segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Resenha (Clássicos Russos II): O Jogador, Fiodor Dostoiévski



Título: O Jogador
Autor: Fiodor Dostoiévski
Editora: L&PM - Porto Alegre
Ano: 1998
Páginas: 242
Encadernação: Brochura (tipo pocket book)

Onde encontrar: Livraria Cultura, por R$ 15,90


Sinopse: O Jogador narra a saga do vício do jogo. O protagonista é um russo, como o autor, do tempo do czarismo, completamente pródigo. Sua adicção são as mesas de roleta, onde entra no "perde ganha" dos cassinos alemães, na época a grande moda dos aristocratas e burgueses. Seu nome é Aléksei (personagem narrador), homem, como dito, dominado por seus impulsos e paixões, perdulário, amante das mulheres, da boa mesa e de um pouco de vinho também.

Aléksei vem a Rotemburgo com uma família russa, que espera ansiosamente a morte de uma anciã para herdar uma fortuna. Creditam-na moribunda. São parasitas sociais e vivem das "rendas" da aristocracia e da burocracia do sistema semi-feudal russo.

Outros personagens, mais ou menos secundários, que compõem a trama romanesca (apesar de ser um livro curto, trata-se de um romance) são o industrial inglês Mister Astley e os encrenqueiros franceses Des Grieux e Mlle. Blanche.

O grande amor de Aléksei é Paulina, frágil enteada da família de russos da qual é funcionário. Uma paixão devastadora com pendores platônicos.



Crítica: penso que o livro, consciente ou inconscientemente da parte do autor, é uma grande metáfora da Europa do século XIX. Mr. Astley, o industrial inglês, é a representação da próspera burguesia britânica, em plena ascensão durante a Revolução Industrial. É um homem econômico e de bom juízo, que usa de Rotemburgo apenas pela sua fama de águas termais, afastando-se dos cassinos e da vida de prodigalidade, vícios e farras.

Os russos são certamente a figuração da elite czarista: parasitária, que vive ao redor das benesses da burocracia do Estado e dos favores do monarca e da corte. Nada produzem e somente gastam aquilo que têm e o que não têm. Ricos mas em franca decadência, palavra chave para defini-los. 

Os alemães e os franceses são as nações atrasadas na corrida industrial da época; ao mesmo tempo que são ricos, exploram e vivem de atividades como o jogo, que nada produz. Vivem uma vida de gastos e luxos, como era o caso das resistentes nobrezas dos respectivos países, que rivalizava o poder com as ascendentes burguesias, as quais não encontravam espaço para seus investimentos e negócios ante o entrave monárquico. Eram duas nações permanentemente envolvidas em revoluções e conflitos, cujo auge foi o de 1848.

Obviamente, não estamos diante de um livro de História, mas de um romance, como dito. Apresentamos aqui somente uma interpretação de possíveis metáforas do autor, que estão ali presentes. A genialidade de Dostoiévski talvez não tenha tido tamanha pretensão consciente, como dito, mas elas estão ali. Com certeza.




O Autor: Fiodor Dostoiévski, de batismo Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, foi uma figura ímpar na literatura russa e mundial. Autor de obras colossais, que adquiriram universalidade, como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazóv, em O Jogador existem elementos claramente autobiográficos. O autor conheceu pessoalmente os locais aonde se passa o romance, bem como esteve envolvido com jogatina. Dostoiévski sempre quis ter dinheiro "rápido" para publicação de seus escritos, o que o levou a várias reviravoltas financeiras. 
Teve uma iniciação como escritor tardia, pois antes de escrever ou publicar qualquer coisa, teve que amargar um exílio na Sibéria - o que já era um costume dos czares antes do stalinismo. Daí nasceu a obra Memória da Casa dos Mortos, narrativas de seu período na prisão.

Outras obras de Dostoiévski aparecerão futuramente aqui no Armazém. Por enquanto é isso!