quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Por que ler José Saramago? - Parte I

O escritor português José Saramago é - mesmo que isso seja um lugar comum - um dos maiores gênios da literatura em língua portuguesa. Seus romances, ensaios e outros escritos são de uma beleza cativante, senão emocionante, sempre com um tom crítico à sociedade moderna, digo de um homem que foi fiel ao Partido Comunista Português até o fim da vida. Gostaria de tecer alguns comentários sobre os livros que li dele, neste post.

As Intermitências da Morte (2005): a frase inicial do livro já é bastante esclarecedora: "no dia seguinte ninguém morreu". O fato é que, num país fictício mas que lembra tremendamente Portugal, de um dia para o outro ninguém morre. E apesar deste fato ser, inicialmente comemorado, ele se transforma numa grande tragédia. Um dos trechos que, apesar de cômicos, são engraçados, é a reflexão do autor sobre a inundação sem fim de velhos no país, a catástrofe completa do sistema de saúde que teria que atender todo tipo de enfermidades, pois que, ainda que as pessoas não morressem, envelheciam. Uma frase do livro que deve ser citada, apesar de não ter muito a ver com a resenha da história, é de grande sabedoria: "Infelizmente, quando se avança às cegas pelos pantanosos terrenos da realpolitik, quando o pragmatismo toma conta da batuta e dirige o concerto sem atender ao que está escrito na pauta, o mais certo é que a lógica imperativa do aviltamento venha a demonstrar, afinal, que havia uns quantos degraus para descer" (trocando em miúdos: nada é tão ruim que não possa ser piorado!).

Caim (2009): último livro de Saramago antes de seu falecimento no ano seguinte, aos 88 anos. Saramago era um ateu "renhido" e gostava muito de provocar a igreja católica. Este livro é basicamente isso, mas feito com a genialidade própria do autor. Caim, o assassino de Abel no livro do Gênesis, tem um diálogo insólito com o Senhor dos mundos e consegue ficar vivo. Assim, durante os capítulos da obra, perambula pelo tempo e espaço sendo testemunha ocular dos grandes acontecimentos do Velho Testamento. Ao final, tem um tremendo bate-boca com o Criador, que você vai ter que ler para saber o que é...





Esta foto foi tirada na Casa José Saramago em Lisboa, no ano passado, quando estive com minha mãe em Portugal. É um centro cultural belíssimo.