sábado, 29 de agosto de 2015

Livros de Trotsky que tenho e os que já li - Parte II


AONDE VAI A FRANÇA: escrito na época do governo Léom Blum na Fraça, a primeira grande experiência das chamadas "frentes populares" na Europa. O livro em si é uma compilação de missivas de L. Trotsky justamente acerca do tema das Frentes Populares e a postura dos revolucionários e do movimento pré-Quarta Internacional deveriam ter em relação à questão.

Durante a ascensão do nazismo, os comunistas tiveram uma política de capitulação à ultra esquerda, negando-se a formar a frente única com os sociais-democratas, que chamavam de "sociais fascistas"; clandestinamente, Stalin realizava um pacto de "paz" com Hitler, de partilha do leste da Europa entre alemães e soviéticos. Certamente Stalin sempre soube que Hitler nunca seria seu "aliado"; foi lendo Leonardo Padura que entendi que Stalin, depois de Trotsky - apesar de seu gigantismo histórico - ter sido politicamente derrotado, particularmente dentro da URSS, Stalin precisava de um "inimigo à altura", e Hitler se oferecia numa bandeja para isso. Se essa versão é verdadeira - o que chega a ser difícil de acreditar - as responsabilidades do stalinismo no que tange à II Guerra Mundial - a maior tragédia do século XX - ficam ainda mais graves, aliás gravíssimos.

O contexto do livro ainda se dá na esteira derrota dos revolucionários na Guerra Civil espanhola. Tudo isso se dá na esteira de uma grande guinada política da política do Kremlin em direção à construção de Frentes Populares, que seriam uniões mais ou menos sem princípios entre os grandes partidos da classe trabalhadora e partidos da burguesia, método oposto ao método leninista-trotskista da FRENTE ÚNICA, que é a aliança massiva, da base às direções, entre os partidos DA CLASSE OPERÁRIA.
Na guerra civil espanhola Stalin chantageou os lutadores anti-fascistas - anarquistas, membros do POUM e comunistas - a fim de organizá-los em exércitos regulares para enfrentar franco. Ainda, Stalin não queria de modo algum uma "Espanha Vermelha", que colocaria em cheque toda a possibilidade de aliança da Rússia com a Inglaterra e a França (que não deram nenhum centavo para luta antifascista, enquanto Alemanha e Itália armaram Franco até os dentes).

A crise revolucionária de Espanha espalhou-se para França, um país de capitalismo central, o terceiro da Europa e o quarto do mundo, impingindo - muito por ação do stalismo - à ascensão de um governo de frente popular, sob a chefia de Leon Blum, dirigente do Partido Socialista Francês. O governo Blum é composto pelo PSF e pelo chamado "Partido Radical", um partido burguês de menor influência. Os comunistas do PCF e da CGT, liderados por Thorez, negam-se a participar do governo, mesmo que prestando-lhe apoio quase incondicional.

Didaticamente, Trotsky explica que um governo "híbrido" desses só levaria a classe operária ao fracasso, da mesma forma como havia acontecido em Espanha.
Em “Aonde vai a França” (1936), Trotsky explica que: “A ‘Frente Popular’ é uma coalizão do proletariado com a burguesia imperialista, representada pelo Partido Radical e outras podridões da mesma espécie e menor envergadura, coalizão que se estende ao terreno parlamentar. Em ambos os terrenos, o Partido Radical conserva toda a sua liberdade de ação e limita brutalmente a liberdade de ação do proletariado… A tendência geral das massas trabalhadoras, incluídas as massas pequeno burguesas, é completamente evidente: ir para a esquerda. A orientação dos chefes dos partidos operários, não é menos evidente: ir para a direita. Enquanto as massas, pelo seu voto e sua luta, querem derrubar o Partido Radical, os chefes da frente única, pelo contrário, querem salvá-lo”.
O freio da colaboração de classes tem como consequência a desmoralização das massas e prepara o terreno para a tomada do poder pela direita. Nos anos 30, pelo fascismo, em outros momentos históricos, como no Chile dos anos 70, por golpes militares como o de Pinochet que, nunca é demais lembrar, foi colocado por Allende no comando das forças armadas.

A REVOLUÇÃO TRAÍDA: é a obra de L. Trotsky que a dissolução da chamada "Oposição de Esquerda", que ainda pretendia uma reforma da III Internacional, caracterizando o stalinismo como definitivamente perdido para a revolução social.
O fato histórico que fez com que Trotsky tomasse tão dura
decisão - que nunca foi aceita por seus parceiros no "núcleo duro de Outubro", como Zinoviev, Kamenev e Bukharin - foi a traição do Partido Comunista Alemão, chefiado por Ernst Thalmann (foto), - que, seguindo as diretivas emanadas da Internacional Comunista dominada totalmente por Stalin e seus agentes, decidiu por uma linha absurdamente ultra esquerdista, que ignorava completamente o perigo da ascensão do nazismo e que, com essa, haveria o esmagamento do movimento operário como um todo e posterior invasão da URSS.
O Partido Comunista Alemão era basicamente o partido dos desempregados e excluídos sociais da República de Weimar, enquanto que o Social Democrata tinha maior ascendência sobre os trabalhadores sindicalizados. O PC resolve centrar todas suas forças a atacar os "sociais - fascistas", o que deixou o campo aberto para Hitler assumir em 1933, dizimando a todos.
Trotsky ainda não tinha noção dos famosos "expurgos" stalinistas, pois o livro foi concluído em agosto de 1936, colocando depois um adendo à introdução.

Sinopse: O livro é um grande diagnóstico da política stalinista, um livro sobre o stalinismo e sua incapacidade visceral de conduzir as massas a transição ao socialismo. Apesar de elogiar os avanços monumentais advindos do regime da propriedade social dos grandes meios de produção - principalmente a total eletrificação do país sob o comando de Lênin - Trotsky caracteriza a existência, na URSS, de uma "burocracia", isto é, um estamento social oriundo da classe operária mas diverso desta, e, particularmente, com o interesse de "convivência pacífica" com os países capitalistas, a fim de manter seus privilégios no Estado Operário; daí a chamada política do "socialismo num só país", estandarte do stalinismo.
Do ponto de vista econômico, Trotsky denuncia de forma vigorosa a desastrosa política de coletivização forçada dos campos, organizada por Bukharin e Stalin. Foram milhões de mortos e o resultado foi fome e miséria, num processo que causaria estranhamento a Lênin.
Trata-se de um grande "dossiê" sobre a política stalinista, a burocratização do partido e a total falta de democracia operária na URSS.

Conclusão: a resenha é pobre, admito, mas dá um panorama da obra. Só sua leitura substitui qualquer introdução. O mais importante a salientar é que nesse "Tratado sobre o Stalinismo", Trotsky chega a duas
conclusões muito duras para ele, mas que representam a enorme coragem histórica deste homem: a) o stalinismo está perdido para a revolução; b) os revolucionários do mundo todo devem agrupar-se em um novo partido, a Quarta Internacional.
Foi uma tarefa colossal, mas que o "Velho", ao final da vida classificou como a mais importante de sua vida, maior que a própria Revolução de Outubro.

Continuamos...