sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Livros de Trotsky que tenho e já li - Parte III - ESCRITOS SOBRE OS SINDICATOS


Título: Escritos Sobre os Sindicatos
Autor: Leon Trotsky (Lev Davidovich Bronstein)
Editora: 1ª versão - Editora Kairós (1978); 2ª versão - Editora Nova Palavra (2009)
Páginas: 1ª versão - 120 p. ; 2ª versão - 135 p. 
Formato: brochura.




Histórico das edições: O livro "Escritos Sobre os Sindicatos" de Leon Trotsky apareceu no Brasil pelas mãos da antiga Organização Socialista Internacionalista (OSI), que depois veio integrar-se ao PT como "Corrente O Trabalho", que é o nome do seu jornal, em circulação até os dias de hoje. Foi traduzido Vera Corrêa de Sampaio e Maria Emília Sedeh Boito, militantes operárias e sindicais. O livro foi bastante difundido entre a vanguarda das então "oposições sindicais" que lutavam contra a pelegada que "governava" os sindicatos "oficiais" da ditadura. Essas oposições vieram a varrer as direções impostas pelos gorilas da ditadura, vindo depois, a partir do núcleo do sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista, fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT). 

A editora "Kairós" existia numa semi-clandestinidade, imposta pelo regime autoritário. A "Nota dos Editores" expunha, sucintamente, a visão dos trotskistas brasileiros sobre a situação sindical do país, que estava em franca ascensão. Fazia um pequeno histórico do sindicalismo no Brasil, sobre o tempo da hegemonia do PCB e sobre as tarefas da classe operária de construir um sindicalismo combativo e independente de governos, partidos e igrejas, o que, depois, veio a redundar em princípios basilares da nascente CUT.



A edição de 2009 traz um posfácio de autoria do militante e dirigente da CUT nacional, Julio Turra, militante de OT, no qual ele faz não só um balanço da obra em si, mas particularmente do sindicalismo brasileiro naquela conjuntura (que ainda não teve modificações substanciais). Se na edição da "Kairós" vivia-se o tempo em que diferentes tendências, movimentos e oposições sindicais se formavam de forma independente do stalinismo, do governo, de partidos e das igrejas (ou com influência do nascente PT e das Comunidades Eclesiais de Base), a conjuntura da edição da "Nova Palavra" é a da fragmentação do movimento sindical brasileiro e diferentes e pulverizadas "centrais" e "centrais/movimentos"; a questão principal, a palavra de ordem do dia é a luta pela unidade - não unicidade - do movimento sindical nacional e da classe em si, pois é no sindicato - como disseram Lênin e Trotsky - se faz a escola da revolução. 

Turra caracteriza que "o período aberto com a fundação da CUT ainda não se fechou", visto que, apesar do surgimento "como pipocas" de "novas centrais e movimentos sindicais", não existe, DE FATO, um movimento geral da classe de reorganização por fora da Central Única. Fatos posteriores comprovam que esta análise está correta; como exemplos marcantes, cito os fortes movimentos que desfiliação da CUT em importantes sindicatos aqui do Rio Grande do Sul, como o que eu milito, o Sintrajufe/RS (dos servidores do Judiciário Ferderal), mas, particularmente dos sindicato dos professores estaduais (o CPERS Sindicato, que é o maior de todos as agremiações sindicais do RS), que acabaram desfiliando-se da CUT mas, por outra via, não escolheram NENHUMA OUTRA CENTRAL para a qual filiar-se, ficando em uma espécie de "limbo", sem uma ligação orgânica com o conjunto da classe.




Ainda, a Central Única dos Trabalhadores permanece sendo a maior Central Sindical do país, com maior número de filiados, de sindicatos e federações. Turra faz um histórico da fundação da Central, cita os opositores de sua criação (destaque aos stalinistas, que depois acabaram entrando e hoje estão fora, fundando a CTB), e a importância que a CUT teve em todas as lutas sindicais das décadas de 80 e 90. 

Um dos princípios fundamentais do marxismo no terreno sindical é a distinção clara entre Partido e Sindicato. Trotsky frisa isso em vários textos dessa obra. Turra critica, com propriedade, o papel do esquerdismo e do stalinismo na condução do processo de desagregação da CUT, o qual cria "centrais" (as aspas vêm do fato de que muitas dessas definem-se como "movimentos" - ligada a política dos "movimentos dos movimentos" que não poderá ser aprofundada aqui - aumentando o processo de confusão.

É um texto que traz uma enorme contribuição ao colosso que é este pequeno brochura.





Sinopse: O livro é uma coletânea de textos de Trotsky sobre o tema, dos mais relevantes que ele escreveu, resgatando os princípios de Marx, Engels e Lênin sobre a política dos marxistas - revolucionários nos e para os sindicatos.




Os escritos ressaltam a defesa da DEMOCRACIA SINDICAL, DA INDEPENDÊNCIA DOS SINDICATOS diante de partidos, governos e igrejas, da fronteira clara entre Partido e Sindicato - já que estes são os "organismos de frente única da classe trabalhadora", das instruções e da NECESSIDADE da intervenção dos revolucionários em sindicatos e centrais dominados pelas burocracias contra-revolucionárias quando esses são organismos de massa, e de todas as condições essenciais para que os sindicatos sejam organizações combativas e de luta da classe por suas reivindicações, instrumentos para a luta de classe.

O livro é dividido em duas partes: a primeira, "Comunismo e Sindicalismo", reúne textos como "Os erros de princípio do sindicalismo", que apontam os princípios basilares da intervenção dos marxistas no movimento sindical, já apontados. No texto citado, Trotsky dá grande ênfase ao princípio da UNIDADE SINDICAL, tão atual.




A segunda parte é intitulada "Problemas de Estratégia e Tática Sindical", cujo principal texto, sem sombra de dúvida, é um excerto do "Programa de Transição" denominado "Os Sindicatos na Época de Transição". Gostaríamos, sem ser prolixos, mas evitando o resumo ao máximo, citar uma parte desse:

"As tentativas sectárias de criar ou manter pequenos sindicatos 'revolucionários' como uma segunda edição do partido, significam, de fato, à renúncia pela direção da classe operária. É necessário colocar aqui como um princípio inquebrantável: o auto-isolamento capitulador fora dos sindicatos de massa, equivale à uma traição à revolução, incompatível com a militância na 4ª Internacional"

O texto é claro em si e, como já dito e repetido, atualíssimo. Entretanto, alguns que se escondem sob a bandeira de "seu" "trotskismo", querem contrapor essa passagem a outra, em que mais adiante Trotsky diz que "Se é criminoso voltar as costas para as organizações de massa para se contentar com facções sectárias, não é menos criminoso tolerar a subordinação do movimento revolucionário das massas à camarilhas burocráticas (...)".

Do meu singelo ponto de vista, tendo em conta sempre a conjuntura, a relação dialética entre duas proposições aparentemente antagônicas. Trotsky fala em "movimento revolucionário das massas"; depois da queda do Muro de Berlim (1989), todos aqueles que não se alinhavam com o stalinismo, os trotskistas em particular, esperavam um movimento de REORGANIZAÇÃO da classe em ruptura direta com as burocracias sindicais. Um paralelo histórico claro pode ser feito com a ruptura com a CGT e a pelegada no final dos anos 70, que redundou na CUT. A pergunta que não cala - afim de que essa segunda afirmativa de Trotsky seja interpretada como uma palavra de ordem de "ruptura com a CUT" - é se realmente existe um "movimento revolucionário das massas por fora das organizações de massa" (?). 

Só a leitura atenta do livro pode responder. E a nossa posição principista na luta de classes.