segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Resenha: "A Montanha dos Sete Patamares", Thomas Merton


Título: A Montanha dos Sete Patamares
Autor: Editora Mérito (existe edição atual da Vozes)
Ano: 1954
Páginas: 462
Formato: capa dura/papel jornal (as edições mais modernas têm formatos diversos)



Sobre o autor: O livro em si é uma autobiografia e, portanto, você vai conhecer mais sobre Merton, ao menos sobre um período de sua vida que ele deixou ser exposto, pois existe outro livro que são excertos de seus diários que o autor deixou expresso em seu testamento que queria que fossem publicados somente 25 anos após sua morte. Aliás, sobre a morte de Merton repousam muitas dúvidas; ele, desde que tornou-se monge trapista, nunca havia saído da Abadia de Getsêmani, Kentucky (EUA); somente por conta de um encontro internacional de monges de várias religiões - entre os quais o Dalai Lama, com o qual Merton mantinha viva
correspondência - ele abandonou sua morada e, no alojamento do hotel onde ficou hospedado para o evento, após tomar banho, pisou em um fio desencapado de um ventilador e morreu eletrocutado. 
Merton foi uma pessoa ímpar na história do século XX. Por tempos esquecido, sua obra vem sendo lembrada a cada dia seus principais livros relançados por editoras católicas. Foi um escritor profícuo sobre vários temas: o amor, vida de oração, vida monástica, história do monaquismo, vida de santos, autobiografias e diários, livros de aforismos espirituais, liturgia, as mudanças do Concílio Vaticano II e muitos outros temas. Viveu somente 53 anos, mas deixou um legado de espiritualidade, ecumenismo e paz impressionantes. Também foi missivista com Martin Luther King Jr., ambos protestando contra a guerra do Vietnã, cada uma a sua maneira.
Abadia de Getsêmani, em dia de festa

Sinopse e crítica: A Montanha dos Sete Patamares não é um livro que possa ser convertido em quadrinhos; apesar de não ser complexa, guarda toda a intimidade do conflito do jovem Thomas - depois irmão e padre Luís - de sua vida dita "mundana" para a reclusão em um dos mais rígidos claustros da Igreja Católica Romana: a Ordem Cisterciense Reformada da Estrita Observância, os trapistas.
Cabe aqui um parêntesis: é muitíssimo comum, pessoas inclusive cultas, acreditarem que o apelido da Ordem, "trapista", venha do fato de que eles se vestem de trapos, ou ainda uma história maluca -atribuída a Jorge Luís Borges (que chegou a lançar um dicionário satírico com "ares de seriedade") - de que os trapistas "recolhiam restos de tecido - trapos - para fazer papel". Nada disso é verdade. Nunca usaram trapos e seu hábito é preto e branco, muito parecido com o hábito dominicano.

Monges trapistas em coro, com seu hábito típico.


Merton nasceu na Nova Zelândia. Seu pai sofria de certo indiferentismo religioso; já sua mãe pertencia a seita quacker, protestante, e ambos eram artistas plásticos. Merton nasceu, portanto, protestante, sendo batizado na Igreja Anglicana. Viajou por muitos países, sendo o primeiro os Estados Unidos, mas também as Bermudas; em sua adolescência foi morar com os avós na Europa, aonde conheceu a França, Itália e Inglaterra, onde estudou seus primeiros anos e sentiu certa repulsa pela Igreja da Inglaterra, pelo seu indiferentismo religioso.

Em 1934, já nos Estados Unidos, de volta, concluiu seus estudos em língua e literatura inglesas. É quando inicia-se uma intensa crise espiritual no jovem. Havia vivido uma vida na época tida como "dissoluta", mas que hoje seria o normal de um jovem ou adolescente, com namoradas e festas. Chegou a aproximar-se do movimento comunista norte-americano, pelo qual, por algum tempo, foi vivamente interessado, mesmo nunca sendo militante.
Merton, ao conhecer o catolicismo romano, tem uma experiência espiritual gradual. Fica entusiasmado com o carisma  romano, com suas múltiplas devoções e, particularmente, com a vida religiosa, com o clero e sua forma de vida, inexistente no protestantismo já por demais secularizado. O livro narra em detalhes as reflexões de Merton sobre a Igreja Romana e sua crise de valores, sobre o que cultivava até então como verdade, pois dizia-se ateu.

Imagem medieval. Cistercienses.
Logo aceita o batismo e torna-se fervoroso católico, ao ponto de querer ingressar na vida religiosa. Sua primeira opção são os franciscanos, que não o aceitam. Sua decepção é enorme mas não desiste. Ao descobrir a vida monástica procura o mosteiro trapista de Getsêmani, aonde passará o resto de seus dias.  O livro conta as duras provas que o noviço é submetido, a vida em comunidade monacal, narra a personalidade e a santidade de alguns irmãos, e a trajetória de Merton de irmão cooperador até sacerdote consagrado. Tudo entremeado de reflexões sobre Deus, a fé, a vida em comunidade e balanços de sua existência, o "antes" e o "depois" do mosteiro.

Merton torna-se, a princípio, como a maioria dos "convertidos", uma pessoa muito radical e de inclinação bastante conservadora. O livro narra, depois, que, durante uma enfermidade, Merton tem um "segundo despertar", no qual passa a ver a Igreja e a humanidade de uma forma diferente, mais aberta.

Também permeia toda a história os conflitos constantes entre Merton e seus superiores, uma vez que nosso herói tem pretensões intensas de viver uma vida eremítica, mesmo dentro de uma ordem de vida comunitária. Acaba construindo um pequeno eremitério onde exerce a contemplação e produz suas mais de 70 obras, além de seus famosos diários.

Uma trajetória singular, de um homem singular.

A obra é encontrada aos quilos em sebos e sites de venda virtual de livros usados. As reedições, mais modernas, normalmente nas livrarias da Editora Vozes. Pode ser também baixado da internet.

Existem somente dois mosteiros trapistas no hemisfério sul. Um na Argentina, próximo a Buenos Aires, e outro aqui no Brasil, no sul do Paraná, o lindíssimo Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo.