terça-feira, 25 de agosto de 2015

Tudo o que li de Hermann Hesse: resenhas

Hermann Hesse, cujo nome de batismo era Hermann Karl Hesse, nasceu na Alemanha em 1877, tendo naturalizado-se suíço em 1923; veio a falecer nesse país (próximo à localidade de Lugano) em 1962. É, sem dúvida alguma, um dos maiores escritores em língua alemã, não só do século XX, mas de todos os tempos, ao lado de Goethe, Mann, Lessing e tantos outros. Sua obra, tanto como pensador, mas particularmente como romancista, é um colosso da literatura mundial. Sua obra abrange contos, romances, poesia, aforismos. Sempre teve uma posição de um pacifismo inveterado, tendo sido opositor declarado do nazismo, ao qual combateu por
meio de artigos publicados na época. Também o nacionalismo exacerbado presente na política alemã foi um dos motivos que o levou a transferir-se para a Suíça. 

Originário de uma família de missionários cristãos, sua mãe nasceu na Índia. Seus romances e seu pensamento foram influenciados primeiramente pela espiritualidade cristã, mas logo conheceu o pensamento oriental, particularmente o da terra natal de sua mãe, que o fascinou, tal como a Schopenhauer. Viajou para a Índia ainda muito jovem, em 1911. A partir desta experiência escreveu vários livros como Sidarta e Viagem ao Oriente

Cabe salientar ainda a influência de Carl Jung, psicanalista, na obra de Hesse. Jung era suíço e Hesse acompanhou sua obra, que faz um diálogo com a espiritualidade e o misticismo, incluso o oriental. Hesse conheceu Jung em decorrência de uma crise emocional com a explosão da Primeira Grande Guerra.

Hesse foi vencedor do prêmio Nobel de literatura em 1946, particularmente por conta de sua obra máxima, O Jogo das Contas de Vidro. Possuo uma edição pocket, da editora BestBolso, mas, por pecado meu, ainda não a li, mesmo que tenha lido tantos outros livros dele, e Demian três vezes.



Demian: uma das mais célebres obras de Hesse, uma biografia do personagem fictício Emil Sinclair. Sinclair é um adolescente em profunda crise existencial, e trava amizade com uma personalidade totalmente envolvente, seu também jovem amigo Max Demian. Esse é dado a discursos filosóficos, e adepto de uma teologia muito parecida com o zoroastrismo, na qual o universo seria regido por um deus bom e outro mal, ambos com iguais poderes, que
disputariam sempre o governo do cosmos. Demian apresenta a Sinclair uma entidade mítica de nome "Abraxas", uma espécie de deus dúbio, uma cruza de Jeová com Lúcifer, capaz de exercer tanto o bem quanto o mal. O livro possui longos diálogos existenciais entre Sinclair e Demian, em que os dois travam uma proximidade tão grande que beira o amor erótico. É um romance basicamente sobre a crise do homem ao descobrir-se adulto, sobre o desmoronar do mundo infantil "perfeito", sobre o fim da ligação "oceânica" entre o ego e o mundo. 
Não é, de fato, um romance que possa virar uma história em quadrinhos; tem um grau elevado de complexidade, mas me atrevi a lê-lo em plena adolescência; mas, como disse, tive que repetir a leitura duas vezes, e fiz uma terceira já na fase adulta.

Rosshalde: foi o primeiro e um dos melhores livros que li de Hesse. Trata-se, no entanto, de um livro bastante triste, até depressivo. É uma narrativa mais sólida do que Demian, com menos caráter de romance "iniciático" ou "de tese", mas contendo importantes digressões filosóficas e existenciais, mas a partir de fatos concretos narrados na história. 

Rosshalde é o nome de uma propriedade em uma região afastada dos centros urbanos (foto), na qual havia um estúdio, onde o personagem principal, um artista plástico, o Sr. Veraguth, monta o local para o trabalho com tinta e pincel mas também sua residência. Isso se dá porque sua família está em franca desagregação. Apesar de casado, tem a comunicação rompida com a esposa e com o filho mais velho. Somente a "ponte" que une o casal é o filho mais moço, Pierre, que leva recados do estúdio à casa da família. No entanto, uma tragédia brutal se abate sobre todos, e a crise se instala de forma inexorável.
Tal como Gertrud, Rosshalde é chamado romance de "retrato de artista", sendo o primeiro de um músico, o segundo de um pintor, guardando semelhanças com a novela Tonio Kröger, de Thomas Mann, que é o retrato psicológico de um escritor.

Sidarta: este li duas vezes, uma em plena adolescência - quando descobri Hesse e me apaixonei por seus livros - e a segunda vez muito recentemente, aos 38 anos (possuo a característica singular de ter gostado de romances "de velho" quando jovem e livros teen agora à beira dos quarenta, he he he...).
Trata-se de uma história de um "Buda" fictício, que percorre caminhos totalmente diferentes daqueles que Sidarta Gautama - o Buda histórico, fundador da religião budista - percorreu, mas, de uma forma ou outra, em busca da sabedoria e da iluminação. Procura os caminhos espirituais mais rigorosos, depois os abandona pelos prazeres do mundo, voltando a uma vida de piedade singular. Chega a ter um encontro com o verdadeiro Gautama, mas não adere a seu séquito de monges, ao contrário de seu até então fiel escudeiro Govinda, personagem belíssimo.
Como dito, um livro profundamente influenciado pelo orientalismo de Hesse, fruto de suas viagens e leituras sobre o misticismo do extremo oriente.

Debaixo de Rodas: este é certamente o livro menos complexo dos que li de Hesse. Compõe-se de uma novela adolescente, da vida escolar juvenil, um tema que também aparace em Alasca de John Green, ou em O Ateneu de Raul de Pompéia.
O personagem principal,  Hans Gierenbath, é o próprio exemplo do adolescente "rebelde", que questiona as instituições, a escola e os professores. Mas pela voz de Hans, Hesse dá vazão as suas críticas ao sistema educacional alemão, eivado de extremo autoritarismo.
O livro discute, como em Demian, a crise do "pós-infância". O livro trata também do tema da descoberta da sexualidade, a revelação da mulher e a confusão de sentimentos que isso gera em Hans. Como em Rosshalde, a tragédia também é temática desta novela imperdível.

Viagem ao Oriente: havia comprado uma edição usada de 1971 da Editora Civilização Brasileira - grande instituição cultural, responsável pela difusão de obras indispensáveis nos anos 70, bem como pela tradução de toda a obra de Hermann Hesse para o português - acreditei que este livro seria da narrativa da viagem do autor à Índia em 1911. Doce ilusão... 
Trata-se de uma história fictícia, na qual uma "irmandade" - parecida com a maçonaria - realiza uma "peregrinação espiritual" não necessariamente "ao Oriente", mas em busca da sabedoria. O protagonista e narrador é H. H., as mesmas iniciais de Hermann Hesse. É tudo muito lúdico, simbólico e cheio de imagens bonitas, particularmente na primeira parte do texto. Na segunda, há algum mistério e suspense, por conflitos entre H.H. e a "irmandade", que encontram uma resolução inesperada.

O Lobo da Estepe: o mais "viajandão" de todos os livros de Hesse, e ao mesmo tempo o mais popular ao lado de O jogo das Contas de Vidro. Guarda muita semelhança com O Dia do Curinga, de Jostein Gaarder, autor de O Mundo de Sofia. O personagem principal encontra uma caverna misteriosa que o leva à uma série de diálogos interiores onde tudo é sofrimento e tensão. Ele descobre dentro de si um "lado lobo", talvez psicopata - que todos carregamos dentro de nós - capaz de todos os males, que rivaliza com um outro lado, que ou é bom ou é o verdadeiro "eu", não se sabe a resposta. Um romance profundamente questionador e ambivalente, que usa da fantasia para procurar respostas a temas profundos dos conflitos humanos.