segunda-feira, 28 de setembro de 2015

As biografias de Stálin (I) - Jean - Jaques Marie


Título: Stálin
Autor: Jean-Jaques Marie
Editora: Babel
Ano: 2011
Páginas: 849
Formato: Capa mole

Sobre o autor: Jean - Jaques Marie é um intelectual orgânico no movimento operário e uma das maiores autoridades internacionais no que tange à história da Revolução Russa e seus protagonistas. É autor de uma biografia de Lênin e de "Trotsky, Revolucionário sem Fronteiras". Como historiador e marxista, J-J Marie detêm-se nos aspectos políticos e econômicos que determinaram as escolhas e as trajetórias destes homens que mudaram a História do mundo; ao contrário de outros biógrafos, influenciados pelas diversas matizes da historiografia burguesa, Marie não se perde em subjetivismos pseudo-psicológicos que teriam "determinado" os caminhos de Stálin e Trotsky, como sua suposta "inimizada anímica".

J-J Marie é formado em História, exercendo a profissão de historiador; colabora com várias instituições dedicadas à preservação da memória do movimento operário e da trajetória revolucionária deste. É trotskista e milita no Partido Operário Independente (POI) da França, junto com Daniel Glockstein, seu secretário geral. Foi amigo e colaborador de Pierre Lambert enquanto este viveu e militou.

Sinopse e crítica: este livro é uma das melhores biografias já escritas sobre esta figura tão controversa chamada Joseph Stálin. É
um colosso de pesquisa histórica sobre todos os acontecimentos do partido bolchevique durante a vida do ditador, antes e depois de sua usurpação do poder. Claro que, pela própria opção política do seu autor, a obra tende a ser uma duríssima crítica ao biografado, apontado claramente como chefe e representante da casta burocrática que expulsou os bolcheviques do poder e instaurou a ditadura stalinista.
No entanto, Stálin não é apontado como um "monstro" de "super poderes" como é tão comum; trata-se de um indivíduo que, por conta destas idiossincrasias da História, foi alçado a uma posição de protagonismo por conta de fatores que não haviam sido previstos nem por Trotsky nem por Lênin. Ambos acabaram ficando impotentes ante a reação burocrática; o primeiro por ter sido derrotado politicamente e o segundo por sua morte prematura. Sobre este fato, sabemos que existe a possibilidade de que Lênin, se tivesse sobrevivido à sua enfermidade, pudesse liderar uma ofensiva contra a camarilha stalinista. Mas isso é somente especulação; o que concretamente sabemos é que o líder e fundador do partido bolchevique percebeu a deformação burocrática do Estado soviético e, em seu testamento político, solicitou o afastamento de Stálin das posições mais importantes de direção.

Marie conta todos esses fatos nos mínimos detalhes de uma forma que, como dito, prima pela objetividade científica da análise dos fatos. Não se trata de uma biografia "moral" ou uma coletânea de história sobre o "czar vermelho", mas uma biografia POLÍTICA deste homem que, pelas vias do destino, acabou chefiando a casta parasitária que veio a substituir o proletariado na condução da recém nascida União Soviética. Marie não fica analisando as subjetividades de Stálin, se ele era, "em foro íntimo", um comunista; o que realmente importa - dura a vida, mas assim o é - é que os atos emanados do Kremlin, sede do governo da URSS e que contava com Stálin como principal dirigente, passaram de uma posição revolucionária para contrarrevolucionária com a ascensão da burocracia ao poder. Isso ficou particularmente evidente com a defesa intransigente por parte de Stálin e sua camarilha da chamada política do "socialismo num só país". Essa máxima seria absolutamente impensável nos tempos de Lênin; toda a política do partido bolchevique estava orientada para a implantação da ditadura do proletariado na Rússia na plena confiança que o operariado mundial, particularmente o da Europa Ocidental, conduziria revoluções vitoriosas que iriam amparar a primeira pátria dos soviets. Não é uma ideia trotskista, mas algo que era aceito como verdade por todo o conjunto do partido.

Assim, as questões entre Trotsky - que ficou sendo o sucessor da política bolchevique, pois negou-se até o fim a capitular a Stálin - e o biografado, nunca foram de natureza de "divergências de caráter" ou de "raiz psicológica". O que colocou o trotskismo e o stalinismo em campos diametralmente opostos foi uma profunda e irreversível divergência de caráter político sobre a natureza da URSS e sobre a necessidade da revolução mundial, entre outras tantas questões. A política assassina do Kremlin para com a nascente revolução chinesa e, particularmente, o desastre da capitulação do PC alemão que oportunizou a ascensão do nazismo, são exemplos gritantes desta realidade.

A obra caminha sempre nesta linha segura e nos conduz a um entendimento científico e sólido sobre a natureza do stalinismo. E a compreensão acerca do que foi e do que é o stalinismo é uma das tarefas mais importantes de qualquer um que queira entender a realidade de ontem e de hoje, apesar da historiografia burguesa negar este fato evidente. O stalinismo marcou definitivamente a História do século XX e seu ocaso no final daquele período tem influências gigantes na dinâmica da geopolítica internacional nos dias de hoje.

Trata-se de uma obra realmente indispensável.