sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Livros de Trotsky que tenho e os que já li - Parte I


Esta resenha destina-se a dar uma visão ampla das obras de algumas obras do revolucionário russo Leon Trotsky editadas no Brasil. Faço isso pelo extremo sucesso do post que fiz sobre as biografias de Trotsky, que alcançou muitas visualizações. Vou tentar dar uma pincelada uma a uma, dando um panorama do que pode e dever ser lido.

1) O PROGRAMA DE TRANSIÇÃO: Obra básica, fundamental, e pela qual todo aquele interessado no pensamento trotskista deve iniciar sua incursão no pensamento de Trotsky. Não é um livro teórico ou didático, mas foi o programa político da Quarta Internacional, votado e aprovado em seu congresso fundacional em 1938. É um livro curto que sintetiza o "marxismo para os nossos dias".
Sobre este livro as polêmicas mais que abundam. Foram escritas "teses de atualização" (como do dirigente trotskista argentino Nahuel Moreno, que é o teórico, falecido, do PSTU e de setores do
PSOL) e de Ernest Mandel (da chamada "corrente pablista" do trotskismo", já citada no outro post, vide).
A leitura do Programa de Transição, antes de tudo, deve vir acompanhada, na cabeça do leitor, da seguinte pergunta: apesar de certas desatualizações temporais, no essencial, como método de trabalho (como por exemplo a proposta da frente única operária, as premissas da revolução mundial, as tarefas do proletariado nos países de capitalismo atrasado e/ou periférico, etc.) permanecem válidas ou perderam sua atualidade? Da resposta que o leitor dará, implicará todo seu posicionamento na luta de classes.
Existem várias versões para download na internet, ou textos integrais em sites, bem como é de fácil aquisição entre militantes e sebos. Leia defina-se.

2) STÁLIN, militante anônimo (I) e rumo ao poder (II): são dois livros editados pela Chead Editorial. Existe a biografia completa que pode ser adquirida particularmente na Estante Virtual. São obras um pouco enfadonhas, em que Trotsky
traça cada mínimo detalhe da personalidade de Stálin, desde sua infância, durante as reuniões do Partido Bolchevique, seu papel secundário durante a insurreição e a Revolução de Outubro. É muito muito detalhista. Para os neófitos é uma grande pedida, pela riqueza em dados. Trotsky fez uma imensa pesquisa sobre a vida de seu algoz para conseguir as provas por A+B de que ele não era o que dizia ser e, ele Trotsky, também não era o que o stalismo dizia que ele fosse. Vale, certamente, o esforço.

3) QUESTÕES DO MODO DE VIDA: A edição que possuo é de 2009, da excelente editora Sunderman do PSTU, que publica ótimas obras em excelente qualidade de papel e encadernação. Este livro é uma coleção de artigos do "Velho" sobre as mais diferentes questões "triviais e cotidianas", tais como a questão da vida coletiva (as lavadouras de roupas que não funcionavam), a diversão das massas (teatro e cinema), o alcoolismo e como combatê-lo. No mesmo volume, de capa azul, está o brochura de poucas páginas que se tornou um dos maiores clássicos escritos por Trotsky: "A Moral deles e a Nossa". Trata-se de um libelo contra a filosofia e a política burguesas de querer implantar no seio do movimento de massas a premissa de "valores universais e inalteráveis", particularmente o "valor" democracia. Nesta linha, políticos social-democratas e liberais se juntavam ao coro de traçar um sinal de igual entre trotskismo e stalinismo, visto que ambos "matavam" (sic!). O autor, de forma extremamente sagaz, desmonta este argumento, a partir da premissa da inexistência de tal "moral universal", mas de uma moral contingenciada pela luta de classes, e que a moral dos revolucionários - e não dos stalinistas, por evidente - era uma MORAL DE CLASSE; o que estava em conformidade com os interesses da classe trabalhadora era qualificado como "moral", e o que estava contra, "imoral". Estou aqui sintetizando de uma forma simplista, que só a leitura do opúsculo poderá trazer a luz de forma clara os conceitos apresentados.

4) TERRORISMO E COMUNISMO (o anti Kautsky): Trata-se de uma obra não muito conhecida do "Velho" mas que guarda toda sua atualidade hoje. É uma obra que
polemiza com o pacifismo burguês de Karl Kausty, dirigente da IIª Internacional, que rompeu com a revolução em 1914 ao votar os créditos de guerra pró governo do Kaiser alemão. Trotsky novamente ataca os "universais categóricos" como "paz e democracia", ao mesmo tempo que delimita espaço com os movimentos terroristas, anarquistas ou similares. Cita longamente os exemplos de duplo poder dos soviets e da gloriosa Comuna de Paris, o primeiro Estado Operário da História. Faz algumas digressões econômicas também, para provar a possibilidade e necessidade da ditadura do proletariado na Rússia.


5) EM DEFESA DO MARXISMO: coletânea de seus
últimos textos, que permanece de leitura atualíssima nos dias de hoje. Trata-se de uma polêmica com militantes norte-americanos sobre a natureza social e econômica da União Soviética, e sua postulação vigorosa da necessidade de uma defesa INCONDICIONAL da URSS, mesmo sob Stálin, caso de um ataque fascista.
Após a queda do muro, não foram poucos a caracteriza-la como uma "grande vitória do proletariado mundial", o que no fundo implica numa caracterização da URSS não como um Estado Operário, degenerado sim, mas como o primeiro Estado Operário e que guardava as raízes de Outubro. O livro conta, como dito, com discussões atualíssimas, ainda em curso dentro de organizações que se reivindicam do trotskismo, e principalmente o que precisamos entender sobre o caráter de classe e sobre a economia da ex-URSS e dos outros países do chamado "bloco socialista", Cuba incluso.

Continuamos...