segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

"Os Quinze Primeiros Anos da Quarta Internacional" - J-J Marie


Título: Os Quinze Primeiros Anos da Quarta Internacional
Autor: Jean - Jacques Marie (França)
Editora: Palavra

Ano: 1981
Nº de páginas: 159
Formato: Brochura

Sinopse e crítica: sobre o autor muito já foi dito neste blog e dispensa apresentações. Sobre a editora que gostaríamos de tecer algumas considerações. A "Editora Palavra" foi a responsável pela introdução no Brasil de uma série de textos fundamentais para a reorganização do movimento operário na era da fundação do PT e da CUT. Sua criação vem junto
Mário Pedrosa delegado na fundação da Quarta
com a fundação do "Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa", do qual a livraria Palavra, que ficaria sob a responsabilidade da antiga OSI (Organização Socialista Internacionalista, que acabou entrando no PT), e que também virou editora. A "Palavra" foi uma espécie de sucessora da "Kairós", a primeira a editar o fundamental "Escritos sobre os Sindicatos" (Trotsky), já resenhado.



Alguns podem pensar que a história de uma organização que nunca atingiu sem a beirada de uma influência de massas possa ter alguma importância histórica. Aliás, a maioria dos que se dizem socialistas hoje pensam assim. 

A questão, assim, está profundamente mal colocada. A
Quarta Internacional tinha e tem um programa. Esse programa disse coisas a respeito da realidade política do século XX. No seu cerne, no mais profundo do que o Programa de Transição ao Socialismo, o programa político da Quarta Internacional, naquilo que ele tinha de mais "precioso", ele se enganou ou os fatos revelaram a justeza de suas previsões, mesmo que não em 100%, (pois Trotsky nunca foi "profeta")??

Qualquer um que, com honestidade intelectual autêntica, se debruce sobre a História do século XX, mesmo com todos os erros - e não foram poucos - verá que as grandes premissas do Programa trotskista ainda são o que falta para o desenlace positivo da Revolução Proletária. Infelizmente camaradas. Infelizmente.



Gostaríamos que houvesse surgido outro movimento mais correto que o nosso e que tivesse ganho as massas. Mas não houve. Não houve porque continua sendo uma verdade INABALÁVEL que "a questão da revolução mundial hoje resume-se na crise da direção revolucionária do proletariado". As portas do inferno não prevaleceram sobre esta premissa. Continua sendo verdade as questões da construção dos partidos, da Internacional, da Frente Única, da intervenção nos sindicatos e na luta contra o oportunismo e o sectarismo. 

J-J Marie, a despeito de quaisquer outras opiniões outras, nesta obra mostra a importância monumental que foi a construção de um grupo minúsculo chamado Quarta Internacional. Pois seu programa é fio de continuidade entre todas as outras três internacionais, falidas. Se a Quarta não tivesse sido fundada, estaríamos hoje numa situação ainda pior do que a que já estamos, que é horrenda, pois quais seriam nossos referenciais, nossos balizadores para tentar - digo assim mesmo, tentar que o movimento popular, sindical e revolucionário se reorganize??? É justamente o que centenas de pseudo intelectuais ou militantes pequeno burgueses estão fazendo, tentando reinventar a roda, quando, PELO MENOS, a bússola para a ação nós temos.

Vemos muitos atrás do "jovem Marx", das "releituras de Lênin", de tentar achar algo em Rosa Luxemburgo, tudo na melhor das intenções, mas uma busca vã, porque nenhum desses escreveu um programa para ser testado pelos fatos e estes o confirmaram. Alguns sim, negam de forma consciente a validade do Programa trotskista porque sabem que ele é verdadeiro e querem mantê-lo no gueto.

A revisão dos 15 primeiros anos da Quarta é fundamental. Foi aí que se deu o divisor de águas entre aqueles que entenderam a dialética das contradições contidas no Programa e aqueles que sucumbiram ao stalinismo. Pablo, secretário geral da Internacional, diante da vitória acachapante de Stálin sobre Hitler e do prestígio inegável que o stalinismo adquiriu no mundo todo, desistiu do trotskismo. Acreditou que o stalinismo havia mudado de natureza e uma dia, sabe-se lá quando e como, faria a revolução "à sua maneira".

Pablo não durou muito na Internacional e foi sucedido por Ernest Mandel, que conjurou suas teses mundo a fora.
Mandel
Chegou ao ridículo de, quando do XXº Congresso do PCUS, no qual Kruchov denunciou os "crimes de Stálin", mandar uma carta aos stalinistas pedindo para que a Quarta fosse "reconhecida parte do movimento comunista mundial como o titoísmo" (mas isso vai a além do livro resenhado, vale pela comicidade trágica).


A natureza do stalinismo e as raízes do pablismo são elementos essenciais para a compreensão do século XX, sendo que talvez todas as que tenham consciência não passam de algumas dúzias. 

O mérito do livro é colocar o problema. E colocar bem.