sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Resenha: Rumo à Estação Finlândia, Edmund Wilson



Título: Rumo à Estação Finlândia
Autor: Edmund Wilson
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1986
Páginas: 472
Formato: brochura

Sobre o autor: Edmund Wilson (1895-1972) foi um jornalista norte americano profundamente interessado nas questões relativas aos
processos revolucionários dos séculos XIX e XX. Rumo à Estação Finlândia é sua principal obra. Não chega a ser um marxista, mas popularizou informações a respeito de Marx, Engels, Lênin e Trotsky como poucos nos EUA, particularmente numa época em que a repressão ao comunismo em seu país estava no auge. Exerceu atividades também de crítico literário, considerado por muitos um mestre nesta atividade.


Sinopse e crítica: nos anos 80, Rumo à Estação Finlândia foi um livro de "moda" para todo aquele que queria dizer-se "culto" ou até "intelectual", mesmo com uma temática notadamente de esquerda. 
Chegou a figurar nas listas de mais vendidos, quase um best seller.
Sua temática, basicamente, é o traçado do perfil político e biográfico de grandes figuras revolucionárias, fazendo uma ponte interessantíssima - e real - entre a Revolução Francesa e a Russa.

O livro é divido em três partes. Na primeira, Wilson aborda historiadores e pensadores da Revolução francesa, como Michelet, Renan e Anatole France. Uma das grandes virtudes da obra é não olvidar da influência do pensamento de Vico na construção da
ciência histórica, fato muitas vezes ignorado (já citamos esse autor na resenha do livro de Paul Lafargue neste mesmo blog). Nesta primeira parte o autor ingressa nos recuos e avanços acerca do processo revolucionário francês, com autores que fazem apologia da reação e demonstram um reacionário saudosismo do antigo regime - caracterizando a revolução como uma "desordem anárquica" - e aqueles que perceberam que, apesar dos pesares, a derrubada da monarquia e o processo revolucionário constituíram um avanço inigualável para a História do Ocidente.

Na segunda parte o tema é as origens e o desenvolvimento do pensamento socialista, desde o precursor Babeuf, passando pelos chamados "socialistas utópicos" - Saint-Simon, Fourier e Owen - até o marxismo. Esta trajetória é bastante conhecida, mas o autor a descreve de forma muito original e interessante. Narra os projetos de "comunidades" realizados pelos utópicos, nas quais se pretendia construir pequenos núcleos de sociedades diversas do capitalismo,
sem uma ruptura revolucionária do conjunto da sociedade, as quais serviriam de "exemplo" ao mundo, que iria, com o tempo, aderir ao seu modelo. Esses projetos fracassaram totalmente pois, se é impossível construir o socialismo num só país, como pregou exaustivamente o stalinismo, quanto mais em pequenos grupos que acabavam inevitavelmente - por estarem imersos num mundo capitalista - desviando-se dos projetos originais, dividindo-se e fracassando. Por isso, apesar de suas excelentes intenções, foram projetos utópicos destinados inexoravelmente à derrota. Destas experiências beberam Marx e Engels, que são o objeto de estudo seguinte nesta mesma parte do livro, que construíram um sistema
filosófico, político e programático no sentido de uma transformação universal e revolucionária da sociedade, na direção da superação do modo de produção capitalista como um todo, a partir da ação política da classe trabalhadora organizada. Sua teoria partia das experiências dos socialistas utópicos franceses, das bases da teoria econômica inglesa (basicamente de Ricardo) e da dialética hegeliana. Wilson descreve a vida dos grandes gênios do socialismo e dá descrições básicas da sua teoria e sua militância social.


Por fim, na terceira parte, os personagens são os dois maiores revolucionários práticos da História: Lênin e Trotsky. Wilson faz algumas críticas, do meu ponto de vista exageradas, mas traça um importante relato da vida e da obra destes gênios da transformação social, que colocaram em prática, de forma exitosa, os postulados de Marx e Engels, depois derrotados pela reação stalinista.



Trata-se de uma obra que ganhou a fama de "complexa" o que não corresponde em absoluto à verdade. Escrita em 1940, até hoje é uma leitura altamente instrutiva para aqueles que pretendem conhecer aquilo que é mais importante na História: a dinâmica das revoluções e da luta das classes sociais.

A editora Cia das Letras reeditou a obra em formato pocket, disponível hoje nas principais livrarias e pela internet.