domingo, 30 de agosto de 2015

Resenha: Dois Garotos se Beijando (Two boys kissing) David Levithan






Título: Dois Garotos Se Beijando

Título Original: Two Boys Kissing


Autor: David Levithan


Editora: Galera Record


Páginas: 224


Ano: 2015





Sinopse: Dois jovens, Craig e Harry, intentam um feito de proporções colossais: passar mais de 30 horas se beijando, de pé, sob o sol e em público, a fim de quebrar o "recorde" de "beijo mais longo de todos os tempos", conforme o Guiness. Esta tarefa é realizada no campo de futebol da escola de ensino médio local, chamando a atenção de toda a comunidade, com transmissão ao vivo online, para um número cada vez mais maior de espectadores. Eles acabam ressaltando não só a questão do recorde em si, mas por toda a problemática de ser um beijo GAY.

Enredo: trata-se de fato de um romance, não de uma novela, como Boy meets boy. A eixo principal se dá, por evidente, ao redor do esforço tremendo de Craig e Harry mas, paralelamente a isso, transcorrem-se outras tramas secundárias que se unem ao núcleo principal. O "beijaço" não é uma forma dos jovens simplesmente chamarem a atenção, mas surge quando um dos personagens, Tariq Johnson, outro garoto homossexual, é agredido por um grupo de homofóbicos; contra isso é que se insurgem Craig e Harry, surgindo a ideia do beijo. É Tariq quem promove toda a logística de transmissão pela internet do evento, que, como dito, é o maior sucesso. Temos também Cooper, que é o protótipo do jovem gay com problemas, mal resolvido, que se isola em seu computador construindo perfis "fake" e entrando em contato com todo tipo de homens para flertes que nunca acontecerão (ou não...). Por fim, há o relacionamento entre Avery - o jovem de cabelo rosa - e Ryan - o jovem de cabelo azul, que se conhecem num baile gay numa pequena cidade do interior dos EUA. Avery é transexual e tem dificuldades em expor isso a seu novo "namorado".


Crítica: o "mote" mais interessante do livro é que ele é narrado "pelos mortos", sejam espíritos ou sei lá o que, dos gays das gerações passadas. As frases dos narradores são por vezes de consolo às angustias dos personagens mas, na maioria das vezes, são textos muito fortes, que nos levam à uma reflexão muito profunda sobre a realidade da homossexualidade, seus estigmas e todos aqueles que morreram da epidemia de AIDS no passado. As gerações atuais não fazem nem ideia do que foi o pânico que sofremos durante anos, na era pré-coquetel, quando um diagnóstico de HIV positivo era uma sentença de morte certa, e uma morte estigmatizada, triste e dolorosa.



O livro é muito, muito melhor que "Garoto encontra Garoto", pois não mostra um mundo gay dos sonhos, mas a realidade chão a chão da homofobia. Há uma cena em que, enquanto Craig e Harry estão se beijando - já exaustos, quase desmaiando - grupos fundamentalistas religiosos vão de cartazes em punho protestar contra o evento. Um deles diz "Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo"; lembro-me de uma mensagem em power point que circulava na internet no Brasil com a mesma frase, como se fosse algo "inocente", e não uma agressão violenta aos direitos LGBT. 
Trata-se de um livro fantástico, que não deve ser lido só por gays, mas por todos os interessados em direitos humanos.

Existem muitas citações que poderia tirar do texto, bem fortes, mas gostaria de expôr algumas:


Raramente somos unânimes em relação à alguma coisa. Alguns de nós amaram. Alguns não conseguiram. Alguns foram amados. Alguns não foram. Alguns nunca entenderam para que tanta confusão. Alguns queriam tanto que morreram tentando. Alguns juram que morreram de coração partido, não de AIDS.


A morte é difícil, encarar a morte é doloroso. Mas ainda mais 

dolorosa é a sensação de que ninguém se importa. De não ter um 

amigo no mundo. Alguns de nós morremos cercados de entes 

queridos. Alguns de nós tínhamos entes queridos que não 

conseguiram chegar a tempo, que estavam longe demais ou que 

apenas tinham ido dormir um pouco. Mas também há alguns de 

nós que podem dizer como é não ter ninguém que você ama, não 

ter ninguém que ama você. É difícil ficar vivo só pra você. É muito 

difícil encarar um dia após o outro sem outro rosto familiar 

olhando para você. Isso transforma seu coração num músculo sem 

propósito.


O Autor: David Levithan nasceu em 1972 no estado
estadunidense de Nova Jérsei. Seu primeiro livro foi Garoto Encontra Garoto (Boy meets boy), que também aborda a temática gay. Mas sua consagração veio com a parceria com John Green em Will & Will. Ele trabalha como escritor e como editor da marca "PUSH", de uma famosa editora dos EUA.


Polêmica da capa: a edição norte-americana traz uma capa mais "explícita", que causou "polêmica" naquele país entre os setores conservadores. Na Grã-Bretanha, foi usada a capa publicada no Brasil, estilizada, afim de "a foto de dois rapazes se beijando não prejudicasse a abrangência do livro e a divulgação de suas ideias", segundo a editora Record.
Capa original dos EUA.