segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Dois pequenos brochuras de Trotsky: A Revolução Permanente na Rússia e Lições de Outubro


A REVOLUÇÃO PERMANENTE NA RÚSSIA, editora Antídoto, Portugal. 


Trata-se de uma palestra que Trotsky proferiu em 1932 na Dinamarca. Ele estava no auge de seu exílio político e teve que ir às escondidas para aquele país para ser observado atentamente por um auditório de jovens que queriam conhecer aquela figura que, de líder da Revolução, tinha sido alçado ao posto de maior traidor da causa do comunismo, fruto da propaganda stalinista.

De pronto Trotsky anuncia que proferirá a conferência em língua alemã, vez que não dominava o dinamarquês. Além disso, mesmo sendo multi poliglota, seu alemão era sofrível. Isso empobreceu o discurso.

Em uma das partes mais importantes, Trotsky explica didaticamente o que é a "revolução permanente", sua maior contribuição teórica ao marxismo. Diz ele:

"Em relação à suas tarefas imediatas, a Revolução russa é uma revolução burguesa. Mas a burguesia russa é contrarrevolucionária. Por conseguinte, a vitória da revolução só é possível com a vitória do proletariado. Ora, o proletariado vitorioso não se deterá ao programa da democracia burguesa, passará ao programa do socialismo. A Revolução russa tornar-se-a a primeira etapa da revolução socialista mundial"



Temos aqui um ponto central das diferenças políticas entre Trotsky e todos aqueles que, mesmo se dizendo marxistas, caíram nas garras - de uma forma ou de outra - do stalinismo. Segundo este, a revolução nos países de capitalismo periférico deveria processar-se por "etapas"; uma primeira em que a burguesia "nacionalista e progressista" assumiria o poder e instauraria um regime democrático constitucional. Só depois é que os comunistas estariam aptos a "tomar o poder".

Prestes (PCB), logo ao sair da cadeia, apóia Getúlio
O que se viu na História foram dezenas de PCs funcionando como apêndices de partidos burgueses, como foi o caso do PCB, que apoiou o getulismo e depois tentou de todas as formas aproximar-se de Jango e participar do governo, numa miopia política incrível, pois nunca contaram com a hipótese do golpe militar de 1964. O que ocorreu foi uma crise sem precedentes no PCB, sendo que várias dissidências formaram grupos que forma para a chamada "luta armada", e acabaram morrendo nas mãos do aparelho repressivo militar.

Em outra parte do mesmo texto, na mesma página do livro (nº 58), Trotsky avalia a grande pedra de toque do stalinismo: a doutrina do socialismo num só país. Stálin acreditava que a URSS sobreviveria isolada do mundo capitalista e mesmo que não acontecessem revoluções em outros países, a "pátria mãe do comunismo" estaria a salvo. Chegou a afirmar, em sua famosa entrevista no New York Times, que "nós fizemos nossa revolução. Se os outros quiserem, que façam a sua". Seu internacionalismo não existia.

Afirma Trotsky:

"As atuais forças produtivas ultrapassam desde há muito as barreiras nacionais. A sociedade socialista é irrealizável nos limites nacionais. Por mais importantes que sejam os sucessos econômicos de um Estado Operário isolado, o programa do 'socialismo num só país' é uma utopia pequeno burguesa. Só uma Federação Européia, e em seguida mundial, de repúblicas socialistas, pode abrir caminho para uma sociedade socialista harmoniosa"

Na China, por diversas vezes, Stálin ordenou Mao Tsé Tung a aliar-se com o partido burguês nacionalistas Kuomitang. E sempre foram alianças desastrosas para os comunistas, inclusive massacrados por membros do Kuomitang. Só quando Mao e o PC chinês resolveram agir sozinhos é que alcançaram resultado positivo.

Basicamente o pensamento de Trotsky centra-se na teoria da Revolução Permanente. Ela é a chave para entender o trotskismo. E este pequeno volume nos ajuda muito.



AS LIÇÕES DE OUTUBRO, editora Nosso Tempo, Coimbra, Portugal

Esse pequeno brochura foi escrito às pressas em 1924, ano que, logo em janeiro, falecera Lênin. Imediatamente o aparato stalinista começou a mover-se para tomar o poder, e isso significava claramente afastar Trotsky de qualquer posto de poder político.

Logo no início, Trotsky afirma claramente a necessidade imperiosa dos revolucionários estudarem a Revolução de Outubro. Segundo ele, os ensinamentos da revolução que ajudou a dirigir, são fundamentais para que não ocorram derrotas do proletariado em outras insurreições. Particularmente se vivia sob o espectro da derrota da revolução na Alemanha - grande esperança dos bolcheviques - na qual morreram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Segundo o autor, qualquer falta de clareza sobre o papel protagonista do Partido Revolucionário no processo de derrota da burguesia, levará, inevitavelmente, a derrotas.


Diz ele:

"Embora, como é evidente, saibamos que cada povo, cada classe e até cada partido se educam principalmente a partir de sua própria experiência, de modo nenhum isto significa que a experiência dos outros países, classes ou partidos, seja de pouca importância. Sem o estudo da Grande Revolução Francesa, da Revolução de 1848 e da Comuna de Paris, nunca teríamos realizado a Revolução de Outubro, mesmo com a experiência de 1905. " (p. 10)

Sendo assim, o livro analisa os pormenores da Revolução, o papel do partido e dos sindicatos, as famosas "Teses de Abril" (nas quais Lênin afirma a necessidade imediata de uma revolução de caráter proletário), a formação dos soviets e a insurreição em si.

Um livrinho de fácil leitura e que muito nos ensina.