domingo, 11 de outubro de 2015

Clássicos Políticos latino-americanos: "As veias abertas da América Latina", Eduardo Galeano


Título: As Veias Abertas da América Latina
Autor: Eduardo Galeano
Editora: L&PM
Ano: primeira edição no final dos anos 70. Atual: 2010. Publicado no Brasil pela primeira vez em 1978 (Editora Paz e Terra)
Páginas: 396
Formato: pocket

Sobre o autor: Eduardo Galeano, falecido em abril deste ano, com a idade de 75 anos. Foi um dos mais destacados jornalistas,
Eduardo Galeano em seus últimos dias
militantes, romancistas e escritores uruguaios de todos os tempos. Sua obra é vastíssima, cobrindo temas como sexualidade, futebol e outros, mas sempre com um olho focado na política que permeia todos estes assuntos. Foi exilado na ditadura militar em 1973 e voltou a Montevidéu em 1985. Autor de muitíssimas obras, traduzidas por todo o mundo, foi um dos intelectuais de esquerda mais engajados e respeitados de toda a História do século XX e do início do XXI. As Veias Abertas da América Latina foram escritas quando Galeano recém havia saído da adolescência, o que é um fato absolutamente impressionante.

Sinopse e crítica: os ex-presidente venezuelano Hugo Chavez qualificou As Veias Abertas da América Latina como "um monumento da história latino americana" (quando ofereceu um exemplar do livro de presente a Barack Obama, em seu primeiro encontro - Folha de São Paulo). Nada mais justo para adjetivar este que é mais que um livro, mas quase um "tratado popular" sobre a espoliação de nosso continente.

Galeano expressamente admitiu que evitou a todo custo utilizar-se de uma linguagem demasiadamente intelectual, fazendo um "livro para o povo". Como conta no posfácio, o livro foi imediatamente proibido pela ditadura, mas era lido aos pedaços, dentro de maços de cigarro, latas, falsas cartas, etc. por centenas de pessoas interessadas em seu conteúdo.

As Veias Abertas da América Latina é um pequeno tratado sobre o imperialismo, sobre como o imperialismo estadunidense e europeu golpeou, roubou, saqueou e manipulou politicamente a América Latina desde seu "descobrimento" até os dias atuais. Galeano viajou por dezenas de lugares que descreve no livro, sendo testemunha ocular da realidade miserável dos habitantes de um continente extremamente rico. Metodologicamente, o livro não é nada rigoroso, mas vai narrando, passo a passo, a realidade de cada país e sua riqueza: o Chile com o cobre e o salitre, a Bolívia com sua prata, a tragédia do latifúndio monocultor no Brasil, etc. Trata-se de uma enorme obra de pesquisa, com consultas à mais de duas dezenas de outros livros especializados no tema, no tempo sem internet. Um trabalho realmente colossal para um quase adolescente.

As veias Abertas da América Latina tornou-se rapidamente um clássico; um dossiê sobre a exploração latino americana, uma denúncia vigorosa de seus espoliadores, privados e públicos, numa prosa as vezes lírica, outras vezes repleta de amargor - justificado - transmitindo uma mensagem que transborda de humanismo.

Potosí, Bolívia
O livro é dividido em duas partes; 1) A pobreza do homem como resultado da riqueza da terra, na qual pululam diversos subtópicos em que o autor desenvolve as formas de roubo das riquezas naturais da América Latina desde o tempo do descobrimento, sendo o mais famoso seu tópico sobre a montanha boliviana de Potosí, que literalmente sumiu pelas escavações de prata.

A segunda parte, 2) O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos do que navegantes, trata das relações contemporâneas, à época da publicação da obra, entre o imperialismo e nosso
continente. Mostra que continuamos escravos do capitalismo central, e que romper estas amarras é algo absolutamente necessário para que, algum dia, sejamos desenvolvidos economicamente.

Uruguaio, terra aonde existe  tipo chamado "gaucho", o mesmo gaúcho aqui do Rio Grande Sul, Galeano escreve uma frase interessantíssima no sentido de desmontar o mito resistente do "monarca das coxilhas":

"O gaúcho das estampas folclóricas, tema de pinturas e poemas, têm pouco a ver com o peão que trabalha em extensas e alheias terras. As alpargatas desfiadas tomaram o lugar das botas de ouro, um cinto comum, ou às vezes uma simples corda, substituiu o largo cinturão com enfeite de ouro e prata. Quem produz a carne perdeu o direito de comê-la...."

"o subdesenvolvimento latino americano é uma consequência do desenvolvimento alheio, que os latino americanos somos pobres porque é rico o solo que pisamos e que os lugares privilegiados pela natureza foram amaldiçoados pela história. Neste nosso mundo, mundo de centros poderosos e submundos submetidos, não há riqueza que pelo menos não seja suspeita"

Eduardo Galeano