domingo, 30 de agosto de 2015

Um tema: as "Alianças Gay-Hétero" (livros de John Green e David Levithan)

Lendo Cidades de Papel (Paper Towns), Will & Will, Garoto Encontra Garoto (Boy meets Boy) ou ainda Dois Garotos se Beijando (Two Boys Kissing), todos de John Green e/ou David Levithan, li várias referências a clubes de alunos que eles denominam "alianças gay-hétero", ou "clubes gay-hétero". Tratam-se de pequenos comitês escolares que reúnem tanto alunos LGBT quanto heterossexuais para discutir problemas de assédio e bullying no ensino médio das escolas estadunidenses, quanto para promover eventos, como festas, peças de teatro, etc.


No início, acreditei estar tratando com mera ficção, algo que havia brotado do sonho de um mundo feliz das mentes criativas de John e David. Mas eram tantas as referências a tais "clubes e associações" que resolvi investigar para saber se realmente existia, de fato, algo ao menos parecido.

No site do Ministério das Relações Exteriores dos EUA (basta clicar na imagem) encontrei uma matéria que muito me impressionou, positivamente. As chamadas "GSA - Gay-Straight Assossiations" existem em todo território nacional norte-americano, e existem com o fundamento de evitar o bullying aos alunos LGBT, com o apoio dos estudantes de orientação sexual "normal" (sic!), bem como apoiados pelos próprios professores.

Na Wikipedia em português sequer há um verbete sobre o tema, tamanho nosso atraso tacanha em relação ao tema. Não sei como é hoje, mas nos final dos anos 80 e 90, quando estava no ensino fundamental e faculdade, vi muitas e muitas cenas de assédio de parte dos próprios professores à alunos LGBT. Mesmo no ensino superior, me lembro muito bem que em nosso livro "texto", disciplina de Medicina Legal, no capítulo que tratava das "perversões sexuais", a primeira delas, em letras garrafais, era o "homossexualismo". E quando me dirigi ao professor para afirmar que há longa data a Organização Mundial da Saúde já tinha tirado o "homossexualismo" do rol de "doenças" (e agora o termo correto era HOMOSSEXUALIDADE), respostas que obtive foi mais que assustadora:


_ Não, meu filho, de fato não é doença. É SEM-VERGONHICE MESMO!

Esse era o nível das relações no que tange à homofobia no ambiente escolar naquela época. Muitas outras histórias verídicas poderiam ser contadas aqui (como outra de que um professor afirmou ser justo direito do marido agredir a mulher se ela não "correspondesse as suas 'obrigações matrimoniais'" sic!).



Na Wikipédia em inglês, no verbete sobre as GSAs encontramos um rol imenso de países que adotam e estimulam estes clubes, como Austrália, Nova Zelândia, Canadá entre outros. Mas mostram que mesmo recentemente, como foi o caso de uma escola no Mississippi (um dos estados mais reacionários dos EUA), houve a tentativa de formar uma GSA que encontrou vigorosa oposição da escola e da comunidade, que não queriam um "clube gay" (sic!) na cidade.

Em nosso país, precisamos estimular a existência de tais clubes e associações, protegendo os jovens LGBT, que pelo bullying, assédio - e até agressões e mortes, pois a homofobia é genocida em nosso país - tenham mais um espaço de acolhimento de proteção. Mas somente com a CRIMINALIZAÇÃO CONSTITUCIONAL DA HOMOFOBIA, bem como com a criação de um ESTADO LAICO DE DIREITO E DE FATO - proibindo "bancadas evangélicas" e afins - garantindo estudo de todos os níveis 100% público, gratuito e de qualidade para todos, é que daremos passos realmente sólidos nesta direção.