domingo, 23 de agosto de 2015

Resenha: Felicidade, A Prática do Bem Estar - Mattieu Ricard

Este livro não é certamente um livro de "auto-ajuda", mas um livro de AJUDA. É um livro de cabeceira que tenho todo sublinhado com canetas marca texto de várias cores, justamente porque ele deve ser lido várias e várias vezes e a cada momento que um problema, de maior ou menor gravidade nos aflige.

"Felicidade, a Prática do Bem Estar", de Mattieu Ricard (Editora Palas Athena) é exatamente isso, por mais absurdo e inatingível que pareça: um guia para ser feliz. Seu autor é francês, com formação densa em biologia no ramo da genética celular, e há mais de três décadas mudou-se para o Himalaia com o intuito de aprender os ensinamentos do budismo.

O livro de forma alguma faz qualquer tipo de proselitismo religioso, e sequer pode ser chamado de um livro "budista", apesar dos pesares. O autor, como ocidental que é, procurou escrever um livro do pensamento oriental mas em linguagem ocidental, para ocidentais. E acredito que atingiu grande sucesso.

A primeira pergunta que Ricard faz no livro é a seguinte: felicidade é realmente o propósito da vida? E ele se espanta que no Ocidente muitas vezes as pessoas, quando perguntadas sobre o propósito da vida, não respondem que querem "ser felizes", mas mil e uma coisas, como TER bens, estabilidade financeira e afetiva, etc. que podem ser ELEMENTOS da felicidade, mas não são A FELICIDADE EM SI MESMA.

Isso tudo porque - e aí é que o autor dedica a maior parte do livro - no mundo existe algo chamado SOFRIMENTO, do qual não temos como escapar; não há fuga possível do sofrimento. Todos os seres sofrem, de uma forma ou outra, seja pela doença, seja pela passagem do tempo que nos torna mais velhos, seja por desejos não realizados, etc. a realidade do sofrimento é universal e inescapável. Podemos sofrer menos ou mais, mas sempre sofremos...


O budismo, visto de um ponto de vista bem ocidental, está mais para uma tecnologia do espírito do que propriamente para uma religião, por que ele sequer acredita num Deus criador, sabia? O que Ricard traz para nós é são as verdades sobre a natureza do sofrimento e a grande descoberta de que ele PODE SER SUPERADO!

Os capítulos que achei mais interessantes foram sobre emoções universais que nos causam intenso sofrimento: ódio, desejo e inveja. O primeiro é mais evidente, e o último é o mais negado de todos. Quase todo mundo diz que "não tem inveja", quando sabemos que ela é algo tão universal quanto ir ao banheiro... em alguns carros existe um adesivo - maldoso - que diz "a inveja é uma m..." Mas vamos e venhamos, como todo mundo tem cocô, todo mundo tem inveja...

Ricard é um homem altamente treinado em meditação e foi considerado o "homem mais feliz do mundo". Segundo a revista Galileu  , um estudo feito por um neurocientista na Universidade de Wisconsin, segundo o qual:

 foram conectados 256 sensores no cérebro do monge. Os resultados mostraram uma atividade mais elevada do segmento esquerdo do córtex pré-frontal do cérebro, se comparado ao direito.
Quando Matthieu Ricard meditou em compaixão, o cérebro dele produziu níveis de ondas gama ligadas à consciência, atenção, aprendizado e memória que nunca haviam sido relatados na literatura da neurociência. A exploração do cérebro de Ricard revelou que, graças à meditação, ele tem uma capacidade incrivelmente anormal de sentir felicidade e uma propensão reduzida para a negatividade.  
Sendo fruto do trabalho de uma pessoa tão especial, certamente é uma obra que vale a pena.