domingo, 30 de agosto de 2015

Resenha: Dois Garotos se Beijando (Two boys kissing) David Levithan






Título: Dois Garotos Se Beijando

Título Original: Two Boys Kissing


Autor: David Levithan


Editora: Galera Record


Páginas: 224


Ano: 2015





Sinopse: Dois jovens, Craig e Harry, intentam um feito de proporções colossais: passar mais de 30 horas se beijando, de pé, sob o sol e em público, a fim de quebrar o "recorde" de "beijo mais longo de todos os tempos", conforme o Guiness. Esta tarefa é realizada no campo de futebol da escola de ensino médio local, chamando a atenção de toda a comunidade, com transmissão ao vivo online, para um número cada vez mais maior de espectadores. Eles acabam ressaltando não só a questão do recorde em si, mas por toda a problemática de ser um beijo GAY.

Enredo: trata-se de fato de um romance, não de uma novela, como Boy meets boy. A eixo principal se dá, por evidente, ao redor do esforço tremendo de Craig e Harry mas, paralelamente a isso, transcorrem-se outras tramas secundárias que se unem ao núcleo principal. O "beijaço" não é uma forma dos jovens simplesmente chamarem a atenção, mas surge quando um dos personagens, Tariq Johnson, outro garoto homossexual, é agredido por um grupo de homofóbicos; contra isso é que se insurgem Craig e Harry, surgindo a ideia do beijo. É Tariq quem promove toda a logística de transmissão pela internet do evento, que, como dito, é o maior sucesso. Temos também Cooper, que é o protótipo do jovem gay com problemas, mal resolvido, que se isola em seu computador construindo perfis "fake" e entrando em contato com todo tipo de homens para flertes que nunca acontecerão (ou não...). Por fim, há o relacionamento entre Avery - o jovem de cabelo rosa - e Ryan - o jovem de cabelo azul, que se conhecem num baile gay numa pequena cidade do interior dos EUA. Avery é transexual e tem dificuldades em expor isso a seu novo "namorado".


Crítica: o "mote" mais interessante do livro é que ele é narrado "pelos mortos", sejam espíritos ou sei lá o que, dos gays das gerações passadas. As frases dos narradores são por vezes de consolo às angustias dos personagens mas, na maioria das vezes, são textos muito fortes, que nos levam à uma reflexão muito profunda sobre a realidade da homossexualidade, seus estigmas e todos aqueles que morreram da epidemia de AIDS no passado. As gerações atuais não fazem nem ideia do que foi o pânico que sofremos durante anos, na era pré-coquetel, quando um diagnóstico de HIV positivo era uma sentença de morte certa, e uma morte estigmatizada, triste e dolorosa.



O livro é muito, muito melhor que "Garoto encontra Garoto", pois não mostra um mundo gay dos sonhos, mas a realidade chão a chão da homofobia. Há uma cena em que, enquanto Craig e Harry estão se beijando - já exaustos, quase desmaiando - grupos fundamentalistas religiosos vão de cartazes em punho protestar contra o evento. Um deles diz "Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo"; lembro-me de uma mensagem em power point que circulava na internet no Brasil com a mesma frase, como se fosse algo "inocente", e não uma agressão violenta aos direitos LGBT. 
Trata-se de um livro fantástico, que não deve ser lido só por gays, mas por todos os interessados em direitos humanos.

Existem muitas citações que poderia tirar do texto, bem fortes, mas gostaria de expôr algumas:


Raramente somos unânimes em relação à alguma coisa. Alguns de nós amaram. Alguns não conseguiram. Alguns foram amados. Alguns não foram. Alguns nunca entenderam para que tanta confusão. Alguns queriam tanto que morreram tentando. Alguns juram que morreram de coração partido, não de AIDS.


A morte é difícil, encarar a morte é doloroso. Mas ainda mais 

dolorosa é a sensação de que ninguém se importa. De não ter um 

amigo no mundo. Alguns de nós morremos cercados de entes 

queridos. Alguns de nós tínhamos entes queridos que não 

conseguiram chegar a tempo, que estavam longe demais ou que 

apenas tinham ido dormir um pouco. Mas também há alguns de 

nós que podem dizer como é não ter ninguém que você ama, não 

ter ninguém que ama você. É difícil ficar vivo só pra você. É muito 

difícil encarar um dia após o outro sem outro rosto familiar 

olhando para você. Isso transforma seu coração num músculo sem 

propósito.


O Autor: David Levithan nasceu em 1972 no estado
estadunidense de Nova Jérsei. Seu primeiro livro foi Garoto Encontra Garoto (Boy meets boy), que também aborda a temática gay. Mas sua consagração veio com a parceria com John Green em Will & Will. Ele trabalha como escritor e como editor da marca "PUSH", de uma famosa editora dos EUA.


Polêmica da capa: a edição norte-americana traz uma capa mais "explícita", que causou "polêmica" naquele país entre os setores conservadores. Na Grã-Bretanha, foi usada a capa publicada no Brasil, estilizada, afim de "a foto de dois rapazes se beijando não prejudicasse a abrangência do livro e a divulgação de suas ideias", segundo a editora Record.
Capa original dos EUA.

Um tema: as "Alianças Gay-Hétero" (livros de John Green e David Levithan)

Lendo Cidades de Papel (Paper Towns), Will & Will, Garoto Encontra Garoto (Boy meets Boy) ou ainda Dois Garotos se Beijando (Two Boys Kissing), todos de John Green e/ou David Levithan, li várias referências a clubes de alunos que eles denominam "alianças gay-hétero", ou "clubes gay-hétero". Tratam-se de pequenos comitês escolares que reúnem tanto alunos LGBT quanto heterossexuais para discutir problemas de assédio e bullying no ensino médio das escolas estadunidenses, quanto para promover eventos, como festas, peças de teatro, etc.


No início, acreditei estar tratando com mera ficção, algo que havia brotado do sonho de um mundo feliz das mentes criativas de John e David. Mas eram tantas as referências a tais "clubes e associações" que resolvi investigar para saber se realmente existia, de fato, algo ao menos parecido.

No site do Ministério das Relações Exteriores dos EUA (basta clicar na imagem) encontrei uma matéria que muito me impressionou, positivamente. As chamadas "GSA - Gay-Straight Assossiations" existem em todo território nacional norte-americano, e existem com o fundamento de evitar o bullying aos alunos LGBT, com o apoio dos estudantes de orientação sexual "normal" (sic!), bem como apoiados pelos próprios professores.

Na Wikipedia em português sequer há um verbete sobre o tema, tamanho nosso atraso tacanha em relação ao tema. Não sei como é hoje, mas nos final dos anos 80 e 90, quando estava no ensino fundamental e faculdade, vi muitas e muitas cenas de assédio de parte dos próprios professores à alunos LGBT. Mesmo no ensino superior, me lembro muito bem que em nosso livro "texto", disciplina de Medicina Legal, no capítulo que tratava das "perversões sexuais", a primeira delas, em letras garrafais, era o "homossexualismo". E quando me dirigi ao professor para afirmar que há longa data a Organização Mundial da Saúde já tinha tirado o "homossexualismo" do rol de "doenças" (e agora o termo correto era HOMOSSEXUALIDADE), respostas que obtive foi mais que assustadora:


_ Não, meu filho, de fato não é doença. É SEM-VERGONHICE MESMO!

Esse era o nível das relações no que tange à homofobia no ambiente escolar naquela época. Muitas outras histórias verídicas poderiam ser contadas aqui (como outra de que um professor afirmou ser justo direito do marido agredir a mulher se ela não "correspondesse as suas 'obrigações matrimoniais'" sic!).



Na Wikipédia em inglês, no verbete sobre as GSAs encontramos um rol imenso de países que adotam e estimulam estes clubes, como Austrália, Nova Zelândia, Canadá entre outros. Mas mostram que mesmo recentemente, como foi o caso de uma escola no Mississippi (um dos estados mais reacionários dos EUA), houve a tentativa de formar uma GSA que encontrou vigorosa oposição da escola e da comunidade, que não queriam um "clube gay" (sic!) na cidade.

Em nosso país, precisamos estimular a existência de tais clubes e associações, protegendo os jovens LGBT, que pelo bullying, assédio - e até agressões e mortes, pois a homofobia é genocida em nosso país - tenham mais um espaço de acolhimento de proteção. Mas somente com a CRIMINALIZAÇÃO CONSTITUCIONAL DA HOMOFOBIA, bem como com a criação de um ESTADO LAICO DE DIREITO E DE FATO - proibindo "bancadas evangélicas" e afins - garantindo estudo de todos os níveis 100% público, gratuito e de qualidade para todos, é que daremos passos realmente sólidos nesta direção.

sábado, 29 de agosto de 2015

Livros de Trotsky que tenho e os que já li - Parte II


AONDE VAI A FRANÇA: escrito na época do governo Léom Blum na Fraça, a primeira grande experiência das chamadas "frentes populares" na Europa. O livro em si é uma compilação de missivas de L. Trotsky justamente acerca do tema das Frentes Populares e a postura dos revolucionários e do movimento pré-Quarta Internacional deveriam ter em relação à questão.

Durante a ascensão do nazismo, os comunistas tiveram uma política de capitulação à ultra esquerda, negando-se a formar a frente única com os sociais-democratas, que chamavam de "sociais fascistas"; clandestinamente, Stalin realizava um pacto de "paz" com Hitler, de partilha do leste da Europa entre alemães e soviéticos. Certamente Stalin sempre soube que Hitler nunca seria seu "aliado"; foi lendo Leonardo Padura que entendi que Stalin, depois de Trotsky - apesar de seu gigantismo histórico - ter sido politicamente derrotado, particularmente dentro da URSS, Stalin precisava de um "inimigo à altura", e Hitler se oferecia numa bandeja para isso. Se essa versão é verdadeira - o que chega a ser difícil de acreditar - as responsabilidades do stalinismo no que tange à II Guerra Mundial - a maior tragédia do século XX - ficam ainda mais graves, aliás gravíssimos.

O contexto do livro ainda se dá na esteira derrota dos revolucionários na Guerra Civil espanhola. Tudo isso se dá na esteira de uma grande guinada política da política do Kremlin em direção à construção de Frentes Populares, que seriam uniões mais ou menos sem princípios entre os grandes partidos da classe trabalhadora e partidos da burguesia, método oposto ao método leninista-trotskista da FRENTE ÚNICA, que é a aliança massiva, da base às direções, entre os partidos DA CLASSE OPERÁRIA.
Na guerra civil espanhola Stalin chantageou os lutadores anti-fascistas - anarquistas, membros do POUM e comunistas - a fim de organizá-los em exércitos regulares para enfrentar franco. Ainda, Stalin não queria de modo algum uma "Espanha Vermelha", que colocaria em cheque toda a possibilidade de aliança da Rússia com a Inglaterra e a França (que não deram nenhum centavo para luta antifascista, enquanto Alemanha e Itália armaram Franco até os dentes).

A crise revolucionária de Espanha espalhou-se para França, um país de capitalismo central, o terceiro da Europa e o quarto do mundo, impingindo - muito por ação do stalismo - à ascensão de um governo de frente popular, sob a chefia de Leon Blum, dirigente do Partido Socialista Francês. O governo Blum é composto pelo PSF e pelo chamado "Partido Radical", um partido burguês de menor influência. Os comunistas do PCF e da CGT, liderados por Thorez, negam-se a participar do governo, mesmo que prestando-lhe apoio quase incondicional.

Didaticamente, Trotsky explica que um governo "híbrido" desses só levaria a classe operária ao fracasso, da mesma forma como havia acontecido em Espanha.
Em “Aonde vai a França” (1936), Trotsky explica que: “A ‘Frente Popular’ é uma coalizão do proletariado com a burguesia imperialista, representada pelo Partido Radical e outras podridões da mesma espécie e menor envergadura, coalizão que se estende ao terreno parlamentar. Em ambos os terrenos, o Partido Radical conserva toda a sua liberdade de ação e limita brutalmente a liberdade de ação do proletariado… A tendência geral das massas trabalhadoras, incluídas as massas pequeno burguesas, é completamente evidente: ir para a esquerda. A orientação dos chefes dos partidos operários, não é menos evidente: ir para a direita. Enquanto as massas, pelo seu voto e sua luta, querem derrubar o Partido Radical, os chefes da frente única, pelo contrário, querem salvá-lo”.
O freio da colaboração de classes tem como consequência a desmoralização das massas e prepara o terreno para a tomada do poder pela direita. Nos anos 30, pelo fascismo, em outros momentos históricos, como no Chile dos anos 70, por golpes militares como o de Pinochet que, nunca é demais lembrar, foi colocado por Allende no comando das forças armadas.

A REVOLUÇÃO TRAÍDA: é a obra de L. Trotsky que a dissolução da chamada "Oposição de Esquerda", que ainda pretendia uma reforma da III Internacional, caracterizando o stalinismo como definitivamente perdido para a revolução social.
O fato histórico que fez com que Trotsky tomasse tão dura
decisão - que nunca foi aceita por seus parceiros no "núcleo duro de Outubro", como Zinoviev, Kamenev e Bukharin - foi a traição do Partido Comunista Alemão, chefiado por Ernst Thalmann (foto), - que, seguindo as diretivas emanadas da Internacional Comunista dominada totalmente por Stalin e seus agentes, decidiu por uma linha absurdamente ultra esquerdista, que ignorava completamente o perigo da ascensão do nazismo e que, com essa, haveria o esmagamento do movimento operário como um todo e posterior invasão da URSS.
O Partido Comunista Alemão era basicamente o partido dos desempregados e excluídos sociais da República de Weimar, enquanto que o Social Democrata tinha maior ascendência sobre os trabalhadores sindicalizados. O PC resolve centrar todas suas forças a atacar os "sociais - fascistas", o que deixou o campo aberto para Hitler assumir em 1933, dizimando a todos.
Trotsky ainda não tinha noção dos famosos "expurgos" stalinistas, pois o livro foi concluído em agosto de 1936, colocando depois um adendo à introdução.

Sinopse: O livro é um grande diagnóstico da política stalinista, um livro sobre o stalinismo e sua incapacidade visceral de conduzir as massas a transição ao socialismo. Apesar de elogiar os avanços monumentais advindos do regime da propriedade social dos grandes meios de produção - principalmente a total eletrificação do país sob o comando de Lênin - Trotsky caracteriza a existência, na URSS, de uma "burocracia", isto é, um estamento social oriundo da classe operária mas diverso desta, e, particularmente, com o interesse de "convivência pacífica" com os países capitalistas, a fim de manter seus privilégios no Estado Operário; daí a chamada política do "socialismo num só país", estandarte do stalinismo.
Do ponto de vista econômico, Trotsky denuncia de forma vigorosa a desastrosa política de coletivização forçada dos campos, organizada por Bukharin e Stalin. Foram milhões de mortos e o resultado foi fome e miséria, num processo que causaria estranhamento a Lênin.
Trata-se de um grande "dossiê" sobre a política stalinista, a burocratização do partido e a total falta de democracia operária na URSS.

Conclusão: a resenha é pobre, admito, mas dá um panorama da obra. Só sua leitura substitui qualquer introdução. O mais importante a salientar é que nesse "Tratado sobre o Stalinismo", Trotsky chega a duas
conclusões muito duras para ele, mas que representam a enorme coragem histórica deste homem: a) o stalinismo está perdido para a revolução; b) os revolucionários do mundo todo devem agrupar-se em um novo partido, a Quarta Internacional.
Foi uma tarefa colossal, mas que o "Velho", ao final da vida classificou como a mais importante de sua vida, maior que a própria Revolução de Outubro.

Continuamos...

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Livros de Trotsky que tenho e os que já li - Parte I


Esta resenha destina-se a dar uma visão ampla das obras de algumas obras do revolucionário russo Leon Trotsky editadas no Brasil. Faço isso pelo extremo sucesso do post que fiz sobre as biografias de Trotsky, que alcançou muitas visualizações. Vou tentar dar uma pincelada uma a uma, dando um panorama do que pode e dever ser lido.

1) O PROGRAMA DE TRANSIÇÃO: Obra básica, fundamental, e pela qual todo aquele interessado no pensamento trotskista deve iniciar sua incursão no pensamento de Trotsky. Não é um livro teórico ou didático, mas foi o programa político da Quarta Internacional, votado e aprovado em seu congresso fundacional em 1938. É um livro curto que sintetiza o "marxismo para os nossos dias".
Sobre este livro as polêmicas mais que abundam. Foram escritas "teses de atualização" (como do dirigente trotskista argentino Nahuel Moreno, que é o teórico, falecido, do PSTU e de setores do
PSOL) e de Ernest Mandel (da chamada "corrente pablista" do trotskismo", já citada no outro post, vide).
A leitura do Programa de Transição, antes de tudo, deve vir acompanhada, na cabeça do leitor, da seguinte pergunta: apesar de certas desatualizações temporais, no essencial, como método de trabalho (como por exemplo a proposta da frente única operária, as premissas da revolução mundial, as tarefas do proletariado nos países de capitalismo atrasado e/ou periférico, etc.) permanecem válidas ou perderam sua atualidade? Da resposta que o leitor dará, implicará todo seu posicionamento na luta de classes.
Existem várias versões para download na internet, ou textos integrais em sites, bem como é de fácil aquisição entre militantes e sebos. Leia defina-se.

2) STÁLIN, militante anônimo (I) e rumo ao poder (II): são dois livros editados pela Chead Editorial. Existe a biografia completa que pode ser adquirida particularmente na Estante Virtual. São obras um pouco enfadonhas, em que Trotsky
traça cada mínimo detalhe da personalidade de Stálin, desde sua infância, durante as reuniões do Partido Bolchevique, seu papel secundário durante a insurreição e a Revolução de Outubro. É muito muito detalhista. Para os neófitos é uma grande pedida, pela riqueza em dados. Trotsky fez uma imensa pesquisa sobre a vida de seu algoz para conseguir as provas por A+B de que ele não era o que dizia ser e, ele Trotsky, também não era o que o stalismo dizia que ele fosse. Vale, certamente, o esforço.

3) QUESTÕES DO MODO DE VIDA: A edição que possuo é de 2009, da excelente editora Sunderman do PSTU, que publica ótimas obras em excelente qualidade de papel e encadernação. Este livro é uma coleção de artigos do "Velho" sobre as mais diferentes questões "triviais e cotidianas", tais como a questão da vida coletiva (as lavadouras de roupas que não funcionavam), a diversão das massas (teatro e cinema), o alcoolismo e como combatê-lo. No mesmo volume, de capa azul, está o brochura de poucas páginas que se tornou um dos maiores clássicos escritos por Trotsky: "A Moral deles e a Nossa". Trata-se de um libelo contra a filosofia e a política burguesas de querer implantar no seio do movimento de massas a premissa de "valores universais e inalteráveis", particularmente o "valor" democracia. Nesta linha, políticos social-democratas e liberais se juntavam ao coro de traçar um sinal de igual entre trotskismo e stalinismo, visto que ambos "matavam" (sic!). O autor, de forma extremamente sagaz, desmonta este argumento, a partir da premissa da inexistência de tal "moral universal", mas de uma moral contingenciada pela luta de classes, e que a moral dos revolucionários - e não dos stalinistas, por evidente - era uma MORAL DE CLASSE; o que estava em conformidade com os interesses da classe trabalhadora era qualificado como "moral", e o que estava contra, "imoral". Estou aqui sintetizando de uma forma simplista, que só a leitura do opúsculo poderá trazer a luz de forma clara os conceitos apresentados.

4) TERRORISMO E COMUNISMO (o anti Kautsky): Trata-se de uma obra não muito conhecida do "Velho" mas que guarda toda sua atualidade hoje. É uma obra que
polemiza com o pacifismo burguês de Karl Kausty, dirigente da IIª Internacional, que rompeu com a revolução em 1914 ao votar os créditos de guerra pró governo do Kaiser alemão. Trotsky novamente ataca os "universais categóricos" como "paz e democracia", ao mesmo tempo que delimita espaço com os movimentos terroristas, anarquistas ou similares. Cita longamente os exemplos de duplo poder dos soviets e da gloriosa Comuna de Paris, o primeiro Estado Operário da História. Faz algumas digressões econômicas também, para provar a possibilidade e necessidade da ditadura do proletariado na Rússia.


5) EM DEFESA DO MARXISMO: coletânea de seus
últimos textos, que permanece de leitura atualíssima nos dias de hoje. Trata-se de uma polêmica com militantes norte-americanos sobre a natureza social e econômica da União Soviética, e sua postulação vigorosa da necessidade de uma defesa INCONDICIONAL da URSS, mesmo sob Stálin, caso de um ataque fascista.
Após a queda do muro, não foram poucos a caracteriza-la como uma "grande vitória do proletariado mundial", o que no fundo implica numa caracterização da URSS não como um Estado Operário, degenerado sim, mas como o primeiro Estado Operário e que guardava as raízes de Outubro. O livro conta, como dito, com discussões atualíssimas, ainda em curso dentro de organizações que se reivindicam do trotskismo, e principalmente o que precisamos entender sobre o caráter de classe e sobre a economia da ex-URSS e dos outros países do chamado "bloco socialista", Cuba incluso.

Continuamos...

"Garoto Encontra Garoto" de David Levithan

David Levitha é o talentoso escritor que fez parceria com John Green, consagrado escritor de "A Culpa é das Estrelas" entre outros, no livro "Will & Will". David Levithan escrevia os capítulos referentes ao Will de orientação homossexual (não acredito em "opção sexual", creio que trata-se de um absurdo, pois ninguém "optaria" ser gay, mas trata-se de uma "orientação" inata da pessoa).

O livro "Garoto encontra Garoto" é, para ser preciso em termos de literatura, uma novela, não um romance. É uma estrada com um caminho só, sem vias vicinais, ou as vias vicinais sempre encontram a estrada principal, inexoravelmente. 

Trata-se do encontro e desencontro entre dois rapazes adolescentes gays. Paul e Noah. Paul é o personagem narrador da história. Ele apaixona-se perdidamente por Noah, mas por alguns percalços da vida acontece um afastamento entre os dois, e depois um desenlace da história.

Gostei tremendamente de um personagem secundário, Tony. Ele é gay como Paul e seu melhor amigo. Os dois são somente amigos, apesar da mesma orientação. Nisso o autor quer provar que é possível dois homens gays terem uma relação fraternal muito forte sem envolvimento sexual, o que é muito bonito. 

A família de Tony é fundamentalista cristã, e não aceita de maneira alguma sua orientação gay. Eles "oram aos berros" em casa e em "círculos de oração" pela "cura" do rapaz, ao estilo Feliciano. Por meio deste personagem Levithan faz uma crítica forte ao meio religioso pentecostal; mostra que o amor dos pais de Tony é um amor "condicional", o que não é um amor verdadeiro, visto que amar de verdade significa aceitar o outro como ele é, mesmo aquilo que não gostamos ou não aprovamos nele. 

O personagem principal, de outro lado, Paul, é de certa forma "equilibrado demais", por assim dizer. Talvez seja um "defeito" da obra ou uma opinião pessoal. Mas ele sempre tem as respostas certas nas situações erradas e nunca fica "perdido", como mesmo relata Tony. Mesmo assim é um livro que vale a pena ler.

Abaixo um vídeo muito interessante com trechos do livro:


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Alain de Botton: O Desejo de Status

Sou fã de carteirinha de Alain de Botton. Por isso vai mais uma resenha de um livro dele, muito especial, e que me ajudou muito no difícil trajeto do autoconhecimento.

Em O Desejo de Status, Botton analisa o desejo quase universal de sermos reconhecidos pela sociedade em que vivemos, seja pelo que somos, pelo que temos ou pelo que fazemos. Antes de tudo ele responde a pergunto sobre a origem desse desejo, que segundo ele é a necessidade humana de ser amado. Segundo o autor, na idade adulta, temos dois grandes desejos: o amor erótico/sexual e o desejo de status, que nada mais seria que o desejo do amor "social". É nos outros que nos vemos refletidos e, queiramos ou não, o que eles pensam de nós nos influencia; daí nossa vontade inerente de "agradar para ser amado", adquirindo um "status" "bom" no meio em que vivemos.

A sociedade capitalista, por evidente, dá extrema importância ao status pelo TER. Se fazemos algum ruim, mas isso nos faz TER o carro do ano, dinheiro para viagens, roupas caras, jóias e relógios, o status pelo SER e pelo FAZER ficam em segundo plano. Somos o que temos, e conquistamos pessoas, e até seu "afeto", pelo status adquirido pela fortuna acumulada.

O autor aponta cinco causas complementares sobre a natureza desse desejo humano: a falta de amor, o esnobismo, a expectativa, a meritocracia e a dependência. 

A falta de amor já foi mais ou menos comentada. Botton afirma que "parece que dependemos da afeição dos outros para nos suportar". Precisamos ser amados, tanto por um ser individual que relaciona-se conosco de forma íntima quanto pelo grupo social ao qual pertencemos, que nos oferece reconhecimento - e portanto o status - que é uma forma de amor.

O esnobismo vem do complexo de inferioridade de alguns indivíduos, que buscam no status uma forma de "curá-lo". Desprezam de forma voraz aqueles que estão em status inferior porque, no fundo, desprezam a si mesmos. A partir daí saem numa luta enlouquecida pelo reconhecimento social.

A expectativa nasce quando esperamos que o mundo nos trate de forma maternal, que ele nos dê o que queremos. Como o mundo é por demais imperfeito, nossos desejos são frustrados e criamos expectativas de um dia consegui-los. Uma das formas de obter isso é angariar status social.

A meritocracia, como conceito, é a ideia de que cada um, em sociedade, será recompensado - seja lá de que forma for - pelos méritos que possui. Essa recompensa faz o indivíduo "melhor", elevando seu status. Ocorre que, como saliente Botton, via de regra a meritocracia é completamente fantasiosa; nem sempre os mais capazes vencem, nem sempre são eles que governam ou obtém os melhores postos no mundo do trabalho. Mas dela nasce o mito de que os ricos "não são somente os que têm mais dinheiro; eles podem também ser realmente os melhores". O não reconhecimento de nossas habilidades e capacidades mais desenvolvidas gera uma revolta importante, que muitas vezes é canalizada pela busca de status por quaisquer meios.

Por último, um dos fatores que faz alguém adquirir status é algo mais ou menos aleatório que o autor chama de dependência. Estamos dependentes de vários fatores imponderáveis: as vezes a sorte, as vezes um empregador generoso ou que obtenha grandes lucros, e até da economia global. Então, muitas vezes, nosso status social não é só determinado por fatores internos, mas por questões externas sobre as quais temos pouco ou nenhum poder.

Como soluções ao problema da frustração gerada pela falta de status, o autor mostra como determinados grupos e seres humanos reagiram a tal situação. Também são cinco.

A primeira é a busca da sabedoria na Filosofia, pela qual podemos obter uma visão lúcida da realidade, e assim fazermos nossas escolhas. Podemos optar por nos isolarmos dos outros ou, mesmo com todas as vicissitudes, manter uma vida social "sadia". Ou ainda podemos optar pelo que Botton chama de misantropia inteligente, um afastamento moderado do desejo de status - refletido nos outros - sem tomarmos uma postura orgulhosa ou defensiva.

A outra forma é a Arte. Pela arte, seja ela qual for, sublimamos nossas frustrações e nos tornamos mais capazes de viver.

A terceira é a Política. Seria nas relações de poder que daríamos vazão não ao nosso desejo de TER, mas no do PODER, óbvia fonte de status sobre os outros.

A quarta forma seria a religião, que Botton coloca somente o
Cristianismo. Por meio da fé cristã abdicaríamos de todo desejo de poder ou dinheiro, pois nossas expectativas estariam no futuro pós morte e na salvação, que garantiriam a obtenção de todo amor social que desejamos, num paraíso perfeito. Ainda, a comunidade nos ajuda e nos suporta, dando a nós "amor social" de forma diferente da que buscamos no status, e que supre, pelo menos parcialmente, essa nossa necessidade.

Por fim, Botton descreve a Boemia como uma saída aos problemas gerados pela angústia do desejo de status. Nos refugiando numa vida devassa, estaríamos em rebelião total com os valores sociais, inclusive tudo que se relaciona com status social; por vias transversas, nos veríamos livres de qualquer busca de posição.

Espero ter alcançado o objetivo de dar uma visão panorâmica do texto, o que não substitui sua leitura integral. Garanto que vale a pena.

Tudo o que li de Hermann Hesse: resenhas

Hermann Hesse, cujo nome de batismo era Hermann Karl Hesse, nasceu na Alemanha em 1877, tendo naturalizado-se suíço em 1923; veio a falecer nesse país (próximo à localidade de Lugano) em 1962. É, sem dúvida alguma, um dos maiores escritores em língua alemã, não só do século XX, mas de todos os tempos, ao lado de Goethe, Mann, Lessing e tantos outros. Sua obra, tanto como pensador, mas particularmente como romancista, é um colosso da literatura mundial. Sua obra abrange contos, romances, poesia, aforismos. Sempre teve uma posição de um pacifismo inveterado, tendo sido opositor declarado do nazismo, ao qual combateu por
meio de artigos publicados na época. Também o nacionalismo exacerbado presente na política alemã foi um dos motivos que o levou a transferir-se para a Suíça. 

Originário de uma família de missionários cristãos, sua mãe nasceu na Índia. Seus romances e seu pensamento foram influenciados primeiramente pela espiritualidade cristã, mas logo conheceu o pensamento oriental, particularmente o da terra natal de sua mãe, que o fascinou, tal como a Schopenhauer. Viajou para a Índia ainda muito jovem, em 1911. A partir desta experiência escreveu vários livros como Sidarta e Viagem ao Oriente

Cabe salientar ainda a influência de Carl Jung, psicanalista, na obra de Hesse. Jung era suíço e Hesse acompanhou sua obra, que faz um diálogo com a espiritualidade e o misticismo, incluso o oriental. Hesse conheceu Jung em decorrência de uma crise emocional com a explosão da Primeira Grande Guerra.

Hesse foi vencedor do prêmio Nobel de literatura em 1946, particularmente por conta de sua obra máxima, O Jogo das Contas de Vidro. Possuo uma edição pocket, da editora BestBolso, mas, por pecado meu, ainda não a li, mesmo que tenha lido tantos outros livros dele, e Demian três vezes.



Demian: uma das mais célebres obras de Hesse, uma biografia do personagem fictício Emil Sinclair. Sinclair é um adolescente em profunda crise existencial, e trava amizade com uma personalidade totalmente envolvente, seu também jovem amigo Max Demian. Esse é dado a discursos filosóficos, e adepto de uma teologia muito parecida com o zoroastrismo, na qual o universo seria regido por um deus bom e outro mal, ambos com iguais poderes, que
disputariam sempre o governo do cosmos. Demian apresenta a Sinclair uma entidade mítica de nome "Abraxas", uma espécie de deus dúbio, uma cruza de Jeová com Lúcifer, capaz de exercer tanto o bem quanto o mal. O livro possui longos diálogos existenciais entre Sinclair e Demian, em que os dois travam uma proximidade tão grande que beira o amor erótico. É um romance basicamente sobre a crise do homem ao descobrir-se adulto, sobre o desmoronar do mundo infantil "perfeito", sobre o fim da ligação "oceânica" entre o ego e o mundo. 
Não é, de fato, um romance que possa virar uma história em quadrinhos; tem um grau elevado de complexidade, mas me atrevi a lê-lo em plena adolescência; mas, como disse, tive que repetir a leitura duas vezes, e fiz uma terceira já na fase adulta.

Rosshalde: foi o primeiro e um dos melhores livros que li de Hesse. Trata-se, no entanto, de um livro bastante triste, até depressivo. É uma narrativa mais sólida do que Demian, com menos caráter de romance "iniciático" ou "de tese", mas contendo importantes digressões filosóficas e existenciais, mas a partir de fatos concretos narrados na história. 

Rosshalde é o nome de uma propriedade em uma região afastada dos centros urbanos (foto), na qual havia um estúdio, onde o personagem principal, um artista plástico, o Sr. Veraguth, monta o local para o trabalho com tinta e pincel mas também sua residência. Isso se dá porque sua família está em franca desagregação. Apesar de casado, tem a comunicação rompida com a esposa e com o filho mais velho. Somente a "ponte" que une o casal é o filho mais moço, Pierre, que leva recados do estúdio à casa da família. No entanto, uma tragédia brutal se abate sobre todos, e a crise se instala de forma inexorável.
Tal como Gertrud, Rosshalde é chamado romance de "retrato de artista", sendo o primeiro de um músico, o segundo de um pintor, guardando semelhanças com a novela Tonio Kröger, de Thomas Mann, que é o retrato psicológico de um escritor.

Sidarta: este li duas vezes, uma em plena adolescência - quando descobri Hesse e me apaixonei por seus livros - e a segunda vez muito recentemente, aos 38 anos (possuo a característica singular de ter gostado de romances "de velho" quando jovem e livros teen agora à beira dos quarenta, he he he...).
Trata-se de uma história de um "Buda" fictício, que percorre caminhos totalmente diferentes daqueles que Sidarta Gautama - o Buda histórico, fundador da religião budista - percorreu, mas, de uma forma ou outra, em busca da sabedoria e da iluminação. Procura os caminhos espirituais mais rigorosos, depois os abandona pelos prazeres do mundo, voltando a uma vida de piedade singular. Chega a ter um encontro com o verdadeiro Gautama, mas não adere a seu séquito de monges, ao contrário de seu até então fiel escudeiro Govinda, personagem belíssimo.
Como dito, um livro profundamente influenciado pelo orientalismo de Hesse, fruto de suas viagens e leituras sobre o misticismo do extremo oriente.

Debaixo de Rodas: este é certamente o livro menos complexo dos que li de Hesse. Compõe-se de uma novela adolescente, da vida escolar juvenil, um tema que também aparace em Alasca de John Green, ou em O Ateneu de Raul de Pompéia.
O personagem principal,  Hans Gierenbath, é o próprio exemplo do adolescente "rebelde", que questiona as instituições, a escola e os professores. Mas pela voz de Hans, Hesse dá vazão as suas críticas ao sistema educacional alemão, eivado de extremo autoritarismo.
O livro discute, como em Demian, a crise do "pós-infância". O livro trata também do tema da descoberta da sexualidade, a revelação da mulher e a confusão de sentimentos que isso gera em Hans. Como em Rosshalde, a tragédia também é temática desta novela imperdível.

Viagem ao Oriente: havia comprado uma edição usada de 1971 da Editora Civilização Brasileira - grande instituição cultural, responsável pela difusão de obras indispensáveis nos anos 70, bem como pela tradução de toda a obra de Hermann Hesse para o português - acreditei que este livro seria da narrativa da viagem do autor à Índia em 1911. Doce ilusão... 
Trata-se de uma história fictícia, na qual uma "irmandade" - parecida com a maçonaria - realiza uma "peregrinação espiritual" não necessariamente "ao Oriente", mas em busca da sabedoria. O protagonista e narrador é H. H., as mesmas iniciais de Hermann Hesse. É tudo muito lúdico, simbólico e cheio de imagens bonitas, particularmente na primeira parte do texto. Na segunda, há algum mistério e suspense, por conflitos entre H.H. e a "irmandade", que encontram uma resolução inesperada.

O Lobo da Estepe: o mais "viajandão" de todos os livros de Hesse, e ao mesmo tempo o mais popular ao lado de O jogo das Contas de Vidro. Guarda muita semelhança com O Dia do Curinga, de Jostein Gaarder, autor de O Mundo de Sofia. O personagem principal encontra uma caverna misteriosa que o leva à uma série de diálogos interiores onde tudo é sofrimento e tensão. Ele descobre dentro de si um "lado lobo", talvez psicopata - que todos carregamos dentro de nós - capaz de todos os males, que rivaliza com um outro lado, que ou é bom ou é o verdadeiro "eu", não se sabe a resposta. Um romance profundamente questionador e ambivalente, que usa da fantasia para procurar respostas a temas profundos dos conflitos humanos.

O Assassinato de Trotsky - Nicholas Mosley

Este livro pode ser considerado um "resumo" do hoje popular "O Homem que Amava dos Cachorros" de Leonardo Padura; certamente foi uma das obras consultadas pelo escritor cubano para produzir sua obra prima. Trata-se de um livro pequeno, escrito em linguagem jornalística e investigativa, mas que traz todos os elementos principais
do crime perpetrado pelo agente de Stálin Ramon Mercader - sob os pseudônimos de Jacques Monard e Frank Jacson.

O livro foi base para o roteiro do famoso filme dirigido por Joseph Losey, "O Assassinato de Trotsky", que tinha no elenco o famoso Alain Delon como o assassino, Richard Burton como Trotsky, e ainda com a participação de Romy Schneider. 

Uma das curiosidades do filme é que ele foi inscrito no famoso livro de Michael Medved, um folclórico radialista de "crítico de cinema" (também metido na política norte americana, com uma ligação forte com a comunidade judaica ortodoxa), "Os Piores Filmes de Todos os Tempos". Certamente "O Assassinato de Trotsky" não é uma pérola cinematográfica, mas o julgamento de Medved é absolutamente injusto - certamente baseado em suas controversas opiniões políticas - pois ele tem, ao menos, o grande mérito da didática e resgate da memória deste evento tão importante para História do século XX que foi o desaparecimento do revolucionário russo Leon Trótski.

SAPIENS Uma breve história da humanidade

Uma obra que abre horizontes, assim defino "Sapiens: uma breve história da humanidade", do professor israelense Yuval Noah Harari.

Harari tem doutorado em História pela Universidade de Oxford e leciona no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ele virou uma celebridade por suas aulas de História em vídeos no YouTube. Essa é sua principal obra, que quando lançada imediatamente transformou-se em best-seller em Israel e depois no mundo inteiro.

Sapiens trata da História da humanidade de um ponto de vista "biológico", a partir da evolução do homo sapiens desde a pré pré história passando pelas revoluções agrícola e industrial.

Um aspecto interessante do livro, que me marcou quando o li, são as posições sobre ecologia e especismo do autor. Na página 84 da edição da LP&M Editores (Porto Alegre), o autor afirma:
"Não acredite nos abraçadores de árvores que afirmam que nossos ancestrais viviam em harmonia com a natureza. Muito antes da Revolução Industrial, o Homo sapiens já era recordista, entre todos os organismos, em levar espécies de plantas e animais mais importantes à extinção. Temos a honra duvidosa de ser a espécie mais mortífera nos anais da biologia."

O Homo sapiens extinguiu, em priscas eras, por exemplo, o mamute, espécie aparentada com o elefante. Não foi a "ação da natureza" que deu fim a estes animais colossais, mas nós mesmos. A ideia de um passado idílico em que homens viviam felizes e em conformidade com a natureza em geral, com os animais e plantas, é uma fantasia completa. Onde o Homo sapiens colocou o seu pé, desde seu nascimento na África até sua chegada em pontos remotos como Austrália e Nova Zelândia, foi deixando um rastro de extinções animais e vegetais.

Em relação ao chamado especismo, Harari faz uma defesa veemente da questão animal, denunciando a crueldade dos Sapiens, caracterizando os animais domesticados como as primeiras vítimas da chamada Revolução Agrícola. O autor descreve os métodos cruéis como é conduzida - desde longo tempo - a indústria de laticínios. Narra o fato de que vacas, cabras e ovelhas destinadas à produção de leite, só o produzem após terem uma cria, que comumente - até hoje - é logo abatida ao nascer. Ainda, há a separação do bezerro da mãe, ou ainda mantê-lo perto mas impedir, por vários estratagemas, que suguem o leite; cita por exemplo o método de colocar uma coroa de espinhos ao redor da boca do filhote para que este machucasse a mãe, que resistia à amamentação, "doando" seu leite aos humanos.
Harari, em outra parte muito interessante, tenta responder à pergunta sobre a origem do patriarcalismo, sobre o porquê dos homens serem dominantes em relação às mulheres desde muitos e muitos anos. Ele levanta várias hipóteses, como por exemplo a questão da força física superior do gênero masculino. Entretanto, coloca que "simplesmente não existe relação direta entre força física e poder social entre seres humanos. Pessoas de 60 anos costumam exercer autoridade sobre pessoas de 20 e poucos anos, ainda que os mais novos sejam muito mais fortes". Ou seja, este que é o principal mito sobre a "superioridade masculina" cai por terra. Ainda, Harari refere-se ao fato que na maioria das sociedades são as classes baixas que fazem o trabalho braçal, criando uma relação inversa entre proeza física e poder social. Sendo assim, a força muscular superior de homens em relação à mulheres não responde, de forma alguma, ao machismo dominante. Harari ainda coloca hipóteses como uma "natureza violenta" dos homens, ou um "gene patriarcal", nenhuma das duas atingindo um grau de plausibilidade capaz de responder à pergunta.

Por fim - o que não esgota a resenha, pois o livro é muito mais amplo e interessante que isso - gostaria de citar a brilhante defesa científica da questão da homossexualidade feita por Harari. Afirma ele textualmente que "Faz pouco sentido, então, afirmar que a função natural da mulher é dar à luz, ou que a homossexualidade não é natural." O autor cita várias sociedades, humanas e animais, em que a homossexualidade não só era tolerada, como fazia parte das relações sociais "Na realidade, a Mãe Natureza não se importa se homens se sentem atraídos uns pelos outros. Apenas mães humanas, inseridas em determinadas culturas fazem escândalo ao saber que seu filho tem um caso com o vizinho. (...) Na verdade, o conceito de 'natural' e 'não natural' não são tirados da biologia, mas da teologia cristã"

Uma obra memorável, que vem preencher várias lacunas e, mais do que tudo, fazer perguntas importantes (ainda que não dê a resposta), que veio para tradução em português em ótima hora.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

As biografias de Trotsky


Existem muitas biografias deste genial personagem da História, o revolucionário russo Leon Trotsky, originalmente Lev Bronstein. Escolhi algumas para resenhar aqui.

Conheça Trotsky (Tariq Ali e Phil Evans):  trata-se de uma obra absolutamente introdutória ao pensamento trotskista, dedicada particularmente aos jovens, por ser muito ilustrada, quase em quadrinhos. No entanto, é um livro muito bom, justamente porque oferece uma visão panorâmica tanto do pensamento de Trotsky como da história de sua vida, da Revolução Russa, do stalinismo e da fundação da Quarta Internacional. Escrito de uma forma leve, nos faz perceber conceitos básicos que serão aprofundados em outros estudos. Mesmo assim, muitas vezes volto a ela para reler alguns trechos clareiam nossa visão, muitas vezes "contaminada" pelo excesso de informações de leituras mais densas. A edição que possuo foi feita pela Proposta Editorial, que já não existe mais, em 1980.


O Pensamento Vivo de Trotsky (J. Posadas): péssimo
livro, já digo de cara (editado em 1989 pela Editora de Ciência, Cultura e Política Ltda.). Posadas foi um argentino que militou no movimento trotskista daquele país, sempre à marginalidade, mantendo sempre organizações tipo "seita" sob seu estrito controle. O livro mostra toda a capitulação extrema do posadismo ao stalinismo e à antiga União Soviética, ao castrismo e todos os "líderes" que pudessem vir a "substituir" a Quarta Internacional na liderança do processo revolucionário mundial. Posadas ficou famoso pelo "folclórico" artigo que escreveu sobre ufologia e movimento revolucionário, afirmando que seres de outros planetas certamente seriam comunistas. O livro não faz menção alguma a esta esquizofrenia, mas defende a tese da "luta de blocos", entre a parte do globo liderada pelos EUA e aquela a anteriormente capitaneada pela URSS, defendendo a tese de que a função do trotskismo contemporâneo é a defesa do bloco soviético sem críticas.

El Trotskismo y los Trotskistas (Jean-Jaques Marie): trata-se de uma obra editada na Espanha pelo POSI - Partido Obrero Socialista Internacionalista - seção espanhola da Quarta Internacional reproclamada em 1993. Não é de fato uma biografia de Trotsky, mas um histórico do movimento trotskista internacional após sua morte. O subtítulo é, "de ontem a hoje, a ideologia e os objetivos dos trotskistas no mundo".
Certamente a parte mais importante do livro é seu capítulo oitavo, "O Pablismo e a cisão de 1952-1953", o qual narra a crise da Quarta Internacional, instaurada a partir do artigo de seu dirigente Michel Pablo, quando ele publica na revista Quatrième Internationale o artigo "Aonde Vamos?". Este artigo sintetiza a política que Pablo implantou na Internacional, segundo a qual os partidos comunistas (stalinistas), fariam a revolução a sua maneira. Desta feita, a própria existência do trotskismo se fazia desnecessária, visto que, por vias transversas, o stalinismo teria se transformado num movimento revolucionário. J-J Marie chega a narrar o fato de que, quando do XXº Congresso do Partido Comunista da URSS, quando Nikita Kruschov apresentou o "relatório secreto" apontando os crimes de Stálin, o pablismo mandou uma carta à direção do PCUS para que a Quarta Internacional (ou o que sobrara dela nas mãos dos pablistas) fosse admitida como parte do "movimento comunista internacional".
Como diz a contracapa do livro, o objeto da obra é demonstrar - particularmente às gerações mais jovens - os elementos necessários para a compreensão da realidade histórica. O leitor poderá conhecer o conteúdo fundamental das posições defendidas pelos trotskistas ao longo de mais de meio século, pelas principais correntes que se reivindicam trotskistas.

Trotsky: Revolucioario Sin Fronteras (J-J Marie): obra ainda inédita em língua portuguesa, escrita pelo mesmo autor
do livro anterior, Jean Jaques Marie, historiador francês e militante da Quarta Internacional. O autor é ainda membro do Centre d'Études et Recherches sur les Mouvements Trotskyste et Révolutionaires Internatinaux (CERMTRI), dirige a revista Les Cahiers du mouvement ouvrier. A premissa de J-J Marie ao escrever este livro (minha edição é de 2009, editada pelo Fondo de Cultura Económica de Argentina) é de que o período histórico aberto com a Revolução de Outubro, e as premissas que a ela deram origem, bem como as contradições do sistema capitalista, não se fecharam.
J-J Marie teve acesso a arquivos da antiga URSS e, com todo rigor científico, defende posições revolucionárias, criticando o modo de produção baseado na propriedade privada dos meios de produção, nas formas atuais de democracia e as consequências da chamada "globalização". Tudo isso a partir da narrativa de uma biografia POLÍTICA de Trotsky, seu pensamento e a atualidade deste.

A Trilogia de Isaac Deutscher: Em O Profeta Armado, Desarmado e Banido, Isaac Deutscher construiu a mais colossal
biografia de Leon Trotsky. Deutscher faleceu em 1967, foi jornalista e chegou a militar no movimento trotskista, mas discordou da fundação da Quarta Internacional. Mesmo assim, a leitura de sua trilogia é indispensável a qualquer militante ou simpatizante da esquerda, ou mesmo por ser uma das maiores obras biográficas da literatura do século XX. Deutscher fez uma pesquisa minuciosa da vida de Lev Davidovich, desde sua infância, sua pequena passagem pelo anarquismo, sua adesão ao marxismo, suas polêmicas com Lênin e os mencheviques, sua adesão ao Partido Bolchevique, seu papel decisivo na Revolução como chefe do Exército Vermelho e depois todo o processo de desterro e perseguição pelo stalinismo, até seu assassinato em 21 de agosto de 1940 no México, a mando de Stálin.
Como dito, é uma obra gigantesca, riquíssima em detalhes, que vai a fundo na vida e nos conflitos, pessoais e políticos, do revolucionário russo. Indispensável.





A Montanha Mágica - Thomas Mann

Der Zauberberg, ou A Montanha Mágica, é o principal romance de Thomas Mann (o mesmo autor do já resenhado Morte em Veneza). É um colosso da literatura do século XX, bem ao estilo do chamado "realismo alemão", talvez aquela das obras de Mann que mais influenciou para que ele ganhasse o prêmio Nobel de Literatura em 1929.

A Montanha Mágica foi escrito em 1924, quando a Europa vivia o entre guerras, traumatizada pelo primeiro grande conflito mundial da História. E assim, a trama do livro se passa justamente no período logo anterior ao da I Guerra, com todos os "preparativos" que o Velho Continente vivia para o embate.


O personagem principal, o "herói" como chama Mann, é um jovem chamado Hans Castorp, de Hamburgo, Alemanha, que vai visitar o primo Joachim Ziemssem, internado por tempo "indeterminado" no sanatório Berghof, para doenças pulmonares, em Davos, nos alpes suíços (justamente a localidade nevoenta onde é realizado o encontro da burguesia internacional, o Fórum Econômico Mundial). O sanatório é dirigido por duas criaturas esquisitíssimas: o Dr. Behrens (o qual recebe a alcunha por parte de alguns internos de "Radamando", o ser da mitologia grega que, desde o mundo dos mortos - Hades - decidia sobre a vida e a morte) e o psiquiatra Krokowski. Ambos não são somente singulares por suas personalidades, mas, inclusive, por suas características físicas, como a altura e mãos enormes de Behrens, o corpo gordo e esturricado, com barbas do século XIX do Dr. Krokowski. Vê-se bem que Berghof tem ares de hospício... Krokowski ainda mantém teorias heterodoxas, as quais, de forma esquizóide, "palestra" toda semana aos internos, afirmando que todas as doenças orgânicas têm uma raiz psicológica e/ou psiquiátrica, que o orgânico é sempre secundário ao físico.

Castorp vai apenas para uma visita breve, mas pelos "costumes" excêntricos de Behrens, que vê doenças até nos móveis do sanatório, "examina" Castorp e rapidamente conclui que ele deve passar "algum tempo" internado. Logo após sucedem-se exames que concluem cada vez por maior gravidade de sua condição, e que sua volta à planície (Hamburgo) é absolutamente não recomendada, visto que os ares dos alpes são "depurativos" dos males do pulmão. Mas, na mesma linha de loucura, pouco ou nenhum tratamento é oferecido aos internos, apenas longos períodos de descanso e fornidas refeições preparadas por uma anã cozinheira.

Veja-se, logo, um cenário tipo Fellini. Mas, apesar de tudo, toda essa maluquice encontra uma verossimilhança e constrói uma história belíssima, com longas digressões filosóficas. Castorp, que acaba passando sete anos no sanatório, pensa sempre sobre o tempo. Acaba adaptando-se totalmente a Berghof e quase fica como interno definitivo.


Dois personagens são chave na trama: o italiano Settembrini e o judeu convertido, o jesuíta Naphta. O primeiro representa os ideais da Revolução Francesa, a liberdade, o pacifismo, o anticlericalismo; Naphta se coloca ao lado da Igreja, da hierarquia e do conservadorismo. Entretanto, em seus embates titânicos, Naphta acusa Settembrini de suas contradições como maçom e que seu pacifismo encontra limites quando a luta é contra o império austríaco, representante da monarquia; que Settembrini defende a liberdade, mas a liberdade burguesa, apavorando-se com a ação das massas e do proletariado. Por sua vez, o italiano contra ataca, massacrando a franca contradição do jesuíta de colocar-se ao lado da Igreja e da Tradição e ao mesmo tempo manter simpatias por causas supostamente "operárias", que ele defende como a necessidade de um "grande terror", protagonizado pelas massas revoltosas. Vê-se que ambos os debatedores são brilhantes mas cheios de contradições insolúveis, típicas de um período de confusão como o período anterior ao primeiro conflito mundial.

Castorp, no seu isolamento quase monástico, não consegue - nem o quer - conter seus impulsos viris, e acaba apaixonando-se perdidamente por uma das internas, uma russa chamada Madame Chauchat, com quem comunica-se em francês (existem longos diálogos nesta língua que infelizmente na edição brasileira não vem com notas de rodapé com a tradução, o que dificulta a compreensão; tenho alguma noção de francês e consigo "pegar o espírito da coisa", mas certamente quem não domina o idioma tem grandes perdas).

A Montanha Mágica pode parecer uma leitura enfadonha, mas está longe disso, bem como NÃO É UM LIVRO DIFÍCIL, ao contrário do que parece. Claro que, pelas suas 500 páginas, é daqueles livros "bons", que param de pé sozinhos na estante... mas que podem - e DEVEM - ser lidos na adolescência e relidos na idade madura.


A Montanha Mágica era considerado um livro "infilmável". Entretanto o diretor Hans Geissendörfer ocupou-se desta tarefa hercúlea e em 1982 criou uma película de 1h e 40min de duração, literalmente "enfiando" toda obra de Mann nesse exíguo espaço de tempo. Na minha opinião o resultado é um desastre... que pode ser conferido no YouTube, integralmente.

 

Morte em Veneza - livro e filme

Um dos autores mais importantes da literatura alemã do século XX, ao lado de Hermann Hesse e outros, certamente é Thomas Mann. Em várias de suas biografias, Mann é apresentado como um homossexual enrustido ou como pessoa com "tendências homossexuais", chegando a tomar "banhos frios" para "conter seus impulsos".

A novela Morte em Veneza, escrita em 1912, talvez seja o texto de Mann que mais "revela" essa faceta de sua natureza.

A trama se passa ao redor de uma visita a Veneza do escritor Gustav von Aschenbach, homem afastado da família, já consagrado pelos seus escritos, bem como dado a uma disciplina prussiana no seu modo de vida. 

Aschenbach vai à cidade italiana em busca de um clima melhor que o do sul alemão, que teoricamente estaria prejudicando sua saúde. Entretanto, chegando ao destino, descobre que as temperaturas elevadas e alta umidade veneziana o prejudicam ainda mais. Ele está hospedado no luxuoso hotel "Lido", frequentado por muitas famílias e indivíduos da elite de toda a Europa.

É no hotel que Aschenbach encontra um jovem adolescente polonês, que vem acompanhado de toda família, ao qual reputa uma beleza encantadora e nunca antes vista. Gustav apaixona-se perdidamente pelo jovem, que depois descobre chamar-se "Tadzio". É uma paixão platônica absolutamente enlouquecida, até pela diferença de idade gritante entre os dois, pois Gustav, ao que tudo indica, já beira os sessenta.

Particularmente, dei barrigadas de riso com as patéticas tentativas de Aschenbach de chamar a atenção de Tadzio, indo ao cabeleireiro para pintar os cabelos, comprando ternos vermelhos e "laçarotes" - quase um "bicha louca" - e seguindo o rapaz por toda a Veneza, maquiado com toneladas de produtos, numa tentativa totalmente vã de tornar-se mais jovem aos olhos do rapaz. Tudo vira ao reverso, pois ele torna-se uma figura estrambótica, mesmo que Tadzio, num dado momento, lhe dê um sorriso, o que quase causa um infarto em Gustav, acreditando ser "retribuído"... trata-se claramente de um humor tragicômico, pois as atitudes de Gustav são típicas do apaixonado que, submerso nos sentimentos eufóricos, não se dá conta das atitudes ridículas ao extremo que comete.

Também a trama é permeada por um "mistério". Algo está ocorrendo em Veneza, que é oculto pelas autoridades e pelos funcionários do hotel Lido. Gustav fica extremamente preocupado e passa a investigar o que está acontecendo na cidade, paralelamente aos seus "faniquitos" de paixonite platônica.

Morte em Veneza foi filmado em 1971, numa produção franco-italiana dirigida por Luchino Visconti. O filme pode ser classificado como "bom", apesar de muitos o considerarem um clássico. O filme pode ser visto pelo YouTube em versão integral.