sábado, 17 de outubro de 2015

Resenha: Rubem Alves, "Dogmatismo e Tolerância"



Capa da Obra. Ed. Paulinas.


Título: Dogmatismo e Tolerância
Autor: Rubem Azevedo Alves (Rubem Alves)
Editora: Edições Paulinas
Ano: 1982 (a versão atual é das Edições Loyola, dos jesuítas)
Páginas: 172
Formato: capa mole

O autor: Rubem Alves foi uma figura ímpar no contexto literário brasileiro. Foi um "inconformado" por excelência, no melhor sentido da palavra, usando essa sua "inconformidade" com situações da vida e do mundo que o rodearam desde a infância como um combustível incrível para sua grande capacidade criadora. Cronista, poeta, teólogo, romancista, autor de livros infantis, atuou em diversas áreas do saber literário com um intelectual de ponta, sempre requisitado para palestras e seminários. Foi chamado "intelectual polivalente". 
Destacado membro do movimento Teologia da Libertação, muito reprimido pelas hierarquias eclesiásticas, tanto protestantes quanto católicas, particularmente sob a autoridade do papa João Paulo II e seu braço direito Joseph Ratzinger, que depois virou Bento XVI.
Rubem Alves era Mestre em Teologia, com formação nos EUA (sua origem eclesial é a Igreja Presbiteriana), foi um dos maiores pedagogos brasileiros. Também tinha formação psicanalítica e vasto conhecimento nesta área. Seus primeiros livros tratavam justamente das dificuldades que enfrentou no meio protestante com suas ideias progressistas, o que lhe valeu várias "punições". 
Faleceu em 2014, aos 81, deixando um legado invejável para as futuras gerações. A obra ora resenhada é uma delas.

Sinopse e crítica: Dogmatismo e Tolerância é uma obra do início da maturidade intelectual de Rubem Alves. Trata-se de uma coleção de crônicas, tanto de cunho pessoal como crítico de vários assuntos concernentes a questão básica dos rumos do cristianismo no Brasil e na América Latina, da natureza do protestantismo brasileiro e do ecumenismo, particularmente com a Igreja Católica Romana. 
Rubem Alves conta, em uma das passagens, seu isolamento entre as crianças de sua classe, por não ser católico. Mineiro de Boa Esperança, que nas décadas de 30 e 40, distando a cidade 283 km de Belo Horizonte, estava ele em terras quase "polonesas", ou seja, "mais papistas que o Papa". No entanto, era membro de uma família presbiteriana, e nunca abandonou a identidade protestante, mesmo com sua pertença legítima no movimento TL (Teologia da Libertação), que teve como lideranças sacerdotes, leigos e religiosos católicos romanos, como Leonardo Boff, Dom Pedro Casaldáglia, Frei Betto, no Brasil, e em outros países latino americanos Gustavo Gutierres, Jon Sobrino e Juan Luis Segundo.

O livro inicia justamente com um libelo à identidade protestante do autor, texto denominado "O Vento Sopra onde quer: confissões de um protestante obstinado":

"sou protestante. Sou porque fui. Mesmo quando me rebelo e denuncio. Minha história não me deixa outra alternativa. Sou o que sou em meio às marcas do passado. Mesmo que eu não quisesse, esse passado continuaria a dormir comigo, assombrando-me as vezes com pesadelos e fúria"

Tudo isso é dito porque as obras de Alves podem ser comparadas ao famosíssimo "Igreja Carisma e Poder", de Leonardo Boff, numa versão protestante. Como Boff, que por conta do livro foi convidado pelo então cardial J. Ratzinger a um "silêncio obsequioso" de 10 anos, destituído de vários cargos que possuía na Igreja e outras punições - que culminaram com sua renúncia ás ordens do sacerdócio romano - Alves disseca as vicissitudes do protestantismo no Brasil. Seu americanismo, sua falta de aculturamento à realidade brasileira.

Frei Betto, OP e Leonardo Boff. Foto Atual.


São muitos os temas abordados por Rubem Alves, mas como este é um blog opinativo e com aspectos de pessoalidade de seu autor, digo que acredito que o tema mais relevante que Alves levantou em sua vida - e particularmente em Dogmatismo e Tolerância - é o tema da "identidade". Como ele, era um dos únicos - as vezes o único - que quando a professora perguntava a religião a massa levantava a mão quando se identificavam como católicos, alguns espíritas, e eu protestante.

Nasci na Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, IECLB, um dos dois ramos do luteranismo no país, o
chamado "tronco original germânico", vez que rivaliza com a Igreja Evangélica Luterana do Brasil, a IELB, que vem de uma missão de pregadores norte-americanos (mas que sua vez também tem origem alemã!), do chamado "Sínodo Luterano Missouri", um ramo "rebelde" da Igreja Evangélica Alemã (EKD, sigla original em alemão), a qual consideram "degenerada" por não preservar um "luteranismo autêntico". A mesma opinião hostil mantinham em relação à IECLB, mas as relações entre ambas são cordiais hoje em dia, sendo a unificação das duas, na minha opinião, algo só compreensível por interesses eclesiásticos, não da massa de fiéis, que na prática acreditam e professam a mesma fé luterana. O grande "defeito" de ambas, mesmo da IELB com sua origem norte-americana, é um excesso, as vezes radical em alguns membros, de sua "germanidade". Isso acabou acontecendo no mundo todo; a mensagem de Lutero revolucionou a Igreja, mas o luteranismo em si - não o protestantismo me geral, com seus infinitos ramos - ficou restrito à Alemanha, aos lugares de imigração alemã (como o sul do Brasil e Chile) e aos países da Escandinávia (que não tiveram surtos migratórios). Nunca romperam esse isolamento, que acabou sendo cultural e até teológico, pois a religião também é parte da cultura de um povo e se não expressa em sua língua, forma e costumes, isola-se. É por isso que de todas as Igrejas Históricas protestantes no Brasil, a IELB e a IECLB são as únicas que vêm perdendo membros a cada senso do IBGE.

Minha situação ainda era mais difícil, pois fui luterano meio que por "acidente", visto que tenho um sobrenome bastante "lusitano". Isso era sempre visto com olhos estreitos, como alguém que não era "de origem". Este "estranhamento" Rubem Alves coloca muito bem; mas ele sentia-se parte da sua comunicada eclesial, mas deslocado num mundo profundamente romanista. A Igreja Romana também tem um profundo problema de aculturamento no ambiente latino-americano, mostrando sempre seu caráter europeu colonialista. O movimento Teologia da Libertação tinha, entre outros objetivos, dar um basta nisso e vitalizar todo o cabedal cultural-religioso criado no Brasil ao redor do catolicismo; Nossa Senhora Aparecida e sua devoção, por exemplo, é algo profundamente brasileiro, uma santa negra achada nos rios por humildes pescadores, uma imagem na qual os escravos encontravam perfeita identificação, inclusive entrando para o panteão sincrético das religiões afro-brasileiras.
Mas os setores conservadores, até hoje, procuram manter de pé e como devoções "predominantes", por exemplo, Nossa Senhora de Fátima, que tem raízes brancas e europeias bem mais sólidas. Não é a toa que as organizações mais conservadoras e retrogradas da Igreja Católica têm em Fátima um pilar sólido de seu proselitismo.

Nesta obra, Rubem Alves explora os conceitos de "dogmatismo" - os pilares afastados da realidade latino americana, em particular - e "tolerância" - suas ideias ecumênicas, que se rivalizam no seio das Igrejas Históricas tradicionais. Rubem Alves usa a figura da "gaiola", como se fossemos pássaros presos pelos dogmas, que nos impedem de alçar voos mais altos, contrários ao destino do homem cristão, mas que estão repletos na História do Cristianismo. Enfim, o livro trata destas "gaiolas", como superá-las, que a todo tempo nos aprisionam.