quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Resenha: O Método Histórico de Karl Marx, Paul Lafargue


Título: O Método Histórico de Karl Marx
Autor: Paul Lafargue
Editora: Publicações Vorkuta da Liga Comunista (LC)
Ano: 2012
Páginas: 79
Formato: brochura


Sobre o autor: Lafargue era genro de Karl Marx, casado com sua segunda filha, Jenny. Ambos foram ativos militantes socialistas e adeptos do marxismo, dedicando muito tempo de sua atividade para a tradução da obra de Marx para o francês. Viveram até 1871 na França, de onde foram expulsos após a derrota da Comuna de Paris, na qual tinham-se empenhado. Vão para o exílio na Espanha. Lafargue era dirigente da Primeira Internacional. Sua principal obra intitula-se "O Direito à Preguiça" (1880), um libelo contra a super exploração dos trabalhadores, caricaturado pela burguesia como um livro de "vagabundos" (sic!).
Lafargue e Jenny tiveram um ocaso muito singular; percebendo a inexorável decadência imposta pela velhice e, antes de completarem 70 anos, cometeram suicídio. Usaram como argumento a ética estoica de que o homem tem o direito de dispôr de sua própria vida, evitando o fardo aos outros decorrentes da velhice e a incapacidade de continuar com sua atividade revolucionária.

Sinopse e crítica: este livro é minha única tradução publicada. Muitas das notas de rodapé são de minha autoria. Usei como base o texto espanhol disponível no site marxists.org .

Basicamente se trata de um pequeno texto que visa dar uma visão abrangente de como o marxismo analisa a História, ou seja, o materialismo histórico, sem entrar nos pormenores da dialética. O livro é divido em quatro curtos capítulos.

No primeiro, "Os Críticos Socialistas", Lafargue estabelece uma polêmica com aqueles que, se dizendo partidários do socialismo, exitavam em utilizar o método materialista para não chegarem a conclusões que "molestassem as ideias burguesas". Seriam os centristas e vacilantes, numa época em que o marxismo não detinha a maioria militante nem a hegemonia política na AIT (Iª Internacional). 

No segundo capítulo, "Filosofias Deístas e Idealistas da História", Lafargue pormenoriza as diferenças do materialismo histórico com as duas principais vertentes da filosofia e da historiografia burguesas. Basicamente, enquanto o deísmo e o idealismo praticavam o chamado "primado das ideias", partindo do pressuposto de que o ideal vem antes do real, o marxismo postula a determinação da realidade das condições materiais da vida sobre o homem, seu modo de vida, sua História e sua consciência. Lafargue critica tanto aqueles que acreditavam que Deus dirigia a História, quanto aqueles que elevavam a categorias "divinizadas" os conceitos de "Justiça", "Ordem", "Liberdade", etc., que nada mais era que uma forma disfarçada de manter a visão religiosa da análise da realidade. Ele demonstra com exemplos concretos o fracasso desse método e prossegue introduzindo os conceitos básicos do materialismo marxista.

No terceiro capítulo, Lafargue faz uma explanação sobre as "Leis Históricas de Vico". Este mesmo personagem é citado no famoso "Rumo à Estação Finlândia", de Edmund Wilson.
Apesar de pouco conhecido, o italiano Giovanni Vico (1668-1744)
foi um pensador renascentista genialmente revolucionário. Basicamente seus postulados, mesmo que de forma limitada, abriam caminho para o desenvolvimento de uma visão científica do caminhar da História humana, e ainda com contribuições no campo da epistemologia em geral. Vico havia lido Francis Bacon, que defendia os métodos científicos nas ciências naturais e que destas investigações poderiam ser tirados postulados tidos como "verdadeiros". Isso contrariava toda a filosofia idealista, ultra dominante, que, de uma forma mais declarada - como no solipsismo de Berkley - ou mais envergonhada, defendiam que a verdade - se é que existia - estava somente em Deus ou em grandes imperativos impenetráveis. Bacon foi o precursor da ciência moderna. A grande sacada de Vico foi concluir que era possível aplicar os postulados de Bacon à História humana, construindo sistemas de interpretação da mesma. Isso, para sua época, era revolucionário e subversivo. Vico postulou a existência de verdades históricas, e de um desenvolvimento mais ou menos ordenado da mesma, o que a faria uma ciência. No campo da filosofia, Vico defendeu contra os idealistas, afirmando que nem tudo é fruto da subjetividade; ainda era limitado pelas ideias teológicas de seu tempo, mas defendia que a realidade natural e histórica poderia ser pensada, mesmo que não compreendida completamente, pois isso cabia a Deus.
O pensamento de Vico só foi reconhecido com o advento do marxismo, por suas coincidências com ele.

Na quarta parte, "O Meio Natural e o Meio Artificial", é onde Lafargue entra propriamente no método marxista. É na relação dialética entre a transformação da natureza pelo homem, criando seus meios de subsistência, isto é, formando a economia e os modos de produção, que se encontram os "segredos" fundamentais da dinâmica do desenvolvimento das sociedades. É neste processo que se realizam os processos de acumulação de riquezas e o aparecimento das classes sociais, cuja luta entre si - por seus interesses antagônicos - é o "resumo da História humana", conforme a famosa frase do "Manifesto Comunista". 

Um livro bastante útil para entender os fundamentos intelectuais do método marxista, numa leitura não muito pesada e acessível.