domingo, 23 de agosto de 2015

Resenha: literatura "gay" de auto ajuda

Existe no mercado literário brasileiro - ainda que meio escondido nas prateleiras das livrarias ou em casas "especializadas" - um tipo de literatura que podemos chamar de "gay de auto-ajuda".
Não tem nada a ver com pornografia ou "kama sutras homossexuais" (que existem de fato!) mas em livros do tipo "como aceitar-se", "como contar para seus pais", "arranje um namorado/marido", etc.
Todos eles têm, pretensamente, a finalidade de aumentar sua auto-estima e auto-aceitação, integrar-se na sociedade e "ser feliz", simples assim.

Não li muitos, confesso, apenas alguns, pelo menos os dois na foto ao lado. Não quero avacalhar, pois acho a iniciativa super válida, mas, no mínimo, ficaram "aquém" dos objetivos a que se propõem. Ficam muito na linha dos "conselhos", tipo "seja simpático" e "não beba demais" (???!!!!). Outros ficam narrando "cases" de consultório, tipo "Tony, 25, universitário, Oklahoma", e aí vem a história das mazelas do Tony que podem te ajudar, mas normalmente são casos mais extremos ou singelos demais.

Ficar procurando a aceitação dos outros e querer ser respeitado do tipo não ter que ouvir piadinhas, fará qualquer GLBT enlouquecer. É preciso construir uma muralha psicológica; mas falar é fácil, pois as palavras ferem.

Eu admiro muito aquele "gay família", com uma relação estável e fiel. Mas acredito que a maioria dos LGBT sofre com a rejeição, não consegue relações estáveis e tem algum tipo de depressão. Por isso, uma literatura DE AJUDA de qualidade vem bem.

Acredito ser muito interessante e importante livros dirigidos a adolescentes gays que querem contar para pais e amigos (e não sabem como, por óbvio, nesse mar de preconceito que vivemos) e para pais de jovens gays, para saber como lidar com eles e como aceitá-los. Neste sentido é interessante o livro "Agora que Você Já Sabe" da editora Record, de autoria de Betty Fairchild e Nancy Hayward. Trata-se de um livro para os pais, mas também tem muitas dicas de como o jovem deve responder a algumas perguntas.

A homossexualidade, os direitos dos gays e tudo mais evoluiu muito no Brasil se compararmos com o tempo que eu era adolescente, no início dos anos 90. Naquela época quase não se falava nisso a não ser em tom de deboche, que é a pior forma de discriminação. Hoje os setores conservadores, em particular os religiosos, estão de arma em punho e vociferando raiva contra o movimento dos direitos LGBT. Isso é um progresso; creio que é preferível que me odeie a que me humilhe com deboche...


Mas quanto ao tema do post, a literatura, creio que temos que evoluir. Se você conhece algo bom que eu tenha ignorado me avise! Questões como manuais dos direitos civis dos LGBT, com comentários e exposições históricas de como chegamos lá, é uma sugestão.

Estou lendo David Levithan e, em que pese estou adorando, ele vive em outra realidade. No Boy meets Boy, que logo estará resenhado por completo, parece que o preconceito só existe na casa de um dos personagens, um adolescente gay filho - tragicamente - de pais pentecostais, que "oram" aos berros pela sua "cura e libertação - bem ao estilo Malafaia e Feliciano, reprimindo-o de todas as formas.

Não conheço os Estados Unidos mas sei que existe uma pluralidade de posturas quanto ao tema na América. O meio-oeste ainda está prisioneiro da visão fundamentalista, enquanto que as costas já estão bem mais livres. Mas será que os jovens podem andar de mãos dadas e darem beijos - ainda que discretos - na rua? Quem conhece pode responder!