domingo, 23 de agosto de 2015

Quem foi Jane Austen?

Quem foi esta mulher intrigante, que viveu no interior da Inglaterra, junto de sua família, sem casar-se, mas que seus romances alcançaram um sucesso sem par e até hoje apaixonam jovens e adultos?

No volume que tenho das principais obras de Austen em inglês, publicado pela Canterbury Classics, de San Diego, quando fala do "legado" de Jane Austen - na introdução - afirma que um dos grandes méritos da escritora é contribuir para o chamado "self-understanding", ou seja, o conhecimento de si mesmo.
Austen era certamente uma pessoa capaz de observar o comportamento humano de forma muito superior à maioria dos mortais. E ela coloca no centro de suas obras aquilo que, queiramos ou não, é de alguma forma o centro de nossas vidas: encontrar nossa "alma gêmea".
Todo mundo ao redor das personagens de Austen veem o casamento como um grande jogo de interesses: imóveis que serão perdidos ou repassados, fortunas que desaparecerão ou aumentarão de volume, etc. A felicidade do casal é o que menos importa (se é que importa alguma coisa).
Entretanto, as heroínas, sejam elas Elinor Dashwood, Catherine
Morland ou todas as outras, vão em busca do "verdadeiro amor", contra tudo e contra todos e, passando por todo tipo de percalços, acabam tendo algum desenlace.
Austen nunca se casou, mas certamente conheceu a paixão e o amor em seu coração. Tudo isso que escrevo parece brega ou piegas, mas tem coisa mais brega do que apaixonar-se? Os desvarios e loucuras que fazemos quando estamos envoltos naquela aura de euforia que nos envolve a paixão - correspondida ou não - que nos faz somente enxergar  a pessoa amada, idealizar ela ao ponto do sétimo céu, ser ela nosso primeiro pensamento quando acordamos e o último quando dormimos??
Austen mostra uma clara revolta contra uma sociedade machista, em que os bens são sempre transferidos por linha paterna e masculina, cabendo as mulheres resignar-se com sua má sorte caso não conseguissem um bom casamento. Aparecem sempre megeras que nunca conheceram o amor verdadeiro, e que só tem em mente a segurança para o futuro, e por isso vendem a alma ao diabo por um "bom partido", que muitas vezes é um impostor que estava na mesma empreitada, levando ambos a um casamento de completo fracasso.
Austen mostra que os homens medíocres, aqueles que sempre precisam "provar que são machos", não mudam com o tempo. Na época de seus romances, os homens da elite britânica gastavam somas consideráveis de dinheiro em obter carruagens individuais mais "potentes e luxuosas" o possível. Ficavam exibindo uns aos outros suas charretes e seus "atributos fantásticos". Hoje isso nos soa hilário, mas não é exatamente o que muitos acéfalos fazem lustrando exaustivamente e exibindo seus automóveis para vizinhos e amigos? O carro - e antes a charrete - são símbolos de "virilidade", de poder machista; até hoje, com todas as conquistas das mulheres, o que se vê como regra quase absoluta é que o "macho" dirige enquanto a garota vai no banco do carona, mesmo em casais jovens!! Austen instintivamente observou este fato e o retratou de forma irônica em suas obras, mostrando o quão patético é um homem querer ser mais homem pelo carro que tem...
Por fim, o que se pode dizer das personagens femininas de Austen é que elas nunca sucumbem ao vício da autopiedade. Conforme Andrew Taggart, Ph.D., autor da edição citada em inglês, se refere, a resposta às questões levantadas por Austen são respondidas na capacidade dos seres humanos de se adaptarem aos seus incidentes, enfrentarem estas situações dando forma a suas vidas - sem se destroçarem - e ainda assim manterem-se fiéis aos grandes ideais que norteiam suas existências.

Austen no cinema

Como já mencionei em outro post neste mesmo blog, a adaptação dos romances de Jane Austen para o cinema é sofrível, mesmo que não originem filmes ruins. O elenco é de primeira e os cenários - mostrando exatamente como era a época em que os romances foram escritos - normalmente são perfeitos (falo dos últimos e grandes sucessos de adaptação de romances de Austen).
Os "galãs" normalmente arrancam suspiros das garotas, sendo homens charmosos e carismáticos. As protagonistas interpretam bem o caráter determinado e as vezes intempestivo das heroínas de Austen.
Mas o que falta - e isso é impossível transpor para as telas - é a fina ironia da autora, que está presente nas entre linhas de cada narrativa, que só a experiência da leitura pode captar.
O filme que mais gostei de todos que vi foi a adaptação de A Abadia de Northanger. Assisti pelo YouTube, que parece que foi uma adaptação para a televisão.

Há muito mais para escrever sobre Austen e não vamos parar por aqui!