quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Resenha: "A Revolução Sexual", Wilhelm Reich


Título: A Revolução Sexual
Autor: Wilhelm Reich
Editora: Guanabara
Ano: 1988 (8ª edição)
Páginas: 311
Formato: brochura



Sinopse e crítica: Wilhelm Reich dispensa apresentações. Um dos mais influentes psiquiatras do século XX, tem uma vasta obra sobre os problemas da sexualidade humana. Iniciou sua carreira vinculado ao Partido Comunista Alemão, mas logo foi desligado por divergências, muitas ligadas à ortodoxia stalinista daquela organização. Reich era um irreverente por natureza, de tipo libertário; sua grande preocupação foi sempre a felicidade humana, que acreditava possível aqui e agora, diferentemente de Freud que postulava que o homem viveria sempre com uma certa melancolia, muito ao estilo do que pensava Schopenhauer (que influenciou muito Freud, muito embora este nunca tenha reconhecido).

Seu livro "O Combate Sexual da Juventude" (já resenhado neste blog) foi escrito no calor de sua militância ativa no PC alemão. Era um período de grandes esperanças e da construção de programas para o futuro. A Revolução Sexual é marcada pela decepção de Reich com a condução das questões da sexualidade humana na União Soviética, principalmente depois da morte de Lênin e da ascensão do stalinismo (o que ele escreve claramente). 

O livro não é um manifesto sobre uma revolução sexual, mas um lamento sobre seu fracasso naquele tempo. Tanto que a primeira parte da obra é intitulada "O Fiasco da Moral Sexual" e a segunda "A Luta pela 'Nova Vida' na União Soviética".

A primeira parte é uma crítica vigorosa aos postulados ideológicos da moral burguesa. Diz Reich: "Toda a moral nega a própria vida (moral burguesa, entenda-se), e a revolução sexual parece não ter tarefa mais importante de possibilitar finalmente ao homem, ao ser humano vivo, a satisfação e a realização de sua vida" (p. 57). Ao responder aos seus críticos, que o acusavam de defensor da promiscuidade e da anarquia das relações, Reich replica que "O alvo de uma revolução cultural é o estabelecimento de pessoas com uma estrutura que as faça capazes de autocontrole". Ou seja, o projeto de uma revolução sexual era a abolição de uma moral doentia, que tornava as pessoas infelizes e por isso mesmo inclinadas, em alguns casos, a disfuncionalidades sexuais, como a extrema promiscuidade, a falta de afeto nas relações, e coisas mais graves como o estupro e a pedofilia. Estes seriam os subprodutos da moral burguesa; a revolução sexual tornaria homens e mulheres maduros em suas relações, felizes e satisfeitos.

Hoje vivemos, com o super advento dos meios de comunicação, uma era em que a pornografia tornou-se uma indústria poderosa e extremamente lucrativa. Além disso, a estimulação de uma sensualidade idealizada, de corpos perfeitos e sempre jovens, cria multidões de frustrados, inclusive pessoas belíssimas, que fazem academia e tudo mas estão sempre insatisfeitas com seu próprio corpo; cria a epidemia da bulimia e da anorexia, doenças gravíssimas e mortais. A "revolução sexual" dos anos 60 e 70, que nos libertou de muitas amarras, vem sendo, pouco a pouco, sequestrada pela "nova" moral burguesa, que camaleonicamente se modifica para controlar os avanços sociais. A homofobia e o machismo permanecem presentes.

Nesta linha, cito recente reportagem da revista Caros Amigos, escrita pela jornalista Laís Modelli, que cita o aumento vertiginoso da violência sexual nas redes sociais. Ela cita o chamado "revenge porn", termo inglês utilizado para definir os atos de exposição de imagens íntimas na internet sem consentimento. Em 2013 ficaram famosos dois casos de suicídio no Brasil (um na Paraíba e outro no Rio Grande do Sul), que se mataram após terem fotos suas divulgadas na internet. Além disso, como exemplo, o Facebook permite a criação de "fan pages" sem quase nenhum critério; um exemplo é a página "Orgulho de ser Hétero", a qual espalha mensagens de ódio a homossexuais - de forma direta ou como "piadinhas" - e é de um machismo revoltante, colocando a mulher sempre como objeto sexual do "macho 'alpha'" (sic!).

Imagem da página "Orgulho de ser Hétero" - Facebook


Uma das frases mais brilhantes do livro - e até profética - é quando Reich afirma que "evidentemente a doença venérea não pode ser subestimada. Mas, em geral, ela é usada como um espantalho, como um meio de obrigar à repressão sexual" (p. 139). Nos tempos áureos da epidemia da AIDS isso foi uma verdade gritante; não foram poucos moralistas, pastores, padres e até médicos e pseudo cientistas que colocavam a existência da AIDS como um "produto natural da promiscuidade dos anos 70". Alguns, mais enlouquecidos, a taxavam como castigo divino pela imoralidade. O pior é que ainda fazem isso... E não nos esqueçamos de campanhas de prevenção de cunho absolutamente terrorista, como aquele slogam criado no famigerado governo Collor, que dizia "Se você não se cuidar, a AIDS VAI TE PEGAR!". (É obvio que defendemos a prevenção e os cuidados, as relações responsáveis, mas de forma alguma devemos compactuar com a disseminação de campanhas de pânico, como essa).



Em "A Revolução Traída" e "Questões do Modo de Vida" Trotsky avalia alguns pontos que Reich analisa com mais profundidade neste livro. As leis que facilitavam o divórcio, que foram promulgadas imediatamente após a Revolução de Outubro, não exigindo quaisquer formalidades para a dissolução do contrato matrimonial, foram pouco a pouco sendo revogadas pelo stalinismo até que a separação e o divórcio voltaram a ser processos longos, formais e demorados, tudo com o intuito de "preservar as relações", mesmo que completamente deterioradas. A família, a juventude e as relações afetivo-sexuais, passo a passo, foram sendo tratadas pelo Estado Soviético de forma idêntica ao mundo capitalista. E isso se espalhou por todos os países sob a influência da URSS; em Cuba, por exemplo, como cita Leonardo Padura, os chamados "invertidos" (homossexuais), normalmente eram taxados de pessoas não confiáveis e imorais, não podendo ocupar postos importantes no serviço público, universidades e muito menos no partido. Uma versão freudiana tacanha e preconceituosa da psicanálise passou a ser a norma para o stalinismo, e nessa a homossexualidade é vista como um "desvio", senão como "patologia". Essa homofobia disfarçada de ciência ganhou tantos adeptos na esquerda que mesmo alguns que se reclamavam do trotskismo, como um famoso dirigente argentino, que chegou a escrever que "o vício da pederastia é condenável mas deve ser tolerado no partido" (sic!). Em alguns lugares, o stalinismo chegou mesmo a tratar homossexuais como criminosos, ou arranjar pretextos para afastá-los do convívio social.

Cartaz soviético do dia internacional da mulher trabalhadora, 8 de março.

O machismo também sobreviveu a tudo isso. Reich critica vigorosamente a volta do papel submisso da mulher no casamento na sociedade soviética stalinizada, com o refreamento do direito ao controle da natalidade e a volta de muitos costumes de uma Rússia com uma longa história de moral retrógrada da Igreja Ortodoxa. As mulheres, que tiveram grande participação no partido bolchevique, como Alexandra Kollontai, ou mesmo Rosa Luxemburgo na Internacional Comunista, desapareceram na vida política soviética na era Stálin. A camarilha burocrática e todos os escalões dirigentes do partido eram monopólio dos homens.

Por tudo que foi dito, trata-se de um livro histórico mas atualíssimo. As tarefas da revolução sexual foram cumpridas muito parcialmente e, cada vez mais, a ideologia burguesa se apodera fraudulentamente das conquistas. As piadas contra o feminismo, a taxação da liberdade amorosa como promiscuidade, o terrorismo com as doenças venéreas e, particularmente, o avanço do fundamentalismo religioso, são perigos que a leitura de Reich nos ajuda a compreender e combater.