quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Incidente em Antares - Érico Veríssimo

Como você pode notar, não estou fazendo resenhas apenas de lançamentos ou livros da moda, mas dos livros que gosto e que marcaram minha vida.
Um deles, certamente, é Incidente em Antares, do famoso autor gaúcho Érico Veríssimo.
Confesso que não gosto de Érico. Acredito que ele mistificou a figura do gaúcho, criando um personagem que nunca existiu para encher os CTGs.
Sei que essa é uma polêmica enorme e corro até risco de vida em publicar isso no blog. Mas enfim, vamos ao que interessa.
Incidente em Antares, ao contrário da maioria da obra de Érico Veríssimo, é um livro extremamente realista, bem como situado no tempo e no espaço em que foi escrito. Veríssimo foi extremamente corajoso em publicar esta obra no auge da ditadura militar.
O livro segue a tradição latino americana do realismo mágico - de Gabriel Garcia Marquez, Jorge Luis Borges e outros - e constrói uma história fantástica e criativa.
Antares - nome fantasia - é uma típica cidade da campanha gaúcha, a região do sul do estado do Rio Grande do Sul. Fiz questão de colocar um mapa para que você localize bem.
Não quero generalizar, por favor, mas via de regra este é um dos lugares mais conservadores e reacionários, senão do Brasil, do mundo inteiro. As cidades são lindas, com prédios históricos, mas o conservadorismo impera de uma forma absurdamente severa.
Incidente em Antares retrata isso muito bem. Mostra as famílias dominantes/oligarcas que mandam e desmandam em Antares.
Mas um fato completamente surpreendente acontece e tumultua toda a ordem social "estável" de Antares. Insatisfeitos com suas condições de vida, os coveiros (isso mesmo, do cemitério!) resolvem fazer greve por tempo indeterminado.
Logo, os mortos não podem ser enterrados.
Neste exato momento, ilustres personalidades antarienses vem a falecer quase que simultaneamente. Como não podem ser enterradas, como "zumbis", exigem seu sepultamento, mas em vão.
Assim passam a vagar pela cidade e descobrem que, logo após seu falecimento, muitas sacanagens foram feitas contra elas por parentes e amigos.
Numa segunda parte do livro, mais politizada, todos os trabalhadores de Antares se unem aos coveiros e organizam uma greve geral. Os mortos se reúnem no coreto da praça central, fedendo como carniça (o que são mesmo!), atraindo urubus até. Uma horda de manifestantes se une ao tumulto generalizado, exigindo uma solução para o problema.
Implicitamente - ou nem tanto - Veríssimo faz uma crítica à ditadura militar: o autoritarismo das elites, as greves, tudo isso não foi bem visto pelo regime da época.
Foi muita coragem de Veríssimo publicar este livro justamente no período mais duro do regime militar. Merece nossos parabéns.