sábado, 31 de outubro de 2015

Resenha: Trilogia "Divergente", Verônica Roth - As distopias e a luta de classes


Os três volumes, Insurgente

Títulos: Divergente (1º vol.), Insurgente (2º vol) e Convergente (3º vol)
Autora: Veronica Roth (EUA)
Editora: Rocco (Jovens Leitores)
Ano: 2014/15
Nº de páginas: por volta de 500 cada volume.
Formato: Capa semi-mole.



Sinopse e crítica: estamos num tempo de "moda" das chamadas "trilogias distópicas", sequência de histórias que se passam num mundo que é o exato contrário de uma utopia, ou seja, basicamente são realidades que se definem como "barbárie" (eu acrescentaria o "barbárie capitalista", que é sempre o modo de produção ainda vigentes nestes "mundos"). Um dos grandes sucessos atuais desse popular gênero "teen nerd" é a trilogia "Jogos Vorazes", de Suzane Collins, também norte-americana.

Ao longo da história da literatura do século XX várias distopias fizeram enorme sucesso e tornaram-se clássicos: 1984, de George Orwell, Farenheit 415 de Ray Bradbury e Admirável Mundo Novo, de Aldus Huxley. Os dois primeiros viraram épicos do cinema; 1984 filmado exatamente na época em que Orwell imaginou que os fatos narrados em sua obra iriam ocorrer, película britânica dirigida por Jonathan Gems e Michael Redford. A obra prima de Ray Bradbury ganhou vida nas telas pela mão do mestre François Truffaut, em 1966, considerado um dos maiores clássicos da ficção científica.

A trilogia ora comentada, Divergente, de Veronica Roth, tem como pano de fundo a cidade de Chicago, Illinois, cercada por muros por todos os lados, na qual se estabelece uma micro sociedade de uma cidade só, com um sistema de organização totalmente particular. A ideia é que, no passado, a humanidade haveria se exterminado em lutas intestinas, as quais, supostamente, teriam origem na "natureza humana", nos principais defeitos de caráter das pessoas que entrariam descontrole, como ira, agressividade, egoísmo, etc.

Assim, essa Chicago pós pós moderna divide-se em "facções", uma metáfora das classes sociais. São as facções a que devem ser membros os cidadãos da cidade: Audácia (que valoriza a "coragem" como virtude cardinal humana), a Amizade (que mantém a "fraternidade" e a alegria), a Abnegação (cuja pedra de toque é o "altruísmo" e também a caridade), a Erudição (conhecimento) e, por fim, a Franqueza (cujo valor é a "sinceridade"). Cada facção é representada por um "símbolo" gráfico (veja ilustração abaixo).




O problema é que o sistema de facções, longe de "harmonizar" as relações sociais nesta distopia, criam conflitos entre si, pois cada uma tende a crer que sua atividade é mais importante para a manutenção da estrutura social. Mas o pior de tudo, é que nem todos os que vivem em Chicago entram para uma facção; com o tempo, e com os rígidos testes de iniciação para a admissão plena em cada grupo, começa a aumentar um exército de "sem-facção", que são pessoas totalmente - e literalmente - "à margem" da sociedade faccionada. O lema "facção antes do sangue" e tido como precioso, ou seja, a facção é mais importante inclusive que os laços familiares; a pertença a ela define o indivíduo, o qual passa ter um "lugar ao sol", sem o qual sua situação é a de um "perdido", isto é, um "sem facção". A Abnegação, uma das facções, que é a que tem o "mando" do governo desta sociedade sob o pretexto de que seu valor "altruísmo" seria o mais adequado para exercer autoridade, começa a, ao perceber a crise do aumento exponencial dos "sem-facção", prestar-lhe caridade.

Assim, os indivíduos "sem facção", expulsos ou considerados inaptos a pertencer aos grupos na qual a cidade é dividida, passam a viver de trabalhos dos quais os membros "integrados" da sociedade não se sujeito: motoristas de trem e de ônibus, catadores de lixo, varredores, etc. Qualquer paralelo com os imigrantes, legais ou ilegais, no chamado "primeiro mundo", não é mera coincidência.

Desde Metropolis, o clássico do austríaco Fritz Lang de 1927, que quase todas as distopias têm como pano de fundo a revolução social. Tratam-se de sociedades capitalistas onde a desigualdade social chegou a extremos ainda mais
inconcebíveis que a nossa - fora o continente Africano - nas quais, mais cedo ou mais tarde, os grupos "inferiores" entram em convulsão contra a ordem vigente. Em Metropolis se faz um grande libelo ao "acordo harmônico de convivência entre capital e trabalho", tentando mostrar que aquela sociedade distópica do início do filme, afinal, pelo acordo entre trabalhadores e capitalistas, encontraria "paz e felicidade" utópicas, reacionáriamente utópica, pois é mais que ressabido que os interesses de capital e trabalho são irreconciliáveis.

Os protagonistas de Divergente são Beatrice Prior,
cognominada "Tris" em sua facção de escolha (Audácia), e Tobias Eaton, o "Quatro" da mesma Audácia, onde os dois se conhecem e se enamoram profundamente. Ambos "trocaram" de facção no ritual de iniciação que todo habitante dessa Chicago faz ao completar 16 anos; ambos pertenciam a Abnegação. Tobias é filho de outro personagem importante, Marcus Eaton, o líder de todas as facções, mas que foi um pai extremamente cruel e repressor; Tobias, ou "Quatro", literalmente "foge" para a Audácia para ficar longe do pai. 

Beatrice vem de uma família funcional e amorosa da Abnegação, onde tudo parece ir bem, mas para a surpresa de todos tanto ela quanto seu irmão Caleb, na iniciação, trocam de facção; ele para Erudição e ela para Audacia, rumo ao seu encontro com Tobias, que será seu instrutor até sua admissão oficial como membro da nova facção escolhida. Neste momento, se vê que os laços familiares - o que é humano, demasiado humano - pesam tanto ou mais que a "facção", pois são tidos como "traidores" e suas famílias eternamente mal vistas, por não terem conseguido, supostamente, passar os valores que cultivavam aos seus descendentes, que optam por outros rumos.

O primeiro volume é dedicado quase que exclusivamente à Beatrice "Tris" e sua "iniciação" na Audácia, um conjunto de provas marciais que lhe darão - caso seja classificada - o direito de pertencer a esta nova facção. A rivalidade entre os candidatos a novos membros é impressionante, bem como as exigências de crueldades mútuas entre eles, estando o treinamento, como dito, bem mais próximo do que um exército de elite exigiria dos seus do que um grupo para o qual se escolhe passar toda a vida. Neste volume, Tris descobre ser uma "Divergente", ou seja, tem uma capacidade - que depois se verá ser de origem "genética" - de ter múltiplas aptidões.

Em todo o "sistema" são utilizadas "simulações", ou seja, usa-se drogas injetáveis que proporcionam alucinações com propósitos especiais. Durante o "teste de aptidão" de cada membro, aos 16 anos, para saber qual a facção ele é mais "apto", usa-se um tipo de soro que simula situações de medo, egoísmo, etc. e conforme as reações do jovem lhe é dado o veredito de qual seu destinho mais "recomendável", muito embora a decisão de qual facção escolher seja sempre sua. Os chamados "Divergentes" tem a capacidade particular de "manipular" simulações, isto é, eles não sucumbem às alucinações e permanecem com um grau de consciência o suficiente para que saibam que o que estão vivenciando não é realidade. Daí conseguem como que "burlar" ou "confundir" resultados. 

Durante a chamada "simulação dos medos", que é aplicada em Tris por seu futuro namorado Quatro, por enquanto ainda seu instrutor na iniciação da Audácia, Tris antevê que aquelas situações que lhe geram pânico não são reais, conseguindo safar-se delas e manter o controle em tempo recorde, o que denunciam sua "divergência".

Para não estragar ainda mais a história aos que vão ler a trilogia, só digo que o sistema começa a ruir no momento em que Jeanniny Mattews, a líder da Erudição, começa uma verdadeira caçada aos divergentes, ao mesmo tempo que disputa, com todos os requintes de deslealdade de qualquer luta política, a liderança da Chicago distópica.

Tris e Quatro passam pelas situações mais inusitadas. Mas seu romance é um dos temas centrais da trilogia, e talvez a autora gaste tinta demais nas "discussões de relação" de ambos, particularmente no terceiro volume.

O que imprime um caráter de certa forma "reacionário" à trama é o fato de que os "sem-facção" nunca são retratados como o subproduto de uma sociedade, que vamos e venhamos, é radicalmente injusta (se o propósito dela era construir algum tipo de harmonia, existem vícios de origem insanáveis, e isso nunca é explicitado, a divisão social vista como algo "natural" ou "inevitável" em qualquer sociedade, do futuro ou do presente). Suas pretensões, legítimas ante o desamparo social que vivem, pois de fato não pertencem ao sistema da Chicago faccional, são apresentadas quase como delírios de pessoas marginais, que, talvez, deveriam resignar-se com sua situação. 

As duas primeiras partes, Divergente e Insurgente, são narradas do ponto de vista de Beatrice; Convergente muda essa perspectiva narratória, alternando capítulos em que o narrador continua sendo Beatrice e outros em que passa a ser Tobias. Não muda muito, mas não se entende o porquê de tal cambio. 

As facções são sempre colocadas como algo absolutamente próprios e pertencentes a cada indivíduo, uma parte indelével de sua natureza e identidade. O ruir do sistema de facções parece que fará estas pessoas perderem a si mesmas. É como que acreditar que a revolução social é impossível porque uns foram "talhados" para algumas tarefas - de obediência - e outros para as de mando. Basicamente o mundo de Divergente é um mundo de "castas", quase uma Índia, e em nada tem de "avançado" em relação ao próprio capitalismo, pois este, ainda que pequena - e cada vez menor - permite a mobilidade social. Mudar de casta em Divergente é uma coisa que se pode fazer uma vez na vida - aos 16 anos - e nunca mais, ou escorregar - o que alguns personagens expressar claramente ser "pior que a morte" - para o mundo dos "sem-facção".
Shailene Woodley

A trilogia já teve os dois primeiros volumes transformados em filme, de grande sucesso entre o público jovem principalmente, por seu caráter de ação. São bons filmes, razoavelmente fiéis aos livros. A direção é de Robert Schwentke; Shailene Woodley, a
Theo James como Tobias Eaton
protagonista de "Culpa é das Estrelas" (baseada na obra de John Green) é Beatric Tris Prior; Theo James é Tobias Quatro Eaton; conta ainda com a participação de Ansel Elgort, como Caleb, irmão de Tris, que com Shailene fez par romântico no mesmo "Culpa é das Estrelas".


A autora: Veronica Roth é uma jovem escritora de apenas 27 anos. É natural de Nova Iorque, mas seus irmãos moram na Chicago que é cenário da trilogia que lhe rendeu cerca de 17 milhões de dólares. Sua formação é em literatura e letras. É casada com o fotógrafo Nelson Ficht, e ambos, desde 2012, foram também morar em Chicago.


Veronica Roth