terça-feira, 25 de agosto de 2015

Alain de Botton: O Desejo de Status

Sou fã de carteirinha de Alain de Botton. Por isso vai mais uma resenha de um livro dele, muito especial, e que me ajudou muito no difícil trajeto do autoconhecimento.

Em O Desejo de Status, Botton analisa o desejo quase universal de sermos reconhecidos pela sociedade em que vivemos, seja pelo que somos, pelo que temos ou pelo que fazemos. Antes de tudo ele responde a pergunto sobre a origem desse desejo, que segundo ele é a necessidade humana de ser amado. Segundo o autor, na idade adulta, temos dois grandes desejos: o amor erótico/sexual e o desejo de status, que nada mais seria que o desejo do amor "social". É nos outros que nos vemos refletidos e, queiramos ou não, o que eles pensam de nós nos influencia; daí nossa vontade inerente de "agradar para ser amado", adquirindo um "status" "bom" no meio em que vivemos.

A sociedade capitalista, por evidente, dá extrema importância ao status pelo TER. Se fazemos algum ruim, mas isso nos faz TER o carro do ano, dinheiro para viagens, roupas caras, jóias e relógios, o status pelo SER e pelo FAZER ficam em segundo plano. Somos o que temos, e conquistamos pessoas, e até seu "afeto", pelo status adquirido pela fortuna acumulada.

O autor aponta cinco causas complementares sobre a natureza desse desejo humano: a falta de amor, o esnobismo, a expectativa, a meritocracia e a dependência. 

A falta de amor já foi mais ou menos comentada. Botton afirma que "parece que dependemos da afeição dos outros para nos suportar". Precisamos ser amados, tanto por um ser individual que relaciona-se conosco de forma íntima quanto pelo grupo social ao qual pertencemos, que nos oferece reconhecimento - e portanto o status - que é uma forma de amor.

O esnobismo vem do complexo de inferioridade de alguns indivíduos, que buscam no status uma forma de "curá-lo". Desprezam de forma voraz aqueles que estão em status inferior porque, no fundo, desprezam a si mesmos. A partir daí saem numa luta enlouquecida pelo reconhecimento social.

A expectativa nasce quando esperamos que o mundo nos trate de forma maternal, que ele nos dê o que queremos. Como o mundo é por demais imperfeito, nossos desejos são frustrados e criamos expectativas de um dia consegui-los. Uma das formas de obter isso é angariar status social.

A meritocracia, como conceito, é a ideia de que cada um, em sociedade, será recompensado - seja lá de que forma for - pelos méritos que possui. Essa recompensa faz o indivíduo "melhor", elevando seu status. Ocorre que, como saliente Botton, via de regra a meritocracia é completamente fantasiosa; nem sempre os mais capazes vencem, nem sempre são eles que governam ou obtém os melhores postos no mundo do trabalho. Mas dela nasce o mito de que os ricos "não são somente os que têm mais dinheiro; eles podem também ser realmente os melhores". O não reconhecimento de nossas habilidades e capacidades mais desenvolvidas gera uma revolta importante, que muitas vezes é canalizada pela busca de status por quaisquer meios.

Por último, um dos fatores que faz alguém adquirir status é algo mais ou menos aleatório que o autor chama de dependência. Estamos dependentes de vários fatores imponderáveis: as vezes a sorte, as vezes um empregador generoso ou que obtenha grandes lucros, e até da economia global. Então, muitas vezes, nosso status social não é só determinado por fatores internos, mas por questões externas sobre as quais temos pouco ou nenhum poder.

Como soluções ao problema da frustração gerada pela falta de status, o autor mostra como determinados grupos e seres humanos reagiram a tal situação. Também são cinco.

A primeira é a busca da sabedoria na Filosofia, pela qual podemos obter uma visão lúcida da realidade, e assim fazermos nossas escolhas. Podemos optar por nos isolarmos dos outros ou, mesmo com todas as vicissitudes, manter uma vida social "sadia". Ou ainda podemos optar pelo que Botton chama de misantropia inteligente, um afastamento moderado do desejo de status - refletido nos outros - sem tomarmos uma postura orgulhosa ou defensiva.

A outra forma é a Arte. Pela arte, seja ela qual for, sublimamos nossas frustrações e nos tornamos mais capazes de viver.

A terceira é a Política. Seria nas relações de poder que daríamos vazão não ao nosso desejo de TER, mas no do PODER, óbvia fonte de status sobre os outros.

A quarta forma seria a religião, que Botton coloca somente o
Cristianismo. Por meio da fé cristã abdicaríamos de todo desejo de poder ou dinheiro, pois nossas expectativas estariam no futuro pós morte e na salvação, que garantiriam a obtenção de todo amor social que desejamos, num paraíso perfeito. Ainda, a comunidade nos ajuda e nos suporta, dando a nós "amor social" de forma diferente da que buscamos no status, e que supre, pelo menos parcialmente, essa nossa necessidade.

Por fim, Botton descreve a Boemia como uma saída aos problemas gerados pela angústia do desejo de status. Nos refugiando numa vida devassa, estaríamos em rebelião total com os valores sociais, inclusive tudo que se relaciona com status social; por vias transversas, nos veríamos livres de qualquer busca de posição.

Espero ter alcançado o objetivo de dar uma visão panorâmica do texto, o que não substitui sua leitura integral. Garanto que vale a pena.