quarta-feira, 30 de setembro de 2015

As biografias de Stálin (IV) - Isacc Deutscher


 Título: Stálin, uma biografia política
Autor: Isaac Deutscher
Editora: Ediciones Era (México) - editado no Brasil pela Civilização Brasileira
Páginas: 580
Formato: brochura, papel jornal

Sobre o autor: Deutscher era um excepcional historiador. Militante marxista, rompeu com o PC polonês em 1926, por desacordos com o alinhamento desse com o stalinismo. Assim, foi simpático à dissidência trotskista mas discordou dela em uma questão absolutamente fundamental: a fundação da Quarta Internacional. Essa divergência marcou profundamente sua obra, inclusive a biografia de Stálin, pois o pensamento de Trotsky tinha como pedra de toque a caracterização do stalinismo como uma casta parasitária de natureza irreversivelmente contrarrevolucionária. Deutscher faleceu em 1967.


Sinopse e crítica: a biografia de Stálin escrita por Deutscher é um livro magnífico, científico, a qual traça a vida do biografado desde sua infância até sua morte no principio da década de 50. Repleta de detalhes sobre a vida de Stálin, também traça um retrato psicológico rico do ditador.

Outrossim, por conta das posições políticas do autor - pode-se ser a favor delas, mas não é meu caso - Deutscher comete alguns escorregões. O primeiro deles, e o mais grave, também presente na sua trilogia sobre Trotsky, é supervalorizar aspectos de "personalidade" que dividiam os dois oponentes. Resta evidente a enorme discrepância entre as duas figuras; Trotsky era um intelectual poliglota brilhante, um teórico genial e um líder nato. Stálin era uma figura bruta e medíocre, mas que conseguiu especializar-se no jogo mesquinho das disputas intestinas do partido, usando todo tipo de artimanhas sujas pelo poder. Mas certamente, apesar disso, o que separava os dois eram divergências de caráter político, como dito acima. As questões subjetivas eram apenas secundárias, ainda que, 
talvez, um pouco relevantes.

Deutscher, como militante, foi contaminado pelo vício do impressionismo, o que é compreensível diante da magnitude do que significava a União Soviética e particularmente depois de sua vitória na Segunda Guerra Mundial. O stalinismo adquiriu mundialmente um prestígio gigantesco e simbolizava todos os ideais do socialismo e do leninismo, muito embora os traísse a cada passo. Deutscher nunca deixou de acreditar numa possível "auto reforma" da burocracia soviética, reconduzindo a URSS para o curso da transição ao socialismo e voltando a ser o núcleo da revolução mundial. Isso fica patente em sua obra posterior A Rússia depois de Stálin, um grande libelo de esperanças na mudança de rumos da camarilha stalinista. Neste livro, Deutscher afirma textualmente que, pelo curso da História, a restauração capitalista ou a queda do regime tornará-se impossível; infelizmente o ano de 1989 desmentiu duramente esta falsa previsão.

Apesar de seu brilhantismo, Deutscher enganou-se profundamente sobre o caráter da burocracia stalinista, vindo a romper com Trotsky pois, como dito, foi contra a fundação da Quarta Internacional, organização fundada pelo primeiro partindo da premissa que o stalinismo e os partidos comunistas haviam se tornado um instrumento da contrarrevolução. Deutscher rejeitava essa tese e insistia no combate dentro dos PCs, confiante numa mutação futura do stalinismo que nunca veio. 

Ao contrário do historiador trotskista Pierre Broué, Deutscher atribuiu grandes glórias à direção soviética pelo triunfo na guerra. Broué, corretamente, afirmou que a "URSS ganhou a batalha não com Stálin, mas apesar dele".

Mas, como dito, o livro prima pela objetividade dos fatos. O impressionismo de Deutscher não chega a comprometer o conjunto da obra. O autor prima pela crítica do stalinismo, particularmente quando narra os famosos "Processos de Moscou", nos quais Stálin dizimou toda a velha guarda bolchevique - Zionoviev, Kamenev, Bukharin e outros - bem como militantes que tinham sido fiéis a ele desde sempre, mas que por sua paranoia representavam de alguma forma um obstáculo à manutenção de seu poder absolutista. Critica a posição stalinista no episódio da ascensão do nazismo, quando a Internacional Comunista stalinizada orientou o Partido Comunista Alemão a hostilizar violentamente a social-democracia, negando-se a construir a Frente Única operária, pois somente esta tática seria capaz de evitar que Hitler chegasse ao poder, o que acabou acontecendo.

Objetivamente os fatos são narrados com precisão e o livro dá um panorama bastante confiável do que foi o fenômeno do stalinismo na época em que seu maior representante ainda vivia. Com a distância histórica que vivemos hoje, parece incrível que Deutscher não tenha percebido a correção das posições de Trotsky; entretanto, há que se dar um desconto ao autor pelo fato de que, imerso no contexto de que a URSS representava o único Estado Operário no mundo e a esperança de todos os comunistas, as políticas genialmente visionárias de Trotsky muitas vezes pareciam  demasiadamente inviáveis. Realmente a Quarta Internacional, como mesmo diz em seu programa fundacional, não nasce de uma situação em que ela tem todas as chances de sucesso; ao contrário, estas eram mínimas. Mas foram nestas que os trotskistas se agarraram, pois o projeto de uma nova Internacional não nascia baseado na sua viabilidade, mas basicamente numa necessidade imperativa do movimento revolucionário de contar com uma ferramenta sem máculas para sua luta pela tomada do poder. Ela representava uma parcela ínfima de militantes, mas mesmo assim, diante do apodrecimento completo do stalinismo, Trotsky não viu outra alternativa senão apostar todas suas fichas na sua criação, pois a luta intestina na Internacional Comunista estava absolutamente fadada ao fracasso. Essa previsão foi completamente confirmada pelos acontecimentos, pois a própria IC foi dissolvida depois da Segunda Guerra, como parte dos acordos de Stálin com o imperialismo, acentuando a política nefasta da "coexistência pacífica" entre o então recém nascido "bloco socialista" e o mundo capitalista. Restava a esperança vã numa auto reforma da burocracia, que por certo não aconteceu; justamente o contrário, a camarilha stalinista, mesmo com as vociferações de Kruschov contra os "crimes de Stálin", permaneceu cumprindo seu papel de algoz da revolução. A necessidade de derrubá-la pela revolução política permaneceu inabalável, mesmo que tenha sido uma posição que não encontrou eco até entre a direção da Quarta Internacional, que foi abatida por um impressionismo idêntico ao de Deutscher, quando o dirigente "trotskista" Michel Pablo anunciou a "mudança de caráter" da burocracia, e que esta "faria a revolução à sua maneira", orientando as seções da Quarta a dissolverem-se nos partidos comunistas, naquilo que foi conhecido como "entrismo sui generis". Na prática, esta política representou a quase completa destruição do trotskismo, não fosse a resistência da seção francesa.

Complementando, essa resistência dos franceses também parecia um projeto utópico, mais ainda quando, a partir deste núcleo de militantes, decidiu-se, após a queda do muro de Berlim, reproclamar, em 1993, a Quarta Internacional. As mesmas críticas de "falta de representatividade" no movimento operário foram repetidas, ignorando-se o fato de que, diante da nova situação aberta com a queda do stalinismo, mais do que nunca um núcleo organizador da revolução se fazia uma necessidade imperativa, e este núcleo só poderia ser a Quarta Internacional, pela confirmação e atualidade de seu programa fundacional.