terça-feira, 25 de agosto de 2015

SAPIENS Uma breve história da humanidade

Uma obra que abre horizontes, assim defino "Sapiens: uma breve história da humanidade", do professor israelense Yuval Noah Harari.

Harari tem doutorado em História pela Universidade de Oxford e leciona no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ele virou uma celebridade por suas aulas de História em vídeos no YouTube. Essa é sua principal obra, que quando lançada imediatamente transformou-se em best-seller em Israel e depois no mundo inteiro.

Sapiens trata da História da humanidade de um ponto de vista "biológico", a partir da evolução do homo sapiens desde a pré pré história passando pelas revoluções agrícola e industrial.

Um aspecto interessante do livro, que me marcou quando o li, são as posições sobre ecologia e especismo do autor. Na página 84 da edição da LP&M Editores (Porto Alegre), o autor afirma:
"Não acredite nos abraçadores de árvores que afirmam que nossos ancestrais viviam em harmonia com a natureza. Muito antes da Revolução Industrial, o Homo sapiens já era recordista, entre todos os organismos, em levar espécies de plantas e animais mais importantes à extinção. Temos a honra duvidosa de ser a espécie mais mortífera nos anais da biologia."

O Homo sapiens extinguiu, em priscas eras, por exemplo, o mamute, espécie aparentada com o elefante. Não foi a "ação da natureza" que deu fim a estes animais colossais, mas nós mesmos. A ideia de um passado idílico em que homens viviam felizes e em conformidade com a natureza em geral, com os animais e plantas, é uma fantasia completa. Onde o Homo sapiens colocou o seu pé, desde seu nascimento na África até sua chegada em pontos remotos como Austrália e Nova Zelândia, foi deixando um rastro de extinções animais e vegetais.

Em relação ao chamado especismo, Harari faz uma defesa veemente da questão animal, denunciando a crueldade dos Sapiens, caracterizando os animais domesticados como as primeiras vítimas da chamada Revolução Agrícola. O autor descreve os métodos cruéis como é conduzida - desde longo tempo - a indústria de laticínios. Narra o fato de que vacas, cabras e ovelhas destinadas à produção de leite, só o produzem após terem uma cria, que comumente - até hoje - é logo abatida ao nascer. Ainda, há a separação do bezerro da mãe, ou ainda mantê-lo perto mas impedir, por vários estratagemas, que suguem o leite; cita por exemplo o método de colocar uma coroa de espinhos ao redor da boca do filhote para que este machucasse a mãe, que resistia à amamentação, "doando" seu leite aos humanos.
Harari, em outra parte muito interessante, tenta responder à pergunta sobre a origem do patriarcalismo, sobre o porquê dos homens serem dominantes em relação às mulheres desde muitos e muitos anos. Ele levanta várias hipóteses, como por exemplo a questão da força física superior do gênero masculino. Entretanto, coloca que "simplesmente não existe relação direta entre força física e poder social entre seres humanos. Pessoas de 60 anos costumam exercer autoridade sobre pessoas de 20 e poucos anos, ainda que os mais novos sejam muito mais fortes". Ou seja, este que é o principal mito sobre a "superioridade masculina" cai por terra. Ainda, Harari refere-se ao fato que na maioria das sociedades são as classes baixas que fazem o trabalho braçal, criando uma relação inversa entre proeza física e poder social. Sendo assim, a força muscular superior de homens em relação à mulheres não responde, de forma alguma, ao machismo dominante. Harari ainda coloca hipóteses como uma "natureza violenta" dos homens, ou um "gene patriarcal", nenhuma das duas atingindo um grau de plausibilidade capaz de responder à pergunta.

Por fim - o que não esgota a resenha, pois o livro é muito mais amplo e interessante que isso - gostaria de citar a brilhante defesa científica da questão da homossexualidade feita por Harari. Afirma ele textualmente que "Faz pouco sentido, então, afirmar que a função natural da mulher é dar à luz, ou que a homossexualidade não é natural." O autor cita várias sociedades, humanas e animais, em que a homossexualidade não só era tolerada, como fazia parte das relações sociais "Na realidade, a Mãe Natureza não se importa se homens se sentem atraídos uns pelos outros. Apenas mães humanas, inseridas em determinadas culturas fazem escândalo ao saber que seu filho tem um caso com o vizinho. (...) Na verdade, o conceito de 'natural' e 'não natural' não são tirados da biologia, mas da teologia cristã"

Uma obra memorável, que vem preencher várias lacunas e, mais do que tudo, fazer perguntas importantes (ainda que não dê a resposta), que veio para tradução em português em ótima hora.