e da Troika. Muitos estabelecimentos comerciais sequer aceitam euros. No entanto, os preços para pequenos passeios, particularmente para os locais de visitação relativos à série, são exorbitantes. Para subir no alto da fortaleza da "King's Landing" paga-se cem kunas, o equivalente a 10 euros.

Foi uma viagem inesquecível e uma grata surpresa.


sábado, 12 de setembro de 2015

Autores Gaúchos (II): Amaro Juvenal (Ramiro Barcellos) - ANTÔNIO CHIMANGO e outros textos


Título: Antônio Chimango e outros textos
Editora: Artes e Ofícios (Porto Alegre)
Ano: 2000
Páginas: 143
Formato: Brochura





Sinopse e crítica: Ramiro Barcellos foi um dos expoentes da política riograndense. Nome de uma das principais ruas de Porto Alegre, Ramiro foi deputado e senador pelo RS. Idealizador da moeda "cruzeiro", que foi utilizada durante anos no país. Ramiro Barcellos era médico de profissão; no ensaio de Luís Augusto Fischer - professor universitário, linguista e letrista gaúcho, autor do originalíssimo "Dicionário de Porto-alegrês" - temos uma ideia da vida desta destacada personalidade dos pampas, dentro do seu contexto histórico e político. Amaro Juvenal não passa de um dos pseudônimos literários de Ramiro, o qual usava especialmente para seus "chistes" literários contra seus adversários e desafetos.

Por sua vez, Borges de Medeiros foi um dos homens mais poderosos do Rio Grande. Exerceu por quase trinta anos, de forma semi absolutista, o cargo de "presidente do estado" do RS, sendo assim chamado - não por acaso - durante a República Velha, os atuais governadores. Ramiro e Borges eram adversários políticos irreconciliáveis e inimigos pessoais. Para Ramiro, Borges - que foi o sucessor de Julio de Castilhos, expoente do "positivismo" no sul do Brasil - era um homem patético e de poucas luzes, particularmente próprias.

Antônio Chimango é um poema satírico que gira envolta da vida de Borges desde sua pseudo infância até sua controversa vida política. Tudo indica que a origem do poema é a obstaculização, por parte de Borges, de uma das candidaturas de Ramiro ao Senado, o que lhe causou profunda revolta; com raiva na pena, produziu Antônio Chimango, ironizando - literalmente avacalhando - a vida do presidente do RS.

Trata-se de um poema tecnicamente dito que composto em heptassílabos, versos com seis estrofes, em linguajar "gauchesco" (regional), com muitas palavras escolhidas a dedo, tiradas do vocabulário popular do povo simples do interior riograndense. 

O "modelo" utilizado por Ramiro para compôr Antônio Chimango foi o "épico do gaúcho", o argentino Martín Fierro, uma obra clássica, de mesma estrutura, que conta a história de um personagem que serve de paradigma sobre a formação e história deste "tipo" sul americano que é o gaúcho. Ainda que mais pobre e menos universal que Martín Fierro, Antônio Chimango ganhou notoriedade na literatura brasileira.

É um livro engraçadíssimo, com certeza. A fina ironia e o deboche de Amaro Juvenal nos cativam, e as vezes nos levam às lágrimas do riso, principalmente para os "iniciados" em seu linguajar popular, por vezes quase "chulo".

Os textos acrescidos a esta edição trazem temas diversos, a maioria sobre a História do Rio Grande. Ramiro fala sobre a Revolução Farroupilha, sobre o positivismo (a "ideologia" de Borges e Castilhos), sobre a bandeira tricolor gaúcha, entre outros temas.

Por fim, nunca é demais relembrar que foi do ninho de Borges de Medeiros - ainda que medíocre - nasceu o principal, até hoje, de todos os presidentes do Brasil: Getúlio Dornelles Vargas.


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Livros de Trotsky que tenho e já li - Parte III - ESCRITOS SOBRE OS SINDICATOS


Título: Escritos Sobre os Sindicatos
Autor: Leon Trotsky (Lev Davidovich Bronstein)
Editora: 1ª versão - Editora Kairós (1978); 2ª versão - Editora Nova Palavra (2009)
Páginas: 1ª versão - 120 p. ; 2ª versão - 135 p. 
Formato: brochura.




Histórico das edições: O livro "Escritos Sobre os Sindicatos" de Leon Trotsky apareceu no Brasil pelas mãos da antiga Organização Socialista Internacionalista (OSI), que depois veio integrar-se ao PT como "Corrente O Trabalho", que é o nome do seu jornal, em circulação até os dias de hoje. Foi traduzido Vera Corrêa de Sampaio e Maria Emília Sedeh Boito, militantes operárias e sindicais. O livro foi bastante difundido entre a vanguarda das então "oposições sindicais" que lutavam contra a pelegada que "governava" os sindicatos "oficiais" da ditadura. Essas oposições vieram a varrer as direções impostas pelos gorilas da ditadura, vindo depois, a partir do núcleo do sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista, fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT). 

A editora "Kairós" existia numa semi-clandestinidade, imposta pelo regime autoritário. A "Nota dos Editores" expunha, sucintamente, a visão dos trotskistas brasileiros sobre a situação sindical do país, que estava em franca ascensão. Fazia um pequeno histórico do sindicalismo no Brasil, sobre o tempo da hegemonia do PCB e sobre as tarefas da classe operária de construir um sindicalismo combativo e independente de governos, partidos e igrejas, o que, depois, veio a redundar em princípios basilares da nascente CUT.



A edição de 2009 traz um posfácio de autoria do militante e dirigente da CUT nacional, Julio Turra, militante de OT, no qual ele faz não só um balanço da obra em si, mas particularmente do sindicalismo brasileiro naquela conjuntura (que ainda não teve modificações substanciais). Se na edição da "Kairós" vivia-se o tempo em que diferentes tendências, movimentos e oposições sindicais se formavam de forma independente do stalinismo, do governo, de partidos e das igrejas (ou com influência do nascente PT e das Comunidades Eclesiais de Base), a conjuntura da edição da "Nova Palavra" é a da fragmentação do movimento sindical brasileiro e diferentes e pulverizadas "centrais" e "centrais/movimentos"; a questão principal, a palavra de ordem do dia é a luta pela unidade - não unicidade - do movimento sindical nacional e da classe em si, pois é no sindicato - como disseram Lênin e Trotsky - se faz a escola da revolução. 

Turra caracteriza que "o período aberto com a fundação da CUT ainda não se fechou", visto que, apesar do surgimento "como pipocas" de "novas centrais e movimentos sindicais", não existe, DE FATO, um movimento geral da classe de reorganização por fora da Central Única. Fatos posteriores comprovam que esta análise está correta; como exemplos marcantes, cito os fortes movimentos que desfiliação da CUT em importantes sindicatos aqui do Rio Grande do Sul, como o que eu milito, o Sintrajufe/RS (dos servidores do Judiciário Ferderal), mas, particularmente dos sindicato dos professores estaduais (o CPERS Sindicato, que é o maior de todos as agremiações sindicais do RS), que acabaram desfiliando-se da CUT mas, por outra via, não escolheram NENHUMA OUTRA CENTRAL para a qual filiar-se, ficando em uma espécie de "limbo", sem uma ligação orgânica com o conjunto da classe.




Ainda, a Central Única dos Trabalhadores permanece sendo a maior Central Sindical do país, com maior número de filiados, de sindicatos e federações. Turra faz um histórico da fundação da Central, cita os opositores de sua criação (destaque aos stalinistas, que depois acabaram entrando e hoje estão fora, fundando a CTB), e a importância que a CUT teve em todas as lutas sindicais das décadas de 80 e 90. 

Um dos princípios fundamentais do marxismo no terreno sindical é a distinção clara entre Partido e Sindicato. Trotsky frisa isso em vários textos dessa obra. Turra critica, com propriedade, o papel do esquerdismo e do stalinismo na condução do processo de desagregação da CUT, o qual cria "centrais" (as aspas vêm do fato de que muitas dessas definem-se como "movimentos" - ligada a política dos "movimentos dos movimentos" que não poderá ser aprofundada aqui - aumentando o processo de confusão.

É um texto que traz uma enorme contribuição ao colosso que é este pequeno brochura.





Sinopse: O livro é uma coletânea de textos de Trotsky sobre o tema, dos mais relevantes que ele escreveu, resgatando os princípios de Marx, Engels e Lênin sobre a política dos marxistas - revolucionários nos e para os sindicatos.




Os escritos ressaltam a defesa da DEMOCRACIA SINDICAL, DA INDEPENDÊNCIA DOS SINDICATOS diante de partidos, governos e igrejas, da fronteira clara entre Partido e Sindicato - já que estes são os "organismos de frente única da classe trabalhadora", das instruções e da NECESSIDADE da intervenção dos revolucionários em sindicatos e centrais dominados pelas burocracias contra-revolucionárias quando esses são organismos de massa, e de todas as condições essenciais para que os sindicatos sejam organizações combativas e de luta da classe por suas reivindicações, instrumentos para a luta de classe.

O livro é dividido em duas partes: a primeira, "Comunismo e Sindicalismo", reúne textos como "Os erros de princípio do sindicalismo", que apontam os princípios basilares da intervenção dos marxistas no movimento sindical, já apontados. No texto citado, Trotsky dá grande ênfase ao princípio da UNIDADE SINDICAL, tão atual.




A segunda parte é intitulada "Problemas de Estratégia e Tática Sindical", cujo principal texto, sem sombra de dúvida, é um excerto do "Programa de Transição" denominado "Os Sindicatos na Época de Transição". Gostaríamos, sem ser prolixos, mas evitando o resumo ao máximo, citar uma parte desse:

"As tentativas sectárias de criar ou manter pequenos sindicatos 'revolucionários' como uma segunda edição do partido, significam, de fato, à renúncia pela direção da classe operária. É necessário colocar aqui como um princípio inquebrantável: o auto-isolamento capitulador fora dos sindicatos de massa, equivale à uma traição à revolução, incompatível com a militância na 4ª Internacional"

O texto é claro em si e, como já dito e repetido, atualíssimo. Entretanto, alguns que se escondem sob a bandeira de "seu" "trotskismo", querem contrapor essa passagem a outra, em que mais adiante Trotsky diz que "Se é criminoso voltar as costas para as organizações de massa para se contentar com facções sectárias, não é menos criminoso tolerar a subordinação do movimento revolucionário das massas à camarilhas burocráticas (...)".

Do meu singelo ponto de vista, tendo em conta sempre a conjuntura, a relação dialética entre duas proposições aparentemente antagônicas. Trotsky fala em "movimento revolucionário das massas"; depois da queda do Muro de Berlim (1989), todos aqueles que não se alinhavam com o stalinismo, os trotskistas em particular, esperavam um movimento de REORGANIZAÇÃO da classe em ruptura direta com as burocracias sindicais. Um paralelo histórico claro pode ser feito com a ruptura com a CGT e a pelegada no final dos anos 70, que redundou na CUT. A pergunta que não cala - afim de que essa segunda afirmativa de Trotsky seja interpretada como uma palavra de ordem de "ruptura com a CUT" - é se realmente existe um "movimento revolucionário das massas por fora das organizações de massa" (?). 

Só a leitura atenta do livro pode responder. E a nossa posição principista na luta de classes.




quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Autores Gaúchos (I): David Coimbra - Canibais: Paixão e morte na Rua do Arvoredo






Titulo: Canibais: paixão e morte na Rua do Arvoredo
Autor: David Coimbra
Editora: L&PM
Nº de páginas: 263
Formato: Brochura, tipo pocket




 
Sinopse e crítica:a Rua do Arvoredo em Porto Alegre, atual rua Fernando Machado (centro histórico), foi palco de um dos crimes mais brutais da História do Brasil.

Um catarinense, de nome José Ramos, comprou um açougue de um alemão de nome Klaussner e, casado com uma mulher muito atraente (Catarina, supostamente "húngara"), a qual "seduzia" as vítimas que eram mortas por Ramos, esquartejadas e literalmente "moídas". Com carne humana fazia linguiças, extremamente apreciadas pela população da capital, inclusive encomendadas e reservadas por membros do alto clero local.

Assim, houve no século passado uma pequena multidão de "canibais" inconscientes entre os porto-alegrenses, o que vem a dar no título da obra hora resenhada.

Os crimes da Rua do Arvoredo, quando descobertos, causaram alvoroço enorme entre a população, que se descobriu consumidora de carne humana, chocando e causando conflito de toda ordem. 

Houve até suposta "defesa" de Ramos, que mesmo não sendo gaúcho nem descendente de alemães, com estes foi confundido, devido à origem de sua esposa e ao antigo proprietário do referido açougue. Existe notícia, inclusive, que tais crimes tiveram repercussão inclusive na Europa, sendo matéria de jornais parisienses da época.

David Coimbra relata muito bem a sucessão de eventos, desde a vida pregressa de Ramos até o desenlace dos fatos. Confesso que não sou nada fã de Coimbra como cronista, mas este livro é realmente muito bom. Com capítulos curtos, o autor consegue romancear a trama, dando um toque policialesco, o que torna a leitura extremamente agradável. Além disso, os fatos da Rua do Arvoredo, em seu contexto histórico, dão uma importante noção da formação histórica e multi cultural desta parte do Rio Grande do Sul, no qual se mesclavam portugueses, alemães, brasileiros "natos" e descendentes de escravos.







segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Resenha (Clássicos Russos II): O Jogador, Fiodor Dostoiévski



Título: O Jogador
Autor: Fiodor Dostoiévski
Editora: L&PM - Porto Alegre
Ano: 1998
Páginas: 242
Encadernação: Brochura (tipo pocket book)

Onde encontrar: Livraria Cultura, por R$ 15,90


Sinopse: O Jogador narra a saga do vício do jogo. O protagonista é um russo, como o autor, do tempo do czarismo, completamente pródigo. Sua adicção são as mesas de roleta, onde entra no "perde ganha" dos cassinos alemães, na época a grande moda dos aristocratas e burgueses. Seu nome é Aléksei (personagem narrador), homem, como dito, dominado por seus impulsos e paixões, perdulário, amante das mulheres, da boa mesa e de um pouco de vinho também.

Aléksei vem a Rotemburgo com uma família russa, que espera ansiosamente a morte de uma anciã para herdar uma fortuna. Creditam-na moribunda. São parasitas sociais e vivem das "rendas" da aristocracia e da burocracia do sistema semi-feudal russo.

Outros personagens, mais ou menos secundários, que compõem a trama romanesca (apesar de ser um livro curto, trata-se de um romance) são o industrial inglês Mister Astley e os encrenqueiros franceses Des Grieux e Mlle. Blanche.

O grande amor de Aléksei é Paulina, frágil enteada da família de russos da qual é funcionário. Uma paixão devastadora com pendores platônicos.



Crítica: penso que o livro, consciente ou inconscientemente da parte do autor, é uma grande metáfora da Europa do século XIX. Mr. Astley, o industrial inglês, é a representação da próspera burguesia britânica, em plena ascensão durante a Revolução Industrial. É um homem econômico e de bom juízo, que usa de Rotemburgo apenas pela sua fama de águas termais, afastando-se dos cassinos e da vida de prodigalidade, vícios e farras.

Os russos são certamente a figuração da elite czarista: parasitária, que vive ao redor das benesses da burocracia do Estado e dos favores do monarca e da corte. Nada produzem e somente gastam aquilo que têm e o que não têm. Ricos mas em franca decadência, palavra chave para defini-los. 

Os alemães e os franceses são as nações atrasadas na corrida industrial da época; ao mesmo tempo que são ricos, exploram e vivem de atividades como o jogo, que nada produz. Vivem uma vida de gastos e luxos, como era o caso das resistentes nobrezas dos respectivos países, que rivalizava o poder com as ascendentes burguesias, as quais não encontravam espaço para seus investimentos e negócios ante o entrave monárquico. Eram duas nações permanentemente envolvidas em revoluções e conflitos, cujo auge foi o de 1848.

Obviamente, não estamos diante de um livro de História, mas de um romance, como dito. Apresentamos aqui somente uma interpretação de possíveis metáforas do autor, que estão ali presentes. A genialidade de Dostoiévski talvez não tenha tido tamanha pretensão consciente, como dito, mas elas estão ali. Com certeza.




O Autor: Fiodor Dostoiévski, de batismo Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, foi uma figura ímpar na literatura russa e mundial. Autor de obras colossais, que adquiriram universalidade, como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazóv, em O Jogador existem elementos claramente autobiográficos. O autor conheceu pessoalmente os locais aonde se passa o romance, bem como esteve envolvido com jogatina. Dostoiévski sempre quis ter dinheiro "rápido" para publicação de seus escritos, o que o levou a várias reviravoltas financeiras. 
Teve uma iniciação como escritor tardia, pois antes de escrever ou publicar qualquer coisa, teve que amargar um exílio na Sibéria - o que já era um costume dos czares antes do stalinismo. Daí nasceu a obra Memória da Casa dos Mortos, narrativas de seu período na prisão.

Outras obras de Dostoiévski aparecerão futuramente aqui no Armazém. Por enquanto é isso!