segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Marx e Engels, "A Ideologia Alemã e Teses sobre Feuerbach", edição resumida


Título: A Ideologia Alemã e Teses sobre Feuerbach
Autores: Karl Marx e Friedrich Engels
Editora: Moraes
Ano: 1ª edição de 1984
Páginas: 119
Formato: brochura

Sinopse e crítica: A Ideologia Alemã é um dos livros mais conhecidos de Marx e Engels e, ao mesmo tempo, com a história
Hegel
mais obscura. O livro é uma polêmica filosófica de alto calibre com os chamados "irmãos Bauer", marcando o rompimento da dupla com o chamado "heglianismo de esquerda". Estes, apesar de críticas ao mestre (Hegel), ainda eram prisioneiros de uma lógica metafísica e idealista.


Foi o primeiro livro escrito a duas mãos pelos autores, mas só chegou ao público postumamente, em 1933, quando foi publicado em Leipzig na Alemanha, e em Moscou. 

Fazer uma resenha de A Ideologia Alemã é uma tarefa hercúlea, já que o próprio livro é uma obra monumental. Por isso ele chegou ao Brasil fragmentado, quando algumas editoras de esquerda, como a Editora Moraes, publicaram-no de forma resumida, particularmente com ênfase no primeiro capítulo, seguido das famosas Teses sobre Feuerbach, outro heglianista de esquerda que, segundo Marx e Engels, não conseguiu libertar-se completamente do idealismo filosófico.



Trata-se de um livro de filosofia, mas para os marxistas, a filosofia é um instrumento de trabalho na luta de classes, não um "abstrato" "pensar o mundo e as coisas". O materialismo dialético parte do pressuposto da chamada cognicibilidade da matéria, isto é, o mundo é material e pode ser conhecido pelo homem (no sentido de humanidade) através dos cinco sentidos e até mais, com o desenvolvimento da ciência. Assim eles dizem, na p. 23, quando afirmam a célebre frase de que "não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência".

Li este livro na minha adolescência. Fiquei absolutamente deslumbrado com as várias descobertas dos autores. A que mais me marcou foi quando os autores negam que exista "o homem" como "categoria filosófica". Explico-me. Por todos os séculos, todos os pensadores calcaram sua obra na análise de uma entidade abstrata que chamavam de "o homem", ou "humanidade", ou o que seja. Foi muito comum os debates sobre "a natureza humana", se "o homem" era "bom" ou "ruim" por essência (como em Rosseau) e tantos rios de tinta gastos nestas discussões.

Marx e Engels, por toda esta obra, têm por objetivo HISTORICIZAR todos os problemas. Não existe, de forma alguma, "um ou o 'homem'" abstrato, fora da história, muito menos uma metafísica "natureza humana". Não que isso seja algo determinista, como muitos acreditaram de forma equivocada e, até hoje, imputam ao marxismo a pecha de ser uma ideologia autoritária na essência, pois veda ao indivíduo sua natureza.

Ao contrário, Marx e Engels descobriram uma RELAÇÃO DIALÉTICA entre o homem, sua consciência, e o meio onde vive. Afirmam na p. 49 outra frase clássica: "as circunstâncias fazem os homens tanto quanto os homens fazem as circunstâncias".

Outro conceito que me marcou na época foi o questionamento do livro acerca de "rótulos ideológicos". Isso funciona mais ou menos
assim: algumas pessoas se dizem socialistas, anarquistas ou comunistas. Mas elas fazem o que exatamente? Sua atividade é intelectual literária, elas aderem a estas correntes do movimento operário no plano das ideias? Isso não faz ninguém nada. Segundo A Ideologia Alemã, só é comunista aquele que realmente é filiado a um partido comunista e exerce uma atividade militante, real e concreta na luta de classes. O resto é bazófia. A praxis é o critério da verdade.

Esta ideia de que o homem faz a si mesmo por ausência completa de uma natureza "prévia" que o conduza a algum lugar será a base da filosofia existencialista, particularmente de Jean-Paul Sartre. Tal corrente tem conexões fortes com o marxismo mas não é, de forma alguma, marxista.

Algumas correntes ditas marxistas revelam certo desprezo pela filosofia, pela filosofia em geral, acreditando que Marx deu cabo de tudo que esta matéria deveria conter. É lógico que as obras marxistas deram um salto gigantesco no conhecimento filosófico, bem como fixaram marcos bastante importantes e rigorosos para o entendimento do mundo. Vale citar aqui um dos grandes filósofos marxistas pós Marx, Engels, Lênin e Trotsky, Louis Althusser:
Louis Althusser


A filosofia surge logo que o domínio teórico aparece, logo que uma ciência (num sentido estrito) nasce. Sem a ciência não há filosofia, apenas visões de mundo. A aposta na batalha e o campo de batalha devem ser distinguidos. A aposta definitiva da luta filosófica é a luta pela hegemonia entre as duas grandes tendências de visão de mundo (materialista e idealista). O principal campo de batalha dessa luta é o conhecimento científico: contra ou a favor dele. Deste modo, a batalha filosófica mais importante ocorre na fronteira entre o conhecimento científico e o ideológico. Lá, as filosofias idealistas que depredam a ciência lutam contra as filosofias materialistas que servem às ciências. A luta filosófica é uma esfera da luta de classes existente entre visões de mundo. No passado, o materialismo sempre foi dominado pelo idealismo.

https://www.marxists.org/portugues/althusser/1968/02/filosofia.htm

Não sou certamente a pessoa mais qualificada para resenhar essa obra gigantesca, até porque li somente seu resumo. Muito ainda haverá de ser aprendido em A Ideologia Alemã. Termino com a famosa última tese sobre Feurbach, conhecidíssima, mas válida e atual:




"Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão é transformá-lo!"

O original de A Ideologia Alemã encontra-se disponível em português pela editora Boitempo.