segunda-feira, 28 de setembro de 2015

As biografias de Stálin (II) - Domenico Losurdo, Stálin, história crítica de uma lenda negra


Título: Stálin, história crítica de uma lenda negra
Autor: Domenico Losurdo
Editora: Editora Revan
Páginas: 378
Ano: 2010
Formato: Brochura


Sobre o autor: o italiano Domenico Losurdo é talvez um dos únicos intelectuais vivos confessamente stalinista. Historiador, leciona na Universidade de Urbino, na Itália. Teve sua formação na Alemanha.

Sinopse e crítica: o próprio subtítulo da obra já é uma ironia; o livro de forma alguma é uma "história crítica", mas um grande manifesto em defesa de Stálin e do stalinismo. Nas orelhas da obra editada no Brasil, lemos que "grandes estadistas", como Churchil e De Gasperi, "respeitavam profundamente" Stálin. Figuras de ponta do imperialismo. Diga com quem andas que eu te direi quem és.

O livro é um verdadeiro imbróglio metodológico, pois ele não se propõe a ser, de fato, uma biografia mas, como dito, uma espécie de "manifesto" em defesa do stalinismo. Seu inimigo principal é Kruschov e o chamado "relatório secreto", divulgado no XXº Congresso do Partido Comunista da URSS (PCUS), no qual o então líder soviético denunciou - certamente de forma parcial para não cometer suicídio político - os "crimes de Stálin", centrando fogo no que chamou de "culto à personalidade". Secundariamente, como não podia deixar de ser, as farpas são atiradas contra Trotsky e o trotskismo.

Losurdo tenta justificar o injustificável do ponto de vista marxista: a política da "coexistência pacífica" entre os campos socialista e capitalista, decorrente da política do socialismo num só país (dogma inquestionável do stalinismo), as atuações criminosas de Stálin na Alemanha de 1933, na China da década de 20 e todas as medidas internas destinadas a acabar com a velha guarda bolchevique.

Seus argumentos são pífios e não fazem mais do que repetir a cantilena stalinista da época; inova muito pouco, apoiando-se sempre no fato de que foi a URSS, sob o comando de Stálin, quem venceu o super aparato de guerra nazista. Este é seu maior trunfo, que repete à exaustão nas páginas do livro. Mas como disse o historiador trotskista Pierre Broué, a URSS não ganhou a guerra "por causa de Stálin", mas "apesar dele"...

Um dos trechos mais chocantes, para um revolucionário que venha a ler o livro, é a repetição de trechos da entrevista que Stálin deu ao New York Times, no qual ele afirma, com toda cara de pau que Deus lhe havia outorgado - mas coerente com a linha do "socialismo num só país" - é sobre a má vontade da URSS em apoiar as revoluções em outros cantos do mundo. "Nós fizemos a nossa revolução; eles que façam a deles", afirma o chefe dos burocratas. 

Li este livro indicado por um companheiro que respeito muito de um dos PCs do Brasil. Mas somente esta frase me convenceu por completo que no debate com Trótsky, era o Velho quem detinha a razão. O resultado da política stalinista demorou mais veio, em 1989.

Losurdo gasta quase um rio de tinta em detalhes enfadonhos sobre o "relatório Kruschov", que chama de "revisionista", bem no jargão stalinista. Este relatório denunciou, em sua maioria, os crimes intestinos cometidos pelo ditador contra facções rivais interna corporis do próprio stalinismo. Nunca se preocupou com a reabilitação de Trotsky ou a retomada da política bolchevique. Manteve intactos os pilares da política stalinista, em particular os pactos com o imperialismo - como a criminosa divisão da Alemanha - e a linha do "socialismo num só país/coexistência pacífica". 

É um livro que certamente vale a pena ser lido para dirimir quaisquer dúvidas que possam passar pela cabeça de um revolucionário sobre o papel pró-imperialista da política de Stálin e seus asseclas burocráticos. 

Da mesma forma, o livro apela para aspectos emocionais das diferenças entre Trotky e Stálin, o que em absoluto corresponde  com a história  real.