quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Sobre os personagens dos livros e filmes de John Green

Os personagens de John Green são sempre nerds?

John Green em seus livros costuma colocar como protagonistas jovens que sofrem algum tipo de rejeição ou bullying: ou são doentes, como em A Culpa é das Estrelas, ou "nerds", como Miles e o "Coronel" em Alasca e, de certa forma, Q, Radar e Ben em Cidades de Papel. São jovens com problemas afetivos, que se relacionam mal com as garotas - "virgens" - são muito magros - como Miles de Alasca e Quentin de Paper Tows - que se acham feios e pouco atraentes para o sexo oposto.
Mas, via de regra, são muito inteligentes e não apresentam nenhum comportamento antissocial, muito embora sempre seus amigos são da turma dos "rejeitados", "nerds" ou "geeks", como é o caso particular de Radar.
Pior ainda é o caso de Hazel Lancaster, interpretada brilhantemente por Shailene Woodley, em a Culpa é das Estrelas, personagem que sofre de um dos piores estigmas sociais: o câncer.
Entretanto, creio que uma das bases do sucesso de Green esteja no fato de que ele escreve sobre personagens reais, gente de carne e osso, que sofre, que vive uma vida de misérias e contradições, bem como desmascara o mito dos "populares". Na edição especial de 10 anos de Quem é Você Alasca?, Green faz uma declaração muito bonita, afirmando que nem todos os dilemas da vida podem ser resolvidos e que parte de nossa vida é conviver com a ausência de respostas.
Os personagens de John Green não são super-heróis do ensino médio, os garotos mais bonitos e populares da escola, que "pegam" todas as meninas; e, na verdade, mesmo estes, também têm lá dentro de si a infelicidade inerente a cada um de nós. A imperfeição dos personagens de Green as vezes mostra que eles conseguem fazer do limão uma limada, da verdadeira amizade, do amor à família e não em ser bonito e sarado, não ser o melhor jogador do time de futebol do colégio, ou mais popular, invejado por todos, não compensa ter um cérebro de uma noz.
Margo Spigelman, o amor platônico de Q, é exatamente isso: uma das garotas mais "gatas" (como diz Ben) da escola, uma espécie de heroína super popular, que namora um dos rapazes mais lindos da turma. No entanto, Margo possui um "vazio" interior colossal, que tenta preencher com "aventuras" e uma personalidade estranhamente esquisita. Não se sente amada por ninguém - a começar por seus pais - e tem certeza da falsidade de todos seus amigos e amigas, uma delas que faz sempre questão de insinuar que ela é gorda.
O pior de tudo é que logo no começo da trama ela descobre que seu "gatíssimo" namorado - que tudo indica que ela não o ama - transa escondido com sua melhor "amiga".
Sempre desconfiei destas pessoas destacadas nas escolas. Sempre me pareceram que fazem somente um tipo para impressionar e esconder profundas infelicidades.
A vingança de Margo tem algo de patético; ao invés de romper o namoro pura e simplesmente ela arquiteta uma super vingança, não só ao ex-namorado mas a todos os envolvidos. Algo completamente inútil. Isso quer dizer que ela ainda tem a ilusão de querer manter intacto o "mito" de Margo Spiegelman. E é justamente esse "mito" que fascina Q, mas não por muito tempo...