terça-feira, 29 de setembro de 2015

As biografias de Stálin (III): "Um Stálin, este desconhecido" de Zhores e Roy Medvedev



Título: Um Stálin desconhecido: novas revelações dos arquivos soviéticos
Autores: Zhores A. Medvedev e Roy A. Medvedev
Editora: Record
Páginas: 443
Ano: 2003
Formato: brochura


Sobre os autores: Zhores e Roy Medvedev são irmão gêmeos e dissidentes do regime soviéticos, exilados em Londres desde os anos 70. Zhores é bioquímico e historiador e Roy é somente historiador. Ambos são muito citados como referência de história do stalinismo.


Sinopse e crítica: o primeiro grande defeito do livro é acreditar que traz informações "revolucionariamente inovadoras", por conta do acesso dos autores a arquivos até então secretos na ex-URSS. A primeira é a ressuscitação da tese de que Stálin foi assassinado pelos membros do alto escalão da burocracia que ele mesmo dirigia:
Beria, Kruschov, Motov e outros. Ele teria sido vítima de um complô, algo que lhe atormentou por toda a existência. Sobre o tema da morte de Stálin gira o capítulo I do livro.




No capítulo seguinte os autores se debruçam sobre a temática da relação de J. Stálin com a produção de armas nucleares na URSS, dando início à corrida armamentista com os EUA. Nesta mesma época a URSS começa a protagonizar o papel de campeã da defesa da "paz mundial"; por hipocrisia ou não, era ela justamente a que estava atrasada no desenvolvimento bélico nuclear, o que a colocava em franca desvantagem frente aos EUA. Os autores escrevem vários artigos acerca das opiniões de Stálin sobre o tema. 

O terceiro tópico fala da relação tresloucada do stalinismo com a ciência. A burocracia soviética acreditou ser capaz de criar uma "ciência proletária", sendo que tudo aquilo que contradizia o "seu" marxismo deformado era considerado anti-científico. Era a completa inversão metodológica da obra de Marx; esse submetia seus postulados aos princípios da ciência, ao método científico, a fim de observar se eles eram válidos ou não.
O quarto capitulo, que tem somente dois subtópicos, trata da postura de Stálin durante a Segunda Guerra Mundial, na qual a URSS desempenhou o papel mais importante, vencendo a Alemanha Nazista. Trata-se de um tema muito controvertido, vez que os marxistas - em particular os trotskistas - denunciaram atitudes absolutamente irresponsáveis de Stálin, particularmente nos meses que antecederam a guerra, tais como um expurgo em massa de membros do alto oficialato soviético, desarmando o exército de seus melhores dirigentes às vésperas de um conflito sem precedentes. Os autores, por sua vez, não entram no tema central, que é justamente esta sucessão de desastres que quase levou à ascensão nazista, contando histórias um tanto quanto "pitorescas" sobre a postura do "líder" ante o conflito.

Por fim, o último capítulo é dedicado a "personalidade" de Stálin: sua relação com a mãe, seus "sentimentos" ante o assassinato de Bukharin (por ele mesmo ordenado) e as posições dele ante o nacionalismo russo.

De um modo geral, o livro não pode ser chamado de stalinista, mas tenta passar "panos quentes" ante a figura de Stálin. Coloca algumas de suas posições francamente contrarrevolucionárias como "equívocos", oriundos da originalidade das situações impostas.

Do ponto de vista trotskista, esta posição dos autores é absolutamente rejeitada. Pouco importa, do ponto de vista da dinâmica da História e da luta de classes, a "subjetividade" e o "foro íntimo" de seus atores e protagonistas; dura é a vida, mas é a vida. Se Stálin no íntimo do seu coração acreditou que tudo que fez foi para defender o socialismo, isso nada muda o fato que ele foi seu primeiro coveiro. Por equívoco ou por intenções claramente de capitulação ao capitalismo, o stalinismo permanece sendo o ator do enterro das experiências de Estado Operário no leste europeu, independentemente do que "morava no coração" de Stálin.