domingo, 4 de outubro de 2015

Resenha: "O que todo revolucionário deve saber sobre a repressão", Victor Serge


Título: O que todo revolucionário deve saber sobre a repressão
Autor: Victor Serge
Editora: Quilombo
Páginas: 120
Formato: brochura

Sobre o autor: Victor Serge (1890-1947) foi um grande militante revolucionário, apesar de algumas idiossincrasias e mudanças bruscas de posição. Aos dezoito anos aderiu ao anarquismo.
Chegou a ser militante do Partido Socialista Revolucionário, o partido de Kerensky, que assumiu o poder na Rússia com a Revolução de Fevereiro, que derrubou a monarquia. Com a eclosão da revolução bolchevique, adere a estes e se torna comunista. Com a reação stalinista, em 1923 ingressa na Oposição de Esquerda, liderada por Trotsky. Sofreu muitas e duras prisões, que seu descritas no seu magnifico Memórias de um Revolucionário, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Foi expulso do Partido Comunista da URSS e acabou também saindo da Oposição de Esquerda por divergências com Trotsky, figura pela qual, no entanto, sempre guardou respeito e admiração. Morreu de um ataque cardíaco na Cidade do México em 1947.

Sinopse e crítica: O que todo revolucionário deve saber sobre a repressão é um livro interessantíssimo, que deve ser lido por todo militante de esquerda. Seu autor tem toda a autoridade para escrevê-lo pois sofreu todo tipo de brutalidades tanto na mão do tsarismo como do stalinismo. 

Nesta obra, Victor Serge escreve um pequeno manual com informações básicas sobre o como resistir e/ou evitar a ação da repressão dos meios utilizados pelos governos reacionários. É um livro escrito em tom pessoal, com "dicas" de comportamento imperativas para que o militante não seja alvo da repressão.

Emblema da Okrana, Polícia Política do tsarismo
O primeiro capítulo trata justamente da Okhrana, a polícia política da monarquia russa. São dezenove tópicos em que Serge descreve os métodos de perseguição dos contrarrevolucionários aos comunistas, numa época em que ser militante era colocar sua vida em risco a cada dia. Na leitura de um dos grandes clássicos russos, A Mãe de Máximo Gorki, temos a ideia do quão dispare era a opção pela luta política nos tempos da feroz ditadura tsarista e hoje nas democracias modernas. O simples fato de portar um livro tido como "subversivo" já era motivo para que a polícia prendesse uma pessoa, com julgamentos totalmente manipulados. Os militantes sobreviviam a caro custo, trocando de emprego a todo instante e vivendo uma vida de completa instabilidade econômica. Ser revolucionário significava uma grande opção de vida e sacrifício.


No segundo capítulo Serge aborda o problema da clandestinidade. Sendo o tzarismo um regime absolutamente totalitário, a ação política, mesmo dos partidos mais moderados, tinha que ser feita na clandestinidade. Não havia nenhuma forma de liberdade de expressão, nem de legalidade. Restava, portanto, a ação secreta, havendo sempre a preocupação da infiltração de agentes da reação nos partidos e sindicatos, tendo os militantes que estar sempre preparados para não serem enganados por policiais secretos.

O terceiro capítulo intitula-se Conselhos aos Militantes, e trata mais diretamente do problema de quando algum ativista venha a cair na prisão, bem como da questão de como devem circular cartas e documentos políticos. Trata-se de uma questão extremamente importante na atualidade, diante do mundo "virtual" que vivemos, com o ascenso da internet e outros meios de comunicação, bem como das redes sociais. Os revolucionários não podem ter a ilusão de que esses meios - ainda que úteis e como mesmo previu Marx no Manifesto Comunista, ajudam a diminuir a distância entre os operários - existe sobre eles um controle dos organismos do imperialismo. Os "wikileaks", Snowden e outros, mostraram que o rei está nu e que não há segredos na internet. 

Por fim, o capítulo O Problema da Repressão Revolucionária traz uma reflexão mais teórica sobre a ação política do Estado burguês contra aqueles que querem instaurar outra ordem social. Analisa o fascismo de Mussolini, a dominação econômica pela fome e outras formas de opressão.

Um livro que não perde sua atualidade mesmo nos tempos de democracia. Um golpe de Estado - fascista ou disfarçado de "parlamentarismo branco", como recentemente ocorreu no Paraguai ou o que ameaçou a Venezuela no tempo de Hugo Chavez - é sempre uma espada na cabeça dos revolucionários. 

Além disso, como afirma Louis Althusser na sua magnifica obra Os Aparelhos Ideológicos do Estado, a burguesia conta com a ajuda da Igreja, da mídia, da escola e de todos os aparelhos que existem para a preservação da "ordem". Em último caso, ela chama seus "gorilas", as forças armadas.

Mesmo a mais liberal das democracias continua - enquanto for um regime capitalista - sendo uma ditadura das minorias detentora da propriedade privada dos grandes meios de produção. A repressão ao movimento de supressão da ordem de exploração do homem pelo homem continua sempre agindo, ou de forma mais disfarçada ou diretamente pela bota fascista. A burguesia sempre tem como regime ideal de sua preferência as ditaduras, sendo a democracia, mesmo a burguesa, uma conquista da classe trabalhadora, que impõe à classe dominante direitos de liberdade de expressão. Mas tudo depende da correlação de forças na luta de classes e, quando esta pende para os setores dominantes, os revolucionários devem estar preparados para resistir.