segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A Montanha Mágica - Thomas Mann

Der Zauberberg, ou A Montanha Mágica, é o principal romance de Thomas Mann (o mesmo autor do já resenhado Morte em Veneza). É um colosso da literatura do século XX, bem ao estilo do chamado "realismo alemão", talvez aquela das obras de Mann que mais influenciou para que ele ganhasse o prêmio Nobel de Literatura em 1929.

A Montanha Mágica foi escrito em 1924, quando a Europa vivia o entre guerras, traumatizada pelo primeiro grande conflito mundial da História. E assim, a trama do livro se passa justamente no período logo anterior ao da I Guerra, com todos os "preparativos" que o Velho Continente vivia para o embate.


O personagem principal, o "herói" como chama Mann, é um jovem chamado Hans Castorp, de Hamburgo, Alemanha, que vai visitar o primo Joachim Ziemssem, internado por tempo "indeterminado" no sanatório Berghof, para doenças pulmonares, em Davos, nos alpes suíços (justamente a localidade nevoenta onde é realizado o encontro da burguesia internacional, o Fórum Econômico Mundial). O sanatório é dirigido por duas criaturas esquisitíssimas: o Dr. Behrens (o qual recebe a alcunha por parte de alguns internos de "Radamando", o ser da mitologia grega que, desde o mundo dos mortos - Hades - decidia sobre a vida e a morte) e o psiquiatra Krokowski. Ambos não são somente singulares por suas personalidades, mas, inclusive, por suas características físicas, como a altura e mãos enormes de Behrens, o corpo gordo e esturricado, com barbas do século XIX do Dr. Krokowski. Vê-se bem que Berghof tem ares de hospício... Krokowski ainda mantém teorias heterodoxas, as quais, de forma esquizóide, "palestra" toda semana aos internos, afirmando que todas as doenças orgânicas têm uma raiz psicológica e/ou psiquiátrica, que o orgânico é sempre secundário ao físico.

Castorp vai apenas para uma visita breve, mas pelos "costumes" excêntricos de Behrens, que vê doenças até nos móveis do sanatório, "examina" Castorp e rapidamente conclui que ele deve passar "algum tempo" internado. Logo após sucedem-se exames que concluem cada vez por maior gravidade de sua condição, e que sua volta à planície (Hamburgo) é absolutamente não recomendada, visto que os ares dos alpes são "depurativos" dos males do pulmão. Mas, na mesma linha de loucura, pouco ou nenhum tratamento é oferecido aos internos, apenas longos períodos de descanso e fornidas refeições preparadas por uma anã cozinheira.

Veja-se, logo, um cenário tipo Fellini. Mas, apesar de tudo, toda essa maluquice encontra uma verossimilhança e constrói uma história belíssima, com longas digressões filosóficas. Castorp, que acaba passando sete anos no sanatório, pensa sempre sobre o tempo. Acaba adaptando-se totalmente a Berghof e quase fica como interno definitivo.


Dois personagens são chave na trama: o italiano Settembrini e o judeu convertido, o jesuíta Naphta. O primeiro representa os ideais da Revolução Francesa, a liberdade, o pacifismo, o anticlericalismo; Naphta se coloca ao lado da Igreja, da hierarquia e do conservadorismo. Entretanto, em seus embates titânicos, Naphta acusa Settembrini de suas contradições como maçom e que seu pacifismo encontra limites quando a luta é contra o império austríaco, representante da monarquia; que Settembrini defende a liberdade, mas a liberdade burguesa, apavorando-se com a ação das massas e do proletariado. Por sua vez, o italiano contra ataca, massacrando a franca contradição do jesuíta de colocar-se ao lado da Igreja e da Tradição e ao mesmo tempo manter simpatias por causas supostamente "operárias", que ele defende como a necessidade de um "grande terror", protagonizado pelas massas revoltosas. Vê-se que ambos os debatedores são brilhantes mas cheios de contradições insolúveis, típicas de um período de confusão como o período anterior ao primeiro conflito mundial.

Castorp, no seu isolamento quase monástico, não consegue - nem o quer - conter seus impulsos viris, e acaba apaixonando-se perdidamente por uma das internas, uma russa chamada Madame Chauchat, com quem comunica-se em francês (existem longos diálogos nesta língua que infelizmente na edição brasileira não vem com notas de rodapé com a tradução, o que dificulta a compreensão; tenho alguma noção de francês e consigo "pegar o espírito da coisa", mas certamente quem não domina o idioma tem grandes perdas).

A Montanha Mágica pode parecer uma leitura enfadonha, mas está longe disso, bem como NÃO É UM LIVRO DIFÍCIL, ao contrário do que parece. Claro que, pelas suas 500 páginas, é daqueles livros "bons", que param de pé sozinhos na estante... mas que podem - e DEVEM - ser lidos na adolescência e relidos na idade madura.


A Montanha Mágica era considerado um livro "infilmável". Entretanto o diretor Hans Geissendörfer ocupou-se desta tarefa hercúlea e em 1982 criou uma película de 1h e 40min de duração, literalmente "enfiando" toda obra de Mann nesse exíguo espaço de tempo. Na minha opinião o resultado é um desastre... que pode ser conferido no YouTube, integralmente.