quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

La viro kiu amis la Hundoj - ESPERANTO

Leonardo Padura
Leonardo Padura Fuentes naskiĝis en Havano, Kubo, en 1955. Estas verkisto samtempe estas dediĉita al multnombraj kulturaj aktivecoj kiel teatro, filmo kaj librorecenzojn en ĵurnaloj kaj revuoj. Li estis fama por esti romanverkisto de la detektiva romano ĝenro kun lia fama karaktero Mario Conde, ĉeestanta en preskaŭ ĉiuj liaj libroj.

Tamen, Padura akiris grandan internacian sukceson kun la publikigo de la libro La viro kiu amis la Hundoj eldonita en la portugala en Brazilo por Boitempo eldonisto.

Tiu romano estis granda sukceso. Bazita sur reala okazaĵo - la murdo de la rusa revoluciulo Lev Trockij sur la ordoj de sovetia diktatoro Stalin - Padura "brodas" la intrigo brile, turnante la libro en vera krimo thriller, ĉiu paĝo lasas "voli pli" sur fine, eĉ se oni jam konas ĝin (post ĉiuj scias ke Trockij estis murdita kaj de kiu!).

La libro malvolviĝas en tri dimensioj ŝajne apartigis varianta asociante kun la kurso de historio. Unu estas la vivo de Trockij en ekzilo (Trockij estis malamiko de Stalin kaj finis excoriated Sovetunio, devante forlasi la landon, perdante sovetia civitaneco kaj vagante la mondo en serĉo de loko por doni ŝian ekzilon ĉar kiel komunisma revolucia neniu lando volis), iliaj ĉiutagaj vivoj, iliaj pensoj kaj ilian malĝojon esti forpelito en la lando kiu helpis krei.

Ramon
La dua estas la vivo de Ramón Komercisto, Trockij la murdisto, de lia juneco, kiam li batalis en la Hispana Enlanda Milito ĝis lia skrupula trejnado de la Stalinists plenumi la "misio" mortigi la "malamikon de la Sovetio." Rajmondo supozas la identecon de Jacques Monard, belga playboy ŝajne sen politikaj interesoj, por infiltri la trockiisma rimedoj kaj mortigi Trockij.


En ĉi tiu dua parto, unu el la gravuloj kiuj elstaras por la amuzo kaj discentreco estas Karitato, Rajmondo patrino. Karitato - almenaŭ en mia opinio - estas absolute freneza. Ĝi komencas en la revolucia movado inter anarkiistoj kaj faras ĉiajn frenezo - eĉ kun malgrandaj infanoj kaj edziĝintaj - kiel Homero binges, drogmanio kaj senfinajn partiojn. Li iĝas engaĝita kun stalinisma kaj iĝas lojala komunisto Stalino en tute fanatika maniero.

La tria akto estas la rakonto de verkisto frustrita en Havano, ankaŭ amas hundojn, plejparte rusaj leporhundoj, la "Borzois" kaj estas sur la strando, malnova kaj malsana viro kiu havas paron de ĉi tiuj. Ambaŭ tre kurioza ruzo konversacioj (ĵus legas la libron por lerni). Vivo en Kubo estas rakontita trankvile tra tiu karaktero, Ĝi montras ke ĝi ne estas vera iuj legendoj de la "kuba infero."



segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

"Os Quinze Primeiros Anos da Quarta Internacional" - J-J Marie


Título: Os Quinze Primeiros Anos da Quarta Internacional
Autor: Jean - Jacques Marie (França)
Editora: Palavra

Ano: 1981
Nº de páginas: 159
Formato: Brochura

Sinopse e crítica: sobre o autor muito já foi dito neste blog e dispensa apresentações. Sobre a editora que gostaríamos de tecer algumas considerações. A "Editora Palavra" foi a responsável pela introdução no Brasil de uma série de textos fundamentais para a reorganização do movimento operário na era da fundação do PT e da CUT. Sua criação vem junto
Mário Pedrosa delegado na fundação da Quarta
com a fundação do "Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa", do qual a livraria Palavra, que ficaria sob a responsabilidade da antiga OSI (Organização Socialista Internacionalista, que acabou entrando no PT), e que também virou editora. A "Palavra" foi uma espécie de sucessora da "Kairós", a primeira a editar o fundamental "Escritos sobre os Sindicatos" (Trotsky), já resenhado.



Alguns podem pensar que a história de uma organização que nunca atingiu sem a beirada de uma influência de massas possa ter alguma importância histórica. Aliás, a maioria dos que se dizem socialistas hoje pensam assim. 

A questão, assim, está profundamente mal colocada. A
Quarta Internacional tinha e tem um programa. Esse programa disse coisas a respeito da realidade política do século XX. No seu cerne, no mais profundo do que o Programa de Transição ao Socialismo, o programa político da Quarta Internacional, naquilo que ele tinha de mais "precioso", ele se enganou ou os fatos revelaram a justeza de suas previsões, mesmo que não em 100%, (pois Trotsky nunca foi "profeta")??

Qualquer um que, com honestidade intelectual autêntica, se debruce sobre a História do século XX, mesmo com todos os erros - e não foram poucos - verá que as grandes premissas do Programa trotskista ainda são o que falta para o desenlace positivo da Revolução Proletária. Infelizmente camaradas. Infelizmente.



Gostaríamos que houvesse surgido outro movimento mais correto que o nosso e que tivesse ganho as massas. Mas não houve. Não houve porque continua sendo uma verdade INABALÁVEL que "a questão da revolução mundial hoje resume-se na crise da direção revolucionária do proletariado". As portas do inferno não prevaleceram sobre esta premissa. Continua sendo verdade as questões da construção dos partidos, da Internacional, da Frente Única, da intervenção nos sindicatos e na luta contra o oportunismo e o sectarismo. 

J-J Marie, a despeito de quaisquer outras opiniões outras, nesta obra mostra a importância monumental que foi a construção de um grupo minúsculo chamado Quarta Internacional. Pois seu programa é fio de continuidade entre todas as outras três internacionais, falidas. Se a Quarta não tivesse sido fundada, estaríamos hoje numa situação ainda pior do que a que já estamos, que é horrenda, pois quais seriam nossos referenciais, nossos balizadores para tentar - digo assim mesmo, tentar que o movimento popular, sindical e revolucionário se reorganize??? É justamente o que centenas de pseudo intelectuais ou militantes pequeno burgueses estão fazendo, tentando reinventar a roda, quando, PELO MENOS, a bússola para a ação nós temos.

Vemos muitos atrás do "jovem Marx", das "releituras de Lênin", de tentar achar algo em Rosa Luxemburgo, tudo na melhor das intenções, mas uma busca vã, porque nenhum desses escreveu um programa para ser testado pelos fatos e estes o confirmaram. Alguns sim, negam de forma consciente a validade do Programa trotskista porque sabem que ele é verdadeiro e querem mantê-lo no gueto.

A revisão dos 15 primeiros anos da Quarta é fundamental. Foi aí que se deu o divisor de águas entre aqueles que entenderam a dialética das contradições contidas no Programa e aqueles que sucumbiram ao stalinismo. Pablo, secretário geral da Internacional, diante da vitória acachapante de Stálin sobre Hitler e do prestígio inegável que o stalinismo adquiriu no mundo todo, desistiu do trotskismo. Acreditou que o stalinismo havia mudado de natureza e uma dia, sabe-se lá quando e como, faria a revolução "à sua maneira".

Pablo não durou muito na Internacional e foi sucedido por Ernest Mandel, que conjurou suas teses mundo a fora.
Mandel
Chegou ao ridículo de, quando do XXº Congresso do PCUS, no qual Kruchov denunciou os "crimes de Stálin", mandar uma carta aos stalinistas pedindo para que a Quarta fosse "reconhecida parte do movimento comunista mundial como o titoísmo" (mas isso vai a além do livro resenhado, vale pela comicidade trágica).


A natureza do stalinismo e as raízes do pablismo são elementos essenciais para a compreensão do século XX, sendo que talvez todas as que tenham consciência não passam de algumas dúzias. 

O mérito do livro é colocar o problema. E colocar bem.

sábado, 28 de novembro de 2015

O treino da mente: leitura, jogos de tabuleiro e cartas

De todas as formas de arte, a literatura certamente é aquela que mais nos faz pensar. O cinema, o teatro, a pintura, já trazem de certa forma "prontos" vários tipos de raciocínio que os livros nos obrigam a fazer. Na leitura, a fantasia anda solta; somos obrigados a construir os cenários descritos pelo autor, imaginar os personagens e acompanhar a trama.



Nos jogos de tabuleiro, em particular o xadrez, a estratégia e a tática se fazem necessárias para vencer o jogo. O xadrez é um jogo essencialmente estratégico, onde vários princípios regem a luta entre adversários que simulam uma guerra. As aberturas, a tomada do centro do tabuleiro, o movimento diferenciado das peças e, particularmente, o fato de termos que prever jogadas com antecedência, desenvolvem o raciocínio lógico.



Nos jogos de carta a matemática é o centro. No jogo de bisca, por exemplo, temos sempre que fazer os cálculos, de forma rápida, para atingir os pontos (15) afim de ganhar a rodada. Outros jogos são menos matemáticos, mas todos, de uma forma ou de outra, envolvem cálculos.



Jogar xadrez ou cartas, seja bisca, canastra, sueca, escova ou o clássico poker, nos fazem interagir com outras pessoas, fazer amigos e nos divertir. Temos que ter o cuidado para não cairmos no vício, principalmente nos jogos que envolvem apostas. O xadrez é um jogo de raciocínio, mas os jogos de cartas são, certamente, jogos que envolvem o acaso, por isso são chamados jogos de "azar". Ainda que existam técnicas e pensamento lógico matemático, as cartas são distribuídas de forma aleatória. Não há como ser "mestre" em jogos de carta sem uma dose de sorte.



A leitura não é um jogo, mas uma atividade solitária. Os jogos envolvem outras pessoas, o que cria uma atmosfera de amizade, a não ser que os envolvidos sejam fanáticos e tenham como único interesse ganhar a partido e/ou dinheiro.

Estou cada vez mais interessado em jogos, pois eles me fazem sair de todo tipo de isolamento. Jogue e divirta-se!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Socialismo Esperanton - Facebook


Foi lançada por iniciativa deste blog a página "Socialismo Esperanton" no facebook (https://www.facebook.com/esperantosocialista/?ref=aymt_homepage_panel)

Como já é bem visto, o Esperanto faz parte do cotidiano deste blog. Acreditamos nele como uma língua viável, mesmo que não sendo um idioma nacional, pois cumpre todas as funções a que se propõe, particularmente a de ser a ponte de comunicação dentre os povos.


Por isso convidamos todos os que leem regularmente nosso blog e que usam o Facebook, a curtirem nossa página.



Ĝi estis lanĉita laŭ iniciato de ĉi blogo paĝo "Socialismo Esperanton" en facebook.

Kiel estas bone vidita, Esperanto estas parto de la ĉiutaga vivo de tiu blogo. Ni kredas je ĝi kiel realigebla lingvo, eĉ ne estante nacia lingvo ĉar ĝi kunvenas ĉiujn funkciojn kiuj estas proponitaj, aparte al esti ponto de komunikado inter homoj.


Do ni invitas cxiujn kiuj regule legas nian blogon kaj uzi Facebook, curtir nia paĝo.





domingo, 8 de novembro de 2015

Bilanco kaj rezolucioj de Kongreso 1º FCT

Bilanco kaj rezolucioj de Kongreso 1º FCT

Por Bolŝevisma Partio por la Rekonstruo de la Kvara Internacia batali imperiismo kun la taktikoj de la unuiĝinta fronto kaj batali sub la strategio de permanenta revolucio!

La Komunista Laborista Fronto decidis en lia unua kongreso fariĝi nova centralizitan organizon, la Bolŝevika-Leninisto tipo. La Kongreso okazis en Sãaŭ Paulo en la unua semajno de la fino de septembro 2015. Post preskaŭ jaro de sperto kaj komuna militancia, la Komunista Ligo, la Kolektiva Lenin- frakcio Laboristoj, la Marksisma Revolucia Tendenco Areo kaj procesioj konstrui ununura organizo.

Krome, la Kongreso decidis starigi komunan militancia kriterioj por ĉiuj ĝiaj membroj.

Ĝi ankaŭ estis nomumita por teni konferenco dum ses monatoj de nun, por establi pli altan statuson de rilatoj inter la FCT kaj aliaj sindikatoj, partieca kaj ne-organizitaj aktivuloj mallarĝajn interligojn nin tie.

En Kongreso, minoritato de la FCT, ironie frakcio de la grupo nomas Kolektiva Lenino kontraŭstaris la leninisma demokratia centralismo, asertante ke ambaŭ la bolŝevisma metodo kiel la legaco de la Kvara Internacia ne plu validas hodiaŭ. La Laboristoj frakcio de la Kolektiva Lenin defendis la mezuron kaj voĉdonis kun la plimulto de la FCT. La TR voĉdonis kontraŭ la kreado de unuigita organizo sed, kiam aprobita unuiĝo, manifestita pretas fari eksperimenton ene la nova FCT, sub la aprobita militancia kriteriojn.

Rezolucioj PROGRAMO

En la unua parto de la Kongreso, la partoprenantoj diskutis kaj diskutis sur la internacia kaj nacia situacio.

La Kongreso estis malfermita kun saluto de la turka trockiisma grupo, Dördüncü Blok, en arierulo de la Kvara Internacio kaj raporto de la tendenco Militant bolŝevisma, membro de la Konsilio por la Kvara Internacio en Argentino, pri la puĉo grimpita en Latin-Ameriko, kun liaj lasta ĉapitro en la rezigno de la prezidanto de Gvatemalo, Otto Pérez Molina, premita de la usona ambasadejo kaj la burĝa opozicio.

Kiel laste sed ne balaste, tion raportis kaj malakceptis la genocido suferita de la Guarani Kaiowá hunting indianoj en Mato Grosso do Sul, per la latifundia kaj kun la kompliceco de la federala registaro PT.

Malgraŭ la malsamaj politikaj originoj de organizoj kaj komponantoj aktivuloj de la Fronto, la debato pri la internacia kaj nacia situacio konfirmis komuna kompreno de okazaĵoj kaj taskoj de la plimulto de la Kongreso, te de la lasta trimestro de 2014 ĝis nun, FCT amasigitaj programita interkonsentoj sufiĉas doni la aktualan organizan paŝon, lasante malantaŭ la embria stadio de antaŭa ago ĉirkaŭ specifaj politikaj taskoj, kvalitan salton ebla de diskutoj kaj aktivulo batalado lastamonate inter la konstruistoj de FCT. Tiurilate estis malakceptita de la plimulto de la komponantoj por la tria kampadejo malvirtoj kaj pro-imperiista sektismo pri la nova malvarma milito, la palestina afero, la civila milito en Ukrainio kaj ceticistas devioj kaj postmoderna derivita de postaj malvenkoj al kapitalisma kontraŭrevolucio en laboristaj Shtatoj kiuj poluis multe de la mondo restas.

INTERNACIA MEDIO

A NATO imperiismo ofensivo de la analizo kaj la sieĝo de la rusa-ĉina bloko kaj landoj kiuj orbitan en la konstruo de BRICS okazis, kaj kiel ĝi influas la puĉo situacio kiu minacas la centro-maldekstra registaroj aŭ populara fronto en landoj Latinameriko, ejemplificando la puĉon en Paragvajo kaj ĵus en Gvatemalo, prezidantoj kiuj estis aŭ malhelpita aŭ eksiĝis spite akuzoj de korupteco. Estis ankaŭ elstarigis la ekzemplon de la faŝisma puĉo en Ukrainio, kie estas klare nazia flanko apogita de imperiismo kaj la alia por la rusa-ĉina bloko. Ne ekzistas tria kampo. La situacio devas esti metita en la flanko de la duon-kolonia landoj, dependaj aŭ evoluanta kontraŭ imperiismo, kiu kiel ni avertis Lenin kaj Trockij, estas la ĉefa malamiko de la laborista klaso. Sed ĝi fariĝas eksplicita, tiaj gvido ne implicas donanta ajna politika subteno aŭ al la defendo de burĝaj kaj etburĝo gvidantaroj de la landoj, personoj aŭ grupoj subpremataj de imperiismo. Ĝi estis protektita kaj aprobis la taktika unueco de ĉiuj malamikoj de mondo imperiismo kontraŭ la antaŭas de sieĝo al landoj ligita al la rusa-ĉina Bloko, kiu eĉ estante burĝa, ne imperiistoj.

Tiu unuo, momenta kaj ĝustatempa, celas malfortigi la imperiisma baras kaj helpi la laborista klaso organizi la lukton kontraŭ tiu ĉefa malamiko kiu estas nun sur la ofensivo kaj en la procezo samtempe helpi la amasojn venki la iluzioj en liaj tradiciaj direktoj -kiuj, laux ilia propra klaso karakterizaĵoj, estas nekapablaj kaj senpova fari konsekvencan lukton kontraŭ granda ĉefurbo-tiel ke la masoj de defendado al la ofensivo revolucia gajnante la patroneco de la aro duafoje.

La nuna malvarma milito, kvankam ĝi rompis la unipolarity de la "Pax Amerika" ekzistis ĝis la 2008 krizo, kuŝas multe de la monda situacio en 1914 [tiel diris la ukraina grupo Borotba en via dokumento la "Marksismo kaj la milito en Donbass" 08.29.2015] kaj ankaŭ reliefigis la buddy partoprenanto TMB Kongreso kiel la unua milito estis milito kaŭzita de ekspansiema ofenda distingaj imperiismaj nacioj, la nuna malvarma milito ekestas de defenda bloko de burĝaj ŝtatoj kontraŭ la reganta hegemonio kaj ne vicigitaj kun imperiismo.

Ĝi notiĝis ke la Unuiĝinta Fronto Anti-Imperiisma estas taktika alianco, kiu por eĉ sekundo povas esti konfuzata kun stageist orientiĝo aŭ popolisma antaŭ klasbatalo, kaj kiu devas esti subigita defendi la interesojn de laboristoj kontraŭ la estroj en ĉiuj kaj ĉiu unu el la popoloj kaj la strategio de la lukto por monda partio de revolucio, la Kvara Internacio, kaj la permanenta revolucio en tutmonda skalo.

Je tiu tempo de la kapitalisma ekonomia krizoj, malvenkoj kaj defendo de nia klaso, la plej taŭga taktiko prepari pli favoraj kondiĉoj por la lukto de nia klaso por turni la tabloj en favoro de laboristoj, estas la uzo de la monda ena kontraŭdiroj kapitalismaj, te, estas en la taktikoj de la unuiĝinta fronto de la masoj kun okazaj aliancanoj kiuj kondukas la amasmovado, sen tiu signifo establi komunan programon kun ili kaj sen doni neniun politikan subtenon al la burĝa kaj etburĝo gvidantaroj de tiu fronto. Tiam ĝi estis aprobita de la Kongreso al:

"Defendo de la United Front Anti-Imperiisma aliĝanta la BRICS, la Bolivara Kontaktu ceteraj laboristoj, araba naciismo, islama rezisto movadoj, Irano, Afriko kaj 'tria worlders' krom se estas sub atako aŭ en kontraŭdiro kun imperiismo" .

Pri la civila milito en Ukrainio estis solvita defendi la unuiĝinta fronto "kun la diablo kaj lia avino" [Lev Trockij, "Al Fronto Kunigita Laboristoj Kontraŭ Faŝismo", 1931], te inkluzive de Putin kaj inter ĉiuj movadoj rezisto ĉe Donbass kontraŭ la faŝisma registaro kaj por-imperiisma Kievo. La proponita duobla defetismo en tiu konflikto estis disvenkita.

En Demando Palestino estis konsento faras la strategio por socialisma federacio de la mezorientaj popoloj kaj la defendo de Palestino multetna populara konsilioj tiel kiel la venko de la unuiĝinta fronto taktiko kun ĉiuj laboristoj, arabaj kaj islamaj movadoj fini la ŝtato de Israelo, disvenkante la taktiko kiu nur batalas por la eldomigo de cionismaj loĝlokoj kaj militaj areoj okupitaj de Israelo.

Sur la civila milito en Sirio / Irako kaj Libio (en Sirio simila situacio) estis venkinta internaciisma pozicio de la Unuiĝinta Fronto kun la Assad registaro, Hizbulaho, Irano, Rusio, la PKK kaj la tuta popolo kaj gerilanoj malamikojn la solduloj subtenata de imperiismo, estinte venkita la naciisma sinteno de United Front "Siria", tio estas, nur kun la Assad registaro kaj maksimume kun klaso entoj, sed ne kun aliaj ŝtatoj aŭ organizitaj armeoj.

Sur la "islama ŝtato" ene de la konsento kiu ĉi mercenario gerila ne estas stato nek islama, ke estas barbara ulo de imperiismo uzita por renversi la sirian registaron kaj pravigi novan militan aventuroj de Usono kaj Israelo en la islama mondo, kaj ke lia religia orientiĝo, Vahabismo, estas patronita de la reakcia absolutista monarkio de Sauda Arabio (aliancano de cionismo kaj imperiismo en la regiono), estis venkintaj la pozicio de neniam emblocar kun ĝi, inkluzive en situacioj kie , circunstancialmente, imperiismo mem devigita ataki lin.

Ĝi estis adoptita por konsento pozicio por apogi la sendependecon de la kurda popolo en Turkio. Kobane senkondiĉa defendo kontraŭ la islama ŝtato de atakoj same kiel la Registaro de Turkio kaj lia persekutado de la rezisto de la kurdoj en kaj ekster la turka ŝtato.

Sur la internaciaj organiza demando. La alvoko "Por la rekonstruo de la Kvara Internacio kaj la reunificación de la monda komunisma movado sub la standardo de kontraŭimperiisma lukto kaj la permanenta revolucio", esti estinta disvenkita ne adoptis la pozicion ke la rekonstruo de la Kvara Internacio estis aprobita.

Tia rekonstruo de la Kvara Internacia okazas hodiaŭ de la Kunliga Komitato de la Kvara Internacio, CLQI, ankaŭ formita de la brita Socialista Lukto kaj la bolŝevisma Tendenco Militante Argentino, kiu la FCT estos la brazila sekcio.

NACIA SITUACIO

Aserti ke en Brazilo ekzistas puĉo antaŭ dekstremaj partioj kontraŭ la PT, kiu agas en la internacia kunteksto de imperiisma baras la BRICS, kaj en Brazilo postulas la PT forlasi la povon ĉiuokaze tiel vi povas enprofundiĝis vera malabundo al Eŭropa modo kontraŭ la laboristoj. La PT ne povas konduki austeridad tiel profunda pro ilia dependeco sur populara kaj proleta bazo, kiu sendube gvidus al ruino. La vojo por la puĉo estas por offside premo de reakcia Kongreso (speciale la Domo de Reprezentantoj), kiu metus Temer kiel prezidanto de koalicia registaro, aŭ per forfeiture tra la tribunaloj, kiel en la juĝo por la TSE de kampanjo kontoj Rousseff kaj Temer plato. Kaj ekzistas ankoraŭ la risko de cassarem la politikaj rajtoj de Ludoviko Inácio Lula donas Silva malhelpi lia ĵeto por la prezidanta elekto de 2018, tiel kiel la eluziĝo de la PT de ĉiuj frontoj tiel ke ĝi povas eventuale malaperus de la politika mapo kaj solidigi nova periodo pura novliberala ekonomia konservativa politika subteno. Alia eblo, tamen malproksimaj aŭ eĉ neverŝajne nuntempe, estus la milita ribelo kun la apogo logístico de imperiismo, ludante 64.

La ebleco de la renverso de la registaro Dilma estas tial plejparte kondiĉita de la internacia situacio. Estas puĉo survoje pelita de imperiismo, kaj ĝi ne scias kiun vojon estos kaj ne ekzistas konsento ene de la grandaj partioj de puĉo burĝa opozicio (PSDB kaj PMDB) nek inter ili.

Tra Latinameriko imperiismo volas rekomenci lian geopolitika spaco kaj ĝia hegemonio super Latinameriko kaj revizii kontraktojn kun Ĉinio kaj aliaj ekonomioj kontraŭrevolucio hegemonia imperiismo. Eĉ se ĝi estas daŭra interpretadoj de serio PT kaj Dilma rajtas austeridad pakaĵon sur la laborista klaso, ke pako estas nesufiĉa al imperiismo, tiel vi devas forigi la PT al la novliberala tagordo implementa en rapido kaj forto dezirata. PT nekapablo de pruvo adopti tia tagordon ĉe la dezirata rapideco de imperiismo estas la fakto ili ne estas aprobita kompleta subkontraktado ĉiunivele (publikaj kaj privataj entreprenoj, servoj kaj industrio) nek la partio apogis la redukton de laŭleĝa aĝo, nepopularaj mezuroj kiujn vi "bruligi" kun ĝia socia bazo.

Post la krizo de 2008, imperiismo provis reakiri teron perdis al la BRICS orkestrumas con procezo (bedaŭrinde sukcesaj) por jaro: 2009- Honduro, Ekvadoro 2010-, 2011- Libio, Paragvajo 2012-, 2013- Egiptio, 2014- Ukrainio kaj Tajlando, 2015- Gvatemalo, kun kripliĝoj (impeachment), rezigno, aŭ militaj batoj apogita de imperiismo. Ankaŭ, ekde 1964, neniam estis forta dekstra sur la stratoj kiel nun, freneze malstabiligi la registaron, kvankam Dilma esti nove reelektita kaj esti kelkaj monatoj en oficejo. Ĉi ĉiuj sugestas ke puĉo ago estas sub maniero en Brazilo, kiel ree avertis. La manko de claridad en la internacia klasbatalo kaj ĝia influo sur la brazila situacio subfosas la analizo kiu estas ekstreme favoraj al la ŝtatrenverso de la burĝa opozicio por-imperiisma dekstra en nia lando.

En kongresaj diskutoj, estis venkita per voĉdono kamaradoj kiuj dubas la ekziston de tia konspiro de dekstra ofensiva en la lando, minimumiganta la ŝancojn de havanta batis kaj preferante la tezo de sanganta Registaro EN 2018. Ankaŭ venkitaj estis la pozicio de tiuj kiuj kredis taktika eraro, sed ne principe, la alvoko por voĉdoni por Dilma en la dua raŭndo de la 2014 prezidantaj elektoj, prognozanta la tendencoj kiu konfirmis la novan kaj pli grandaj transdonoj de la PT registaro dekstra.

Estis aprobita por konsento la konstruo de laborista kontraŭstaro kaj komunisma al la registaro Dilma kaj bontenado de la revuo Nuna linio "Laborista Folio" de modular la agitado kaj propagando pri la subulo politiko kaj la konstruo de komunisma opozicio kiel la klimata ŝanĝiĝo aŭ variadas , pliigante la lukton kontraŭ registaro anti-labora politiko Dilma-Levy sed gardante la denunco de la puĉo.

Diskutoj tutjare kaj pli eksplicite en la Kongreso de la FCT montris ke la pozicio kiu falters spite imperiismo en la nuna malvarma milito, antaŭ la nazioj Kiev en la ukraina civila milito, cionismo en la Proksima Oriento kaj la puĉo ĝuste en Brazilo estas sama kiel rezigno de la lukto por Bolŝevisma Partio kaj rekonstruo de la Kvara Internacio. Prefere, ĝi estas simptoma ke la plej proletarianized elementoj de FCT sekvi la plimulton pozicio, kiu montras ke tiu sinteno estas en linio kun la interesoj kaj celoj de la mondo laboranta klaso. Tiusence, ni invitas congresistas kamaradoj kiuj abstinis en kontestata balotoj por pripensi sur la malsamaj gvidlinioj kaj realiĝi la FCT batali kun ni konstruu revolucia laborista partio en Brazilo kiu korpigas la proletaro la seniluziiĝo kun la PT kaj la Maldekstra Fronto (PSOL, PSTU, PCB) kaj forpelos potenca sekcio de la mondo dividita de revolucio en nia lando.

Prepara dokumentoj por la Kongreso de FCT:

PARTIO

> Kontribuo al la afero de partio regulo 1
Demokrata centralismo, strikoj kaj trockiisma aktivuloj

> Kontribuo al la temo de 2 partia sistemo
En arierulo de centra demokratio: kontraŭ liberalismo kaj kontraŭ stalinismo

> "Kio estas kaj kie iras la Komunista Laborista Fronto"

IV INTERNACIA

> "Winning la proletaro, esenca kondiĉo por la rekonstruado de la Kvara Internacia!"

Sindikatoj

> "Por la reunificación de la sindikata movado de la brazila maldekstro, por protekti la rajtojn kaj kontraŭ la rajto!"

SITUACIO

> FCT-FT Deklaracio kontraŭ la Puĉo
"Venki la puĉo survoje en Brazilo - Ne al la puĉo!"

> 8 poentoj FCT

FRONT NUR

> Deklaracio de la Komuna komisiono

"Unuiĝinta fronto por venki la mastrara ofensivo, la registaro kaj dekstra!"

DIVERSAJ

> "Sklaveco estas la ŝlosilo al historio en Brazilo" (Lenin Kolektivo), "Permanenta Revolucio en Afriko" (idem), "La komunistoj kaj la seksa demando" (ibid). "Berlina muro: Malbona kun li, pli malbone sen li" (ibid). "Revolucia defencism kaj fini la orientaj ŝtatoj" (ibid). "Marksismo kaj Organizo" (ibid). "La Trotskyists kaj la armita lukto" (ibid).

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Colibre "por vere populara lukto '-

sábado, 31 de outubro de 2015

Resenha: Trilogia "Divergente", Verônica Roth - As distopias e a luta de classes


Os três volumes, Insurgente

Títulos: Divergente (1º vol.), Insurgente (2º vol) e Convergente (3º vol)
Autora: Veronica Roth (EUA)
Editora: Rocco (Jovens Leitores)
Ano: 2014/15
Nº de páginas: por volta de 500 cada volume.
Formato: Capa semi-mole.



Sinopse e crítica: estamos num tempo de "moda" das chamadas "trilogias distópicas", sequência de histórias que se passam num mundo que é o exato contrário de uma utopia, ou seja, basicamente são realidades que se definem como "barbárie" (eu acrescentaria o "barbárie capitalista", que é sempre o modo de produção ainda vigentes nestes "mundos"). Um dos grandes sucessos atuais desse popular gênero "teen nerd" é a trilogia "Jogos Vorazes", de Suzane Collins, também norte-americana.

Ao longo da história da literatura do século XX várias distopias fizeram enorme sucesso e tornaram-se clássicos: 1984, de George Orwell, Farenheit 415 de Ray Bradbury e Admirável Mundo Novo, de Aldus Huxley. Os dois primeiros viraram épicos do cinema; 1984 filmado exatamente na época em que Orwell imaginou que os fatos narrados em sua obra iriam ocorrer, película britânica dirigida por Jonathan Gems e Michael Redford. A obra prima de Ray Bradbury ganhou vida nas telas pela mão do mestre François Truffaut, em 1966, considerado um dos maiores clássicos da ficção científica.

A trilogia ora comentada, Divergente, de Veronica Roth, tem como pano de fundo a cidade de Chicago, Illinois, cercada por muros por todos os lados, na qual se estabelece uma micro sociedade de uma cidade só, com um sistema de organização totalmente particular. A ideia é que, no passado, a humanidade haveria se exterminado em lutas intestinas, as quais, supostamente, teriam origem na "natureza humana", nos principais defeitos de caráter das pessoas que entrariam descontrole, como ira, agressividade, egoísmo, etc.

Assim, essa Chicago pós pós moderna divide-se em "facções", uma metáfora das classes sociais. São as facções a que devem ser membros os cidadãos da cidade: Audácia (que valoriza a "coragem" como virtude cardinal humana), a Amizade (que mantém a "fraternidade" e a alegria), a Abnegação (cuja pedra de toque é o "altruísmo" e também a caridade), a Erudição (conhecimento) e, por fim, a Franqueza (cujo valor é a "sinceridade"). Cada facção é representada por um "símbolo" gráfico (veja ilustração abaixo).




O problema é que o sistema de facções, longe de "harmonizar" as relações sociais nesta distopia, criam conflitos entre si, pois cada uma tende a crer que sua atividade é mais importante para a manutenção da estrutura social. Mas o pior de tudo, é que nem todos os que vivem em Chicago entram para uma facção; com o tempo, e com os rígidos testes de iniciação para a admissão plena em cada grupo, começa a aumentar um exército de "sem-facção", que são pessoas totalmente - e literalmente - "à margem" da sociedade faccionada. O lema "facção antes do sangue" e tido como precioso, ou seja, a facção é mais importante inclusive que os laços familiares; a pertença a ela define o indivíduo, o qual passa ter um "lugar ao sol", sem o qual sua situação é a de um "perdido", isto é, um "sem facção". A Abnegação, uma das facções, que é a que tem o "mando" do governo desta sociedade sob o pretexto de que seu valor "altruísmo" seria o mais adequado para exercer autoridade, começa a, ao perceber a crise do aumento exponencial dos "sem-facção", prestar-lhe caridade.

Assim, os indivíduos "sem facção", expulsos ou considerados inaptos a pertencer aos grupos na qual a cidade é dividida, passam a viver de trabalhos dos quais os membros "integrados" da sociedade não se sujeito: motoristas de trem e de ônibus, catadores de lixo, varredores, etc. Qualquer paralelo com os imigrantes, legais ou ilegais, no chamado "primeiro mundo", não é mera coincidência.

Desde Metropolis, o clássico do austríaco Fritz Lang de 1927, que quase todas as distopias têm como pano de fundo a revolução social. Tratam-se de sociedades capitalistas onde a desigualdade social chegou a extremos ainda mais
inconcebíveis que a nossa - fora o continente Africano - nas quais, mais cedo ou mais tarde, os grupos "inferiores" entram em convulsão contra a ordem vigente. Em Metropolis se faz um grande libelo ao "acordo harmônico de convivência entre capital e trabalho", tentando mostrar que aquela sociedade distópica do início do filme, afinal, pelo acordo entre trabalhadores e capitalistas, encontraria "paz e felicidade" utópicas, reacionáriamente utópica, pois é mais que ressabido que os interesses de capital e trabalho são irreconciliáveis.

Os protagonistas de Divergente são Beatrice Prior,
cognominada "Tris" em sua facção de escolha (Audácia), e Tobias Eaton, o "Quatro" da mesma Audácia, onde os dois se conhecem e se enamoram profundamente. Ambos "trocaram" de facção no ritual de iniciação que todo habitante dessa Chicago faz ao completar 16 anos; ambos pertenciam a Abnegação. Tobias é filho de outro personagem importante, Marcus Eaton, o líder de todas as facções, mas que foi um pai extremamente cruel e repressor; Tobias, ou "Quatro", literalmente "foge" para a Audácia para ficar longe do pai. 

Beatrice vem de uma família funcional e amorosa da Abnegação, onde tudo parece ir bem, mas para a surpresa de todos tanto ela quanto seu irmão Caleb, na iniciação, trocam de facção; ele para Erudição e ela para Audacia, rumo ao seu encontro com Tobias, que será seu instrutor até sua admissão oficial como membro da nova facção escolhida. Neste momento, se vê que os laços familiares - o que é humano, demasiado humano - pesam tanto ou mais que a "facção", pois são tidos como "traidores" e suas famílias eternamente mal vistas, por não terem conseguido, supostamente, passar os valores que cultivavam aos seus descendentes, que optam por outros rumos.

O primeiro volume é dedicado quase que exclusivamente à Beatrice "Tris" e sua "iniciação" na Audácia, um conjunto de provas marciais que lhe darão - caso seja classificada - o direito de pertencer a esta nova facção. A rivalidade entre os candidatos a novos membros é impressionante, bem como as exigências de crueldades mútuas entre eles, estando o treinamento, como dito, bem mais próximo do que um exército de elite exigiria dos seus do que um grupo para o qual se escolhe passar toda a vida. Neste volume, Tris descobre ser uma "Divergente", ou seja, tem uma capacidade - que depois se verá ser de origem "genética" - de ter múltiplas aptidões.

Em todo o "sistema" são utilizadas "simulações", ou seja, usa-se drogas injetáveis que proporcionam alucinações com propósitos especiais. Durante o "teste de aptidão" de cada membro, aos 16 anos, para saber qual a facção ele é mais "apto", usa-se um tipo de soro que simula situações de medo, egoísmo, etc. e conforme as reações do jovem lhe é dado o veredito de qual seu destinho mais "recomendável", muito embora a decisão de qual facção escolher seja sempre sua. Os chamados "Divergentes" tem a capacidade particular de "manipular" simulações, isto é, eles não sucumbem às alucinações e permanecem com um grau de consciência o suficiente para que saibam que o que estão vivenciando não é realidade. Daí conseguem como que "burlar" ou "confundir" resultados. 

Durante a chamada "simulação dos medos", que é aplicada em Tris por seu futuro namorado Quatro, por enquanto ainda seu instrutor na iniciação da Audácia, Tris antevê que aquelas situações que lhe geram pânico não são reais, conseguindo safar-se delas e manter o controle em tempo recorde, o que denunciam sua "divergência".

Para não estragar ainda mais a história aos que vão ler a trilogia, só digo que o sistema começa a ruir no momento em que Jeanniny Mattews, a líder da Erudição, começa uma verdadeira caçada aos divergentes, ao mesmo tempo que disputa, com todos os requintes de deslealdade de qualquer luta política, a liderança da Chicago distópica.

Tris e Quatro passam pelas situações mais inusitadas. Mas seu romance é um dos temas centrais da trilogia, e talvez a autora gaste tinta demais nas "discussões de relação" de ambos, particularmente no terceiro volume.

O que imprime um caráter de certa forma "reacionário" à trama é o fato de que os "sem-facção" nunca são retratados como o subproduto de uma sociedade, que vamos e venhamos, é radicalmente injusta (se o propósito dela era construir algum tipo de harmonia, existem vícios de origem insanáveis, e isso nunca é explicitado, a divisão social vista como algo "natural" ou "inevitável" em qualquer sociedade, do futuro ou do presente). Suas pretensões, legítimas ante o desamparo social que vivem, pois de fato não pertencem ao sistema da Chicago faccional, são apresentadas quase como delírios de pessoas marginais, que, talvez, deveriam resignar-se com sua situação. 

As duas primeiras partes, Divergente e Insurgente, são narradas do ponto de vista de Beatrice; Convergente muda essa perspectiva narratória, alternando capítulos em que o narrador continua sendo Beatrice e outros em que passa a ser Tobias. Não muda muito, mas não se entende o porquê de tal cambio. 

As facções são sempre colocadas como algo absolutamente próprios e pertencentes a cada indivíduo, uma parte indelével de sua natureza e identidade. O ruir do sistema de facções parece que fará estas pessoas perderem a si mesmas. É como que acreditar que a revolução social é impossível porque uns foram "talhados" para algumas tarefas - de obediência - e outros para as de mando. Basicamente o mundo de Divergente é um mundo de "castas", quase uma Índia, e em nada tem de "avançado" em relação ao próprio capitalismo, pois este, ainda que pequena - e cada vez menor - permite a mobilidade social. Mudar de casta em Divergente é uma coisa que se pode fazer uma vez na vida - aos 16 anos - e nunca mais, ou escorregar - o que alguns personagens expressar claramente ser "pior que a morte" - para o mundo dos "sem-facção".
Shailene Woodley

A trilogia já teve os dois primeiros volumes transformados em filme, de grande sucesso entre o público jovem principalmente, por seu caráter de ação. São bons filmes, razoavelmente fiéis aos livros. A direção é de Robert Schwentke; Shailene Woodley, a
Theo James como Tobias Eaton
protagonista de "Culpa é das Estrelas" (baseada na obra de John Green) é Beatric Tris Prior; Theo James é Tobias Quatro Eaton; conta ainda com a participação de Ansel Elgort, como Caleb, irmão de Tris, que com Shailene fez par romântico no mesmo "Culpa é das Estrelas".


A autora: Veronica Roth é uma jovem escritora de apenas 27 anos. É natural de Nova Iorque, mas seus irmãos moram na Chicago que é cenário da trilogia que lhe rendeu cerca de 17 milhões de dólares. Sua formação é em literatura e letras. É casada com o fotógrafo Nelson Ficht, e ambos, desde 2012, foram também morar em Chicago.


Veronica Roth









domingo, 25 de outubro de 2015

Especial: Crítica da reportagem "À Mesa com os Ditadores", de Carta Capital

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Crítica: Na famosa e muito conceituada - e excelente revista, diga-se de passagem - Carta Capital, em seu último número, 873 (28/10/215), pela pena do jornalista Nirlando Beirão, publicou-se uma reportagem intitulada "À Mesa com os Ditadores".

Hitler e Stálin: uma confusão proposital

Trata de um tema até meio desinteressante, que seriam os "hábitos alimentares" de todos os "ditadores" do século XX.

Mao Tsé Tung
A decisão de fazer esta crítica está no vício jornalistico e de muitos ditos "historiadores" que colocam num mesmo "saco" tanto os burocratas stalinistas que chefiaram com mão de ferro os Estados Operários, quanto os chefes fascistas, que por meio de golpes contra a classe operária e seus partidos, organizaram Estados capitalistas policiais. É o caso da comparação comum entre Hitler e Stálin; já que ambos foram "ditadores" e "assassinos", logo pertencem ao mesmo "gênero" de políticos. 

Kim Il Sung e Kim Jong Il, líderes da Coréia do Norte
Existe uma diferença brutal entre o fascismo e o stalinismo. Não é por nada que, durante a Segunda Guerra Mundial, as democracias aliaram-se não ao fascismo, mas à Stálin. Ele era um monstro sim, cometeu milhares de atrocidades, mas chefiava um Estado Operário, um país que, de uma forma degenerada, caminhava para o progresso. 

Ditadores fascistas: Salazar, Franco, Mussolini e Hitler
Salazar, Franco, Hitler e Mussolini representavam o que havia - e há, pois o fascismo não morreu - de mais atrasado na humanidade. Seus valores eram a "raça", um nacionalismo desvairado, a superioridade de seu país e povo perante todos os outros e um suposto "direito" de dominação destes, até conceitos medievais, que particularmente Hitler preservava. Hitler foi membro de sociedades "secretas" que cultivavam valores de uma suposta civilização alemã-ariana de tempos pretéritos, que teria sido desde sempre o "motor do progresso humano". A ideia de que a Idade Média tinha sido um dos melhores momentos da História perpassava a cabeça destes enlouquecidos o tempo todo. A democracia e seus valores - particularmente a IGUALDADE - eram tidos como "venenos" que jogavam os "piores" para cima em detrimento dos
Crianças judias em campos de concentração
"melhores". Em última análise, a eugenia, isto é, os processos de manipulação genética para que se construísse artificialmente um povo, ou uma raça, "superior" às outras, era o objetivo final, particularmente do nazismo. Se Hitler tivesse ganho a II Guerra, a escravidão teria voltado ao mundo - pois ele já escravizava judeus em seu território - e se ele não fizesse algum "pacto" com os EUA, teríamos vivido a hecatombe nuclear. 

A Revolução Russa é filha dos mesmos movimentos que deram origem ao mundo Ocidental que conhecemos hoje, particularmente a Revolução Francesa, exceto a Comuna de Paris, que foi um movimento de
Cartaz da Comuna de Paris
cunho essencialmente operário. Por isso que insistimos que, apesar do stalinismo ter "raptado" a Revolução de Outubro e vilipendiado seus ideais de liberdade e igualdade, de uma forma ou de outra a URSS permanecia sendo um país progressista. A Revolução tirou a Rússia tsarista, agrária, atrasada, desindustrializada, para a condição de um país com praticamente todo o analfabetismo erradicado, totalmente eletrificado, com gigantes hidrelétricas e estações de extração de petróleo (principalmente na região de Baku) e depois numa potência que foi capaz de derrotar a maior
Gagarin no Times
máquina de guerra da História (o nazismo), bem como mandar o primeiro satélite e o primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin. 

A reportagem de Beirão, ainda que de um tema insosso, reproduz essa confusão. São todos ditadores e ponto. São todos autores de regimes "totalitários", ponto. Não consegue colocar uma vírgula de diferenciação entre uns e outros, pois têm, como dito, uma natureza completamente diversa. Comunismo, Socialismo, Nazismo e Fascismo são categorias históricas RADICALMENTE DIFERENTES e não podem, de forma alguma, mesmo numa reportagem com tons de "chiste", serem colocados no mesmo barco. 

Repetimos que a revista CARTA CAPITAL é, na nossa opinião, A MELHOR REVISTA SEMANAL DO PAÍS. Tem uma qualidade editorial e uma linha de pensamento que destoa da grande mídia pró-golpismo, como dizem alguns, "coxinha". Mino Carta, seu proprietário, é um dos melhores jornalistas do país, e consegue com grande êxito dar um tom diferenciado à sua publicação. Não é por esta crítica que estamos desprezando a revista!

Mino Carta, proprietário da revista. Grande jornalista!




sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Especial: Revista Caros Amigos nº 76 "Modernidade Doente"


Título: Modernidade Doente
Autores: Vários, equipe editoral da Revista Caros Amigos
Editora: Editora Caros Amigos
Ano: 2015
Páginas: 31
Formato: Revista Tabloide


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Sinopse e crítica: A revista Caros Amigos é "show", como diz a gurizada. Tem um perfil plural, contando com a participação de pessoas do gabarito de José Arbex Júnior, Frei Betto, Leonardo Boff, o linguista Marcos Bagno, Laís Modelli, Fania Rodrigues e tantos outros.

A revista tem tiragem mensal e também publica edições especiais dedicadas a um tema único, como é o caso da presente. Em "Caros Amigos: Modernidade Doente", vários temas são abordados, como a "Depressão e Ansiedade" como "epidemias do século, a questão das redes sociais, o que são e como estão as cidades hoje, entre outros temas.

Gostaria de citar alguns em particular e deixar o resto para você comprar na banca de revista mais próxima (se ainda tiver) ou clicar no logo da revista e comprar online. 



O artigo "Solidão.com" de Fania Rodrigues foi meu preferido. Seu tema é a relação das redes sociais com a verdadeira sociabilidade, no mundo real, onde eu e você vivemos. Está já criado um mundo de fantasias nas redes sociais. Estou dizendo o óbvio ululante, pois todos sabem da famosa história de que "no Facebook todo mundo é feliz". Salvo algumas pessoas "diferentes" do padrão normal, só se posta no "Face", como é chamado, viagens, casamentos, festas, sempre bem vestido, alegre, na companhia de amigos.

Eu mesmo tenho que confessar que fiz várias postagens de minha viagem à Europa, num cruzeiro pelo Mar Adriático, quando conhecemos a Croácia, Grécia, Montenegro e as cidades de Veneza e Trieste na Itália (fomos de ônibus na Eslovênia também). Quem olha as fotos parece que aquilo foi um "sonho dourado". Tem uma foto de Trieste que eu olhei e achei incrivelmente bonita, MUITO MAIS BONITA QUE O LUGAR REAL! Isso me surpreendeu bastante. Aí vai ela:


Praça central de Trieste - Itália, eu com meu pai


São estes fenômenos da pós-modernidade que Fania Rodrigues, com uma clareza e lucidez excepcionais, aborda em seu artigo. "Tanta conectividade e tanta solidão, eis o paradoxo da atualidade." é a frase que abre a reflexão da jornalista. Ela afirma que o uso excessivo de redes sociais acentua a solidão. As pessoas acabem perdendo a referência com os amigos reais e ficam "boiando" num mundo "virtual" que não leva a lugar nenhum. Além disso, o bombardeio de informações, de todo tipo, além de posts de total inutilidade, besteiras inomináveis, etc. etc. que o usuário do Facebook fica sujeito. Não há como processar tudo, não há como interagir. Todos nós temos aqueles "amigos" que postam de forma enlouquecida, quase furiosos, viciados mesmo que estão em tentar dizer ao mundo coisas que estão trancadas em sua garganta e, sem sombra de dúvida, ELES NÃO TEM PARA QUEM FALAR! Sua solidão é de dar dó...

Outra matéria que não pode ser esquecida é "Geração de workaholics", de José Eduardo Bernardes. É mais longa que as outras e traz uma reflexão profunda sobre como as novas tecnologias, ao invés de liberar o homem da escravidão laboral, por conta do capitalismo selvagem que vivemos, coloca o trabalho acima de tudo e produz doenças. A matéria entrevista o sindicalista João Felício, hoje presidente da CSI - Confederação Sindical Internacional - que declara: "viver em função do trabalho é uma escravidão moderna".


"A internet, de fato, estendeu o trabalho além dos muros da empresa. A questão da globalização, da elevada competitividade, cria situações muito complicadas. O trabalhador precisa ter seu emprego, mas a que custo?"

Com esta frase encerro a resenha renovando o convite a meus leitores que comprem e leia a revista. Bom proveito!



sábado, 17 de outubro de 2015

Resenha: Rubem Alves, "Dogmatismo e Tolerância"



Capa da Obra. Ed. Paulinas.


Título: Dogmatismo e Tolerância
Autor: Rubem Azevedo Alves (Rubem Alves)
Editora: Edições Paulinas
Ano: 1982 (a versão atual é das Edições Loyola, dos jesuítas)
Páginas: 172
Formato: capa mole

O autor: Rubem Alves foi uma figura ímpar no contexto literário brasileiro. Foi um "inconformado" por excelência, no melhor sentido da palavra, usando essa sua "inconformidade" com situações da vida e do mundo que o rodearam desde a infância como um combustível incrível para sua grande capacidade criadora. Cronista, poeta, teólogo, romancista, autor de livros infantis, atuou em diversas áreas do saber literário com um intelectual de ponta, sempre requisitado para palestras e seminários. Foi chamado "intelectual polivalente". 
Destacado membro do movimento Teologia da Libertação, muito reprimido pelas hierarquias eclesiásticas, tanto protestantes quanto católicas, particularmente sob a autoridade do papa João Paulo II e seu braço direito Joseph Ratzinger, que depois virou Bento XVI.
Rubem Alves era Mestre em Teologia, com formação nos EUA (sua origem eclesial é a Igreja Presbiteriana), foi um dos maiores pedagogos brasileiros. Também tinha formação psicanalítica e vasto conhecimento nesta área. Seus primeiros livros tratavam justamente das dificuldades que enfrentou no meio protestante com suas ideias progressistas, o que lhe valeu várias "punições". 
Faleceu em 2014, aos 81, deixando um legado invejável para as futuras gerações. A obra ora resenhada é uma delas.

Sinopse e crítica: Dogmatismo e Tolerância é uma obra do início da maturidade intelectual de Rubem Alves. Trata-se de uma coleção de crônicas, tanto de cunho pessoal como crítico de vários assuntos concernentes a questão básica dos rumos do cristianismo no Brasil e na América Latina, da natureza do protestantismo brasileiro e do ecumenismo, particularmente com a Igreja Católica Romana. 
Rubem Alves conta, em uma das passagens, seu isolamento entre as crianças de sua classe, por não ser católico. Mineiro de Boa Esperança, que nas décadas de 30 e 40, distando a cidade 283 km de Belo Horizonte, estava ele em terras quase "polonesas", ou seja, "mais papistas que o Papa". No entanto, era membro de uma família presbiteriana, e nunca abandonou a identidade protestante, mesmo com sua pertença legítima no movimento TL (Teologia da Libertação), que teve como lideranças sacerdotes, leigos e religiosos católicos romanos, como Leonardo Boff, Dom Pedro Casaldáglia, Frei Betto, no Brasil, e em outros países latino americanos Gustavo Gutierres, Jon Sobrino e Juan Luis Segundo.

O livro inicia justamente com um libelo à identidade protestante do autor, texto denominado "O Vento Sopra onde quer: confissões de um protestante obstinado":

"sou protestante. Sou porque fui. Mesmo quando me rebelo e denuncio. Minha história não me deixa outra alternativa. Sou o que sou em meio às marcas do passado. Mesmo que eu não quisesse, esse passado continuaria a dormir comigo, assombrando-me as vezes com pesadelos e fúria"

Tudo isso é dito porque as obras de Alves podem ser comparadas ao famosíssimo "Igreja Carisma e Poder", de Leonardo Boff, numa versão protestante. Como Boff, que por conta do livro foi convidado pelo então cardial J. Ratzinger a um "silêncio obsequioso" de 10 anos, destituído de vários cargos que possuía na Igreja e outras punições - que culminaram com sua renúncia ás ordens do sacerdócio romano - Alves disseca as vicissitudes do protestantismo no Brasil. Seu americanismo, sua falta de aculturamento à realidade brasileira.

Frei Betto, OP e Leonardo Boff. Foto Atual.


São muitos os temas abordados por Rubem Alves, mas como este é um blog opinativo e com aspectos de pessoalidade de seu autor, digo que acredito que o tema mais relevante que Alves levantou em sua vida - e particularmente em Dogmatismo e Tolerância - é o tema da "identidade". Como ele, era um dos únicos - as vezes o único - que quando a professora perguntava a religião a massa levantava a mão quando se identificavam como católicos, alguns espíritas, e eu protestante.

Nasci na Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, IECLB, um dos dois ramos do luteranismo no país, o
chamado "tronco original germânico", vez que rivaliza com a Igreja Evangélica Luterana do Brasil, a IELB, que vem de uma missão de pregadores norte-americanos (mas que sua vez também tem origem alemã!), do chamado "Sínodo Luterano Missouri", um ramo "rebelde" da Igreja Evangélica Alemã (EKD, sigla original em alemão), a qual consideram "degenerada" por não preservar um "luteranismo autêntico". A mesma opinião hostil mantinham em relação à IECLB, mas as relações entre ambas são cordiais hoje em dia, sendo a unificação das duas, na minha opinião, algo só compreensível por interesses eclesiásticos, não da massa de fiéis, que na prática acreditam e professam a mesma fé luterana. O grande "defeito" de ambas, mesmo da IELB com sua origem norte-americana, é um excesso, as vezes radical em alguns membros, de sua "germanidade". Isso acabou acontecendo no mundo todo; a mensagem de Lutero revolucionou a Igreja, mas o luteranismo em si - não o protestantismo me geral, com seus infinitos ramos - ficou restrito à Alemanha, aos lugares de imigração alemã (como o sul do Brasil e Chile) e aos países da Escandinávia (que não tiveram surtos migratórios). Nunca romperam esse isolamento, que acabou sendo cultural e até teológico, pois a religião também é parte da cultura de um povo e se não expressa em sua língua, forma e costumes, isola-se. É por isso que de todas as Igrejas Históricas protestantes no Brasil, a IELB e a IECLB são as únicas que vêm perdendo membros a cada senso do IBGE.

Minha situação ainda era mais difícil, pois fui luterano meio que por "acidente", visto que tenho um sobrenome bastante "lusitano". Isso era sempre visto com olhos estreitos, como alguém que não era "de origem". Este "estranhamento" Rubem Alves coloca muito bem; mas ele sentia-se parte da sua comunicada eclesial, mas deslocado num mundo profundamente romanista. A Igreja Romana também tem um profundo problema de aculturamento no ambiente latino-americano, mostrando sempre seu caráter europeu colonialista. O movimento Teologia da Libertação tinha, entre outros objetivos, dar um basta nisso e vitalizar todo o cabedal cultural-religioso criado no Brasil ao redor do catolicismo; Nossa Senhora Aparecida e sua devoção, por exemplo, é algo profundamente brasileiro, uma santa negra achada nos rios por humildes pescadores, uma imagem na qual os escravos encontravam perfeita identificação, inclusive entrando para o panteão sincrético das religiões afro-brasileiras.
Mas os setores conservadores, até hoje, procuram manter de pé e como devoções "predominantes", por exemplo, Nossa Senhora de Fátima, que tem raízes brancas e europeias bem mais sólidas. Não é a toa que as organizações mais conservadoras e retrogradas da Igreja Católica têm em Fátima um pilar sólido de seu proselitismo.

Nesta obra, Rubem Alves explora os conceitos de "dogmatismo" - os pilares afastados da realidade latino americana, em particular - e "tolerância" - suas ideias ecumênicas, que se rivalizam no seio das Igrejas Históricas tradicionais. Rubem Alves usa a figura da "gaiola", como se fossemos pássaros presos pelos dogmas, que nos impedem de alçar voos mais altos, contrários ao destino do homem cristão, mas que estão repletos na História do Cristianismo. Enfim, o livro trata destas "gaiolas", como superá-las, que a todo tempo nos aprisionam.