domingo, 29 de abril de 2018

Guerra e Paz - Leon Tolstói

A obra monumental de Tolstói é uma verdadeira jornada intelectual pelos seus dois volumes, completando quase 3000 páginas. Chega a ser bizarro a reação de muitas pessoas que não acreditam que você possa estar lendo algo tão vasto somente por prazer intelectual. Muitos perguntam se o que você tem nas mãos é a Bíblia (sic!). Claro que tudo se relaciona com a pouca leitura em nosso país, que havia aumentado no tempo dos governos democrático-populares mas que vem caindo novamente sob a égide golpista.



Realmente Guerra e Paz é um monumento literário, um clássico universal de todos os tempos. Um problema ao leitor, principalmente ao mais afoito, é o grande número de personagens, o que não acontece, por exemplo, em Ana Karenina. Além disso, os nomes são citados ora em sua forma russa completa, ora pelo nome de família ou pelo título de nobreza do personagem, o que causa certa confusão. Mas, em essência, trata-se principalmente das vicissitudes, atritos, intrigas e, principalmente, romances e frustrações amorosas de seis famílias nobres peterburguesas e moscovitas durante o período das Guerras Napoleônicas. Muitos são militares.



As batalhas, como a derrota colossal da Rússia e aliados em Austerlitz, batidos pelo Imperador corso, são narradas com riqueza impressionante de detalhes, de aspectos sobre táticas e movimentos militares das tropas em combate. Isso também gera alguma confusão para quem não tem um conhecimento mais afinado sobre o assunto, mas claramente não prejudica a compreensão global da trama.

A vida da alta nobreza, a política russa sob o czar Alexandre e seus movimentos em zigue-zague, tanto quanto suas relações com Napoleão e seus impulsos liberais - de estabelecer um mínimo constitucionalismo na Rússia, em substituição ao absolutismo total representado eternamente pelo czarismo, que só acabou em 1917 - os ministros, o alto oficialato, tudo também é descortinado com o brilhantismo ímpar de Tolstói. O autor não toma partido mas o relato é muito fidedigno, deixando ao leitor tecer suas opiniões.

Um aspecto que se repete de Ana Karenina é a descrição da vida parasitária e inútil da nobreza russa, num país, há época, completamente carente de uma elite industrial progressista. As ditas "dificuldades financeiras", por exemplo, da família Rostov, são risíveis ao que realmente pensamos ser "carestia". Num dos momentos mais "dramáticos" dessa "crise" o filho mais novo do conde Rostov, que serve no exército czarista, volta para casa para cuidar das finanças familiares, a princípio pela inabilidade paterna em administrá-las. Chega a ser cômico que a única coisa que faz é dar uma surra de chicote no administrador (figura típica de funcionário dos nobres latifundiários, encarregados de cuidar do dinheiro) e comprar uma cadela de caça em troca de três famílias de servos, tidos piores que bichos.

Os bailes e os saraus são grande parte da obra, nos quais se fofoca sobre todo tipo de assunto, de política à vida amorosa da elite, particularmente em francês, ironicamente, sendo o idioma do inimigo aquele usado pela pedante nobreza czarista. O papel da Igreja Ortodoxa, vassala do czarismo, é bem destacado, mas também são apresentados movimentos religiosos mendicantes não bem vistos pela hierarquia religiosa, espécie de franciscanos russos, que viviam a opção radical pelo Evangelho. Subliminarmente se percebe a simpatia de Tolstói por esses movimentos, com os quais flertou em vida, que levou a criticar duramente a Igreja Russa levando-o até a excomunhão pelo chamado "Santo Sínodo", que governa os ortodoxos. A princesa Mária, irmã do Príncipe Andrei, é a principal personagem ligada ao mundo religioso, sendo seu irmão ocupante dos altos escalões das forças armadas.

A defesa do "sangue azul" é algo que impressiona no discurso patriótico dos nobres russos. A veneração ao Czar é religiosa; Rostov chega às lágrimas só porque, numa oportunidade, o "soberano" lhe dirige os olhos, numa revista das tropas enfileiradas para enfrentar o exército francês. Napoleão é hostilizado antes de tudo, ainda que seja Imperador dos franceses, por não ter nascido em berço nobre, por ser corso e ter se "autocoroado" soberano da França e seu Império em expansão.



O filme clássico sobre a obra, de 1956, dirigido por King Vidor, conta com um divino elenco, com Audrey Hepburn no papel e Natascha Rostova, Mel Ferry como príncipe Andrei Bolkonsky e Henry Fonda no papel de um dos mais excêntricos personagens, o humanista franco-maçom Pierre Bezukhov. Entretanto, em que pese ser também um clássico, foi impossível, por óbvio, traduzir uma obra tão enorme para duas horas e meia de filme. Também, pelos critérios de hoje, as reações dos personagens parecem demasiadamente afetadas, na minha opinião, em particular, a interpretação de Audrey Hepburn, que é muito "cocota". No entanto, vale a pena ver o filme inclusive antes de ler o livro para situar-se na vastidão da obra.

 

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Sri Prem Baba - "Propósito: A Coragem de ser Quem Somos", algumas considerações


Sri Prem Baba é em verdade Janderson Fernandes. Estudou Yoga desde os 14 anos e alcançou grande notoriedade nos últimos tempos. Por alguns, tem sido chamado de "guru dos coxinhas", por suas relações de amizades com personalidades e políticos conservadores. De minha parte não vejo isso como bom, mas é algo da vida pessoal do autor, pois me causou grande impacto positivo seus escritos, dos quais, a partir de algumas citações, elaborei um texto de minha autoria sobre um dos temas muito bem abordados por ele, a chamada "cisão do Ego".



"Existem muitas definições para a palavra Ego. Aqui me refiro a ela como o princípio da individuação, ou ainda como o princípio da ideia do Eu. (...) o Ego também representa o nascimento de um senso de separação, ou seja, é o princípio de que somos separados uns dos outros. Por termos um corpo, uma forma, a mente cria essa ilusão de separação. De fato, no nível físico, que é o nível das aparências, nós somos separados, mas no nível do Espírito somos apenas Um."

Com o tempo "perdemos a conexão com aquilo que realmente somos e passamos a acreditar que somos a máscara. (...) Daí nasce o grande vazio interno que acompanha o ser humano em toda sua existência. E para lidar com essa dor brutal, acionamos o mecanismo da negação."

"Esse mecanismo sustenta a falsa identidade". Criamos um personagem. "para manter essa falsa identidade, desenvolvemos um verdadeiro arsenal bélico, constituído de diversos mecanismos de defesa e seus infinitos desdobramentos. (... gula, preguiça, avareza, inveja, autoinveja, ira, orgulho, luxúria, medo, mentira)."

Por conta da sustentação dessa falsa identidade "você se torna um mendigo, que para receber uma migalha de atenção, vende a alma. Finge ser algo que não é; usa mascarás para agradar e receber um pequeno olhar, um pequeno carinho. (...) Você sente raiva porque sabe que está vendendo a si próprio. Está se prostituindo."



Há vários anos cunhei um neologismo para designar esse tipo de fenômeno, que é o "xuxismo". Maria da Graça Meneguel, durante muito tempo abandonou completamente a "Maria da Graça" para virar a "Rainha dos Baixinhos", um personagem. Silvio Santos, Luciano Hook e tantos outros fizeram e fazem o mesmo. Sobre este tema teci algumas observações.

Com a educação e a repressão social que recebemos ao longo do tempo, dividimos nossa personalidade. Passamos a usar máscaras e, pior, criamos um personagem que acaba por matar nosso Eu Verdadeiro, vivendo somente o personagem. Vestimos uma "roupa", que gruda em nós. Alguns, patéticamente, começam a vestir fantasias, como chapéus exóticos, gravatas estranhas, hábitos religiosos, os quais dão um "formato mais acabado" ao personagem.

Para alguns, o personagem é somente fonte de tormento e miséria. Mas para outros uma exigência social para a ascensão social e profissional. É uma exigência do canibalismo social para postos de poder, dinheiro e prestígio. Os vencedores com sua nova roupagem, são chamados winners, passar a ser o "doutor fulano", "o ministro", "o presidente", o "gerente", "o chefe". Os derrotados nesta selvageria, usam máscaras mais pobres, se autovitimizam e desenvolvem compulsões aditivas. São os loosers.

Ambos, no entanto, estão com a personalidade dividida e certamente sofrem, independentemente do status social que possam ter, mesmo que neguem ou enterrem este sofrimento. Os vencedores têm compulsão por trabalho ou por tudo aquilo que alimenta soa falsa identidade de winners; a Igreja, o Tribunal, a Empresa, etc. Venderam sua alma em troca de três coisas: bajulação, dinheiro e prestígio. Do verdadeiro amor e da verdadeira amizade não sabem nada.

Entre os perdedores não raro aparecem fanatismos de todos os tipos, seja por clube de futebol, partido político ou religião, elementos que os inserem no espírito de manada da falsa identidade. São escravos infelizes, alimentando-se das migalhas afetivas que caem da mesa daqueles que consideram seus "superiores". A deformação doentia da submissão não é rara, desenvolvendo no meio profissional o dedo-durismo, afim de, traindo seus iguais, alimentarem-se do pseudo afeto dos superiores.

Esses processos se dão em qualquer cosmos. Seja numa Grande Conferência Internacional ou numa associação de costureiras caridosas cristãs, a manutenção de suas macro ou micro esferas de poder enseja o desejo obsessivo por bajulação e prestígio - ainda que sem o elemento financeiro - a ponto de embriagar o indivíduo para o uso de um verdadeiro arsenal bélico de defesa do falso ego; fofocas, calúnias, mentiras, acusações e intrigas.

Outras vezes o sexo é utilizado como arma, seja de dominação ou ascensão. Cortejam, seduzem, se vendem a fim de ganhar confiança, desvendar segredos ou infiltra-se numa esfera de poder a qual não tem acesso. Em O Homem Que Amava Os Cachorros, já resenhado neste blog, Leonardo Padura narra o falso romance entre o assassino de Trotsky, Ramón Mercader, com uma militante trotskista norte-americana, que tinha acesso ao bunker onde o líder ser protegia a perseguição nazista e stalinista, a fim de matá-lo.

As famílias são exemplos clássicos das lutas fracionarias entre pessoas desvirtuadas em suas personalidades divididas. Quando os pais não exercem com diligência e amorosidade o seu princípio da autoridade, mas mais ardentemente quando aquele que o exercia vem a falecer - ou os dois perdem esse senso por senilidade (ver o filme italiano "Parente é Serpente", de 1992, dirigido por Mario Monicelli) - não raro acontece uma disputa encarniçada entre os filhos pelo poder vacante. Quando trata-se apenas de interesses no espólio ou herança, a dissolução familiar se dá claramente nas barras dos tribunais. Mas quando o interesse em disputa é o poder em vazio todas as armas mais sórdidas são usadas, como revelações de segredos há muito guardados entre irmãos, inveja, ciúme, acusações, mentiras, injúrias, seduções, abusos ou revelação de abusos (sexuais ou de outra natureza) já sofrido, rejeição, ódios recalcados, relações incestuosas ou venerações incestuosas e tortura psicológica. Essa disputa tem um ingrediente ainda mais doentio que são as juras perpétuas de fidelidade aos "laços de sangue"; ninguém quer romper com a família, por demais doloroso.

Ao fim e ao cabo, os derrotados terão que quedar silentes. Mas não raro, os vencedores apenas herdam, como Napoleão, uma Moscou em chamas, devido ao uso irracional de tantos expedientes que destroem os laços afetivos. A unidade familiar é precária. São entronados sobre escombros.

Tariq Ali, jornalista paquistanês radicado na França, faz uma narrativa deliciosa dos conflitos nas pequenas organizações de esquerda em seu romance Redenção. Nelas, a "tara" não é o dinheiro - que pouco possuem - mas o poder. Os laços não são de sangue e podem ser mais facilmente rompidos, mas muitas vezes tal ruptura é igualmente dolorosa pela dedicação dos militantes por anos à organização. São os infindáveis "rachas", alimentados por todo tipo de intrigas; a direção ameaçada, não raro "aperta o regime interno" e restringe a democracia, jogado o debate para os telefonemas, convescotes clandestinos e conversas de corredor, num verdadeiro vale-tudo. O resultado são as mágoas e as inimizades eternas. Muitas vezes chegam às vias de fato, como foi o caso do partido argentino Movimiento Al Socialismo (MAS), que acabou tornando-se uma organização totalmente irrelevante no cenário político hermano. O PCB passou por um processo semelhante, mas sem embate físico.

Algumas seitas, para manter a coesão interna, chafurdam eternamente na acusação às outras seitas de eterna traição, de forma histérica e autoproclamatória. Seu regime interno assim é coesionado sem democracia num espírito de time de futebol, contra a torcida adversária. Acabam vicejando como verdadeiros transeuntes da luta de classes.

Os stalinistas, confessos ou mascarados, sufocam por princípio, sempre, toda sadia divergência política interna, a qual, como dito, passa a ser realizada a boca pequena. Militantes honestos sofrem um rigoroso processo de deformação política por não poderem expressar de forma justa e honesta suas opiniões. O poder interno é dividido não por questão de opinião, mas por postos no parlamento, no sindicatos ou, quando há, na própria direção do partido, caso essa tenha grande prestígio interno. O caso clássico no Brasil é o PCdoB. O PSOL, como verdadeiro "anti-partido", tem poder interno demasiadamente calcado nas figuras dos parlamentares e nas disputas internas públicas. O PT, em que pese o que pese, ainda é o partido com maior influência na classe operária. Essa influência ainda é o que alimenta o partido, façam o que fizeram seus dirigentes com ela.

Por fim, na direita, com o único interesse é o loteamento do Estado para obtenção de favores para seus negócios, e a única coisa que os une é o interesse financeiro e o acobertamento da corrupção desenfreada, a venda da entrega do patrimônio público para o imperialismo - pela total falta de compromisso nacional de nossa burguesia - e a manutenção da aliança parasitária do latifúndio entreguista com a burguesia "nacional", tudo isso são os fatores de sua unidade. Nem por isso deixa de ocorrer uma dança das cadeiras movidas unicamente por interesses.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Ana Karenina - Liev Tolstói

Em Ana Karenina como nos demais grandes romances de Tolstói, ele desenvolve a rotina da vida das classes parasitárias russas, a nobreza czarista, seus protegidos, agregados e lacaios. 

Era uma classe que nada produzia, vivendo no extremo luxo e riqueza advinda da exploração brutal dos pobres, basicamente o campesinato, os chamados "mujiques". Era uma vida totalmente improdutiva e inútil (responsável pelo atraso econômico da Rússia em relação aos outros países europeus dotados de uma burguesia pujante). A bajulação dos serviçais e dos amigos por interesse, dos setores médios que viviam na casa dos nobres para prestar serviços como professores dos seus filhos, professores de música e dança, arquitetos e outros, os quais acabavam obtendo migalhas de "privilégios", farelos de pão podre que caiam das mesas nobres da Casa Grande.

Os nobres viviam da exploração de imensos latifundiários, maiores as vezes que alguns estados norte-americanos, pelo qual se pode traçar um paralelo com a posterior vida da burocracia stalinista, que obtinham seus privilégios não pelo seu "sangue azul", mas pela luta canibalística, deformada até o último fio de cabelo, por poder e status dentro do "P"artido, o PCUS.

A história em si é simples. Ana Karenina casou muito jovem com o conde Alexei Karenin, bem mais velho que ela, e por tempo suportou suas obrigações de esposa de forma "burocrática", tendo dado a luz a um filho de Karenin, Sérgio. No entanto, ainda no auge da juventude e da beleza (ainda que uma mulher casada e já um pouco "velha" para a época) enamora-se nos bailes da nobreza, de forma perdidamente apaixonada, pelo carismático e charmoso conde Vronski.



Vronski corteja e seduz Ana. Tudo indica que ele também está totalmente apaixonado por ela. Pelo conservadorismo da época o livro só dá a entender que eles tiveram relações íntimas ainda mantida a união entre Ana e Alexei, pois Ana engravida e Alexei rejeita totalmente o filho no ventre, que tudo indica é de Vronski.

O livro é repleto de atos melodramáticos. As fofocas e as intrigas, a sobe desce do status social dos membros da nobreza, e suas totais futilidades são um ingrediente cômico, sarcástico e crítico inserido por Tolstói na obra que, querendo ou não, denuncia a posição opressora da nobreza.



Um personagem importantíssimo na obra é Constantin Lievin, que é altamente autobiográfico. Ele é velho amigo de "Stiva", apelido do irmão de Ana, e casa-se com Kitty, irmã da cunhada de Ana, Betsy.

Os conflitos existenciais de Lievin são inseridos na obra como um livro a parte, no qual Tolstói narra suas angústias religiosas, seus sonhos de uma sociedade mais igualitária com direitos aos mujiques. Lievin perde um irmão de forma traumática, assim como Tolstói perdeu em criança seu irmão que ele sempre afirmou que foi a personalidade que mais lhe influenciou na vida.

Ana Karenina teve diversas adaptações para o cinema e para a televisão. É um romance ímpar que hoje os leitores de língua portuguesa podem ter acesso em tradução direta do russo, em edição da Companhia das Letras.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

José Luís Peixoto - Uma Casa Na Escuridão

TÍTULO: Uma Casa Na Escuridão
AUTOR: José Luís Peixoto
PAÍS:Portugal
EDITORA: Record (no Brasil)
ANO: 2009
PÁGINAS: 302


Alguns já falam deste jovem escritor lusitano como o novo Saramago. Realmente dono de uma criatividade incrível, sua prosa é poética, e ambas se confundem ao longo da narrativa.



O romance entra no gênero do realismo fantástico, mas sem perder um pano de fundo de reflexão sobre as mais profundas angústias humanas, o sentido da vida e da morte. Um escritor, personagem narrador, habita uma casa imensa com a mãe e uma "escrava", e mais milhares de gatos que parecem ter uma atração louca pela casa. Profundamente introspectivo, o narrador encontra dentro de si, ao fechar os olhos, uma mulher lindíssima pela qual se apaixona.

O tempo do romance é contemporâneo, mas por todo caminho aparecem príncipes, nobres de todos os tipos, e escravos. Até que a cidade é invadida por um exército estrangeiro meio Game of Thrones, que mutila a todos com espadas.



Meio maluquete, o romance de Peixoto nos prende do início ao fim, com, como dito, uma belíssima prosa poética. Talvez estejamos realmente diante do novo Saramago.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Entrevista com José Cavalcanti, psicólogo do TRE/RS e membro da comissão contra o assédio moral

José Cavalcante é um brilhante profissional do TRE/RS. Promotor da comunicação não-violenta, ombro amigo em todas as dificuldades dos trabalhadores. Um dos idealizadores da comissão contra o assédio moral no Tribunal, dá uma enorme contribuição a todos nós sempre que necessitamos.


1. Por que você escolheu ser psicólogo?É uma profissão que me encanta. Através dela posso ajudar pessoas e comunidades, como a comunidade do TRE-RS.

2. Nestes tempos de "pós-modernidade" como você vê a psicologia?
A Psicologia se defronta com diversos desafios, os profissionais de psicologia também estão cansados e na tão falada correria, sofrendo os atravessamentos de um mundo muito veloz e exigente. Para mim, o fundamental é que a Psicologia se mantenha crítica, afeita a uma ética do bem-dizer. 

3. O que é para você "ser psicólogo hoje"?
É optar por uma atividade de cuidado, escuta e atenção para com as pessoas e comunidades.

4. Existem psicólogos clínicos sinceramente engajados num projeto de ajuda e escuta ao outro. Existem outros adaptados a um modelo "empresarial" de psicologia. Dentro do serviço público o que você tem a dizer sobre isso?
O serviço público brasileiro tem uma má fama de ineficiente e preguiçoso, mas penso que se o é, o é tanto quanto qualquer outro espaço em nossa sociedade. É muito fácil procurar culpados para aquilo que incomoda e fugir da responsabilidade desse incômodo, como se o problema fosse o outro. E, se o problema é o outro, eliminá-lo acaba com o problema. Daí essa animação com as privatizações. Em paralelo, outros modos de “eliminar” essa questão é exercer um controle maior, solicitar mais comprometimento, racionalizar processos de trabalho, etc, imaginando que seria possível melhorar essa reputação sofrida. Nesse ponto, a Psicologia é muitas vezes convocada a instigar as pessoas a oferecerem mais do que já oferecem, chegando mesmo a usar modelos em que cada um é uma espécie de empresário de si mesmo e o organismo fosse uma espécie de fábrica. A intenção pode até ser boa, só que quando estamos isolados assim no trabalho, cada qual cuidando da sua “empresa de si mesmo”, ansiosos por sucesso e reconhecimento, perdemos a dimensão coletiva, a única capaz de gerar uma comunidade de trabalho sustentável. É no coletivo que aqueles que trabalham desenvolvem modos de fazer capazes de lidar com os obstáculos reais, acionando aquela astúcia solidária frente ao imprevisto e fazendo com que se possa protagonizar a produção sem cair no vazio da solidão. Sozinhos estamos expostos a uma gigantesca perda de sentido do trabalho, a um fulminante sentimento de culpa e a um fracasso solitário.

5. Você é um profissional comprometido com o combate ao assédio moral. Defina essa violência, tanto o horizontal como o vertical, suas consequências e se possível relate um caso que exemplifique o que diz.
O assédio moral é uma violência psicológica. O termo assédio remete às máquinas medievais de cerco à cidades, tanto que em espanhol o assédio moral é chamado acosso. É como se a pessoa ficasse cercada, só que por uma ou mais pessoas que usam como armas atos negativos como fazer ataques pessoais, ridicularizar, intimidar, isolar ou também ser muito rigoroso no trabalho, como se fosse uma forma “exigente” de gestão do trabalho. Cada vez mais se tem observado esse último tipo de assédio moral, chamado organizacional, porque tem relação com o modo como o trabalho é organizado, normatizado, controlado. Se isso se dá de modo muito rígido, com supervisão excessiva, exposição das pessoas a constrangimentos, como se realmente se tratasse de uma guerra, daí todos ficam numa tensão insuportável, com medo de errar e, ao mesmo tempo, precisam fazer muito, mas têm pouco controle e recursos. Com o tempo, as pessoas acabam abandonando o trabalho, ou fisicamente, como numa remoção, ou psicologicamente, deixando de se importar. Também ficam muito vulneráveis ao adoecimento e podem experimentar transtornos como estresse pós-traumático e depressão. Não podemos revelar nada de nenhum caso específico atendido pela Comissão, mas o tipo de assédio que mais encontramos foi o organizacional e vertical, vindo da chefia superior. 

6. Você faz parte da Comissão contra o Assédio Moral do TRE/RS. Conte um pouco de como ela foi formada e como funciona para aquele que é vítima contatar a comissão.
A Comissão foi formada em 2014. Recebemos notícias de assédio moral através de email (assedio@tre-rs.jus.br) e telefone. Daí começamos as tratativas para a atuação, porque é essencial proteger a pessoa e esclarecê-la. Feito isso, visitamos o local de trabalho. Todo o processo gera bastante tensão, mas é um enfrentamento necessário. Realizamos uma pesquisa sobre o local, contexto de trabalho, atos negativos e entrevistamos servidores que lá trabalham e alguns que trabalharam, mas se removeram. No final, a Comissão escreve um parecer que é encaminhado para a Presidência, onde se posiciona se houve ou não assédio moral e faz recomendações. Isso é o suficiente para mudar a situação e levar a reajustes. A Administração tem nos apoiado bastante e tivemos avanços consideráveis. Para encontrar mais informações é só ir na intranet, no menu servidores e depois em Assédio Moral no Trabalho.


7. Fale das atividades circulares que estão sendo desenvolvidas no âmbito do TRE, em especial a experiência da CAE/Anexo I.
As atividades circulares são uma forma de se fazer atividades em grupos de um jeito mais afetivo. A ideia é que existam espaços de fala, para conversarmos sobre as relações de trabalho, comunicação, projetos, conflitos, etc. E a função disso é fortalecer o coletivo, pois trabalhar é também viver junto. No círculo podemos voltar a falar e ouvir uns aos outros, lidando com as diferenças que surgem e conhecendo um pouco mais daquela pessoa muitas vezes desconhecida, que está ali ao lado no dia a dia. Ora, não acho que estamos no trabalho pra baixar a cabeça e fingir que não tem ninguém ao lado. Pode parecer mais confortável assim, mas é sofrido tanto fingir que não vê quanto ser invisível. Por mais difícil que seja se aproximar desse desconhecido, por mais diferente que ele seja, minha humanidade e valor eu encontro junto com ele, mesmo que só um pouco ou aos poucos de cada vez.

8. O que é comunicação não-violenta?
É uma proposta relacional desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg. O desafio que ela propõe é criarmos espaços em que podemos nos comunicar de um modo tal que não nos alienemos e ao outro no processo. Quando estamos muito acostumados a não enxergar o outro ao nosso lado, quando estamos apressados e inconscientes de nossas necessidades e responsabilidades, tendemos a tratá-lo como uma coisa qualquer que existe para nos satisfazer. Costumamos imaginar que um pouco de violência é ok, tipo: só um tapinha na criança pra deixar de ser teimosa ou aquela pessoa que precisa levar um “aperto” pra se ajustar ou, ainda, aquela chefia que muda alguém de lugar ou de atividade sem falar antes com a pessoa e prepará-la. Parece pouco, mas esquecemos que somos constantemente agredidos por inúmeras ações como essa. O bom é que podemos utilizar um modo de comunicação mais afetivo e efetivo como a comunicação não-violenta. 

9. Como você vê o futuro da psicologia: um viés mais humanista ou uma tendência a uma integração ao sistema, hostil aos trabalhadores e instrumento de adaptação das pessoas?
Essas duas tendências coexistem na Psicologia. Por estranho que pareça, há coisas boas também na segunda delas. Por exemplo, os novos servidores precisam ser integrados, sem isso ficariam confusos. Às vezes uma adaptação é necessária, tanto por parte da pessoa como do ambiente, como quando alguém aprende algo novo ou ajustamos a altura da cadeira. Quanto à hostilidade, ela sempre vai permear as relações humanas, como um predador à espreita. Quem trabalha com Psicologia precisa entender o que há por trás da hostilidade e não se filiar a ela.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Programa Escola Sem Partido e os “Aparelhos Ideológicos de Estado

Autores:Por Rogério Avila Jean Souza

 De antemão, é preciso estabelecer a premissa de ausência de neutralidade. Essa ausência é condição sine qua non para a existência do pensamento humano. Em qualquer área de pensamento! Daí que temos o espírito fantasioso (e falacioso) do Projeto “Escola sem Partido” ou, ainda, “Escola sem Ideologia”. Sendo assim, temos claro que o projeto em questão é, acima de tudo, um projeto ideológico de dominação. Nesse sentido, afirma Althusser: (…) a escola (mas também outras instituições do estado como a Igreja e outros aparelhos como o Exército) ensina o “Know-how” mas sob formas que asseguram a submissão à ideologia dominante ou o domínio de sua “prática” (1985, p.58).





 Para o autor, a ideologia não se configura nem como um ideal, nem como ocultação ou distorção da realidade, mas como um mecanismo sem história e sem fim que estrutura a vida dos sujeitos, ou seja, que torna todo indivíduo sujeito a partir de um lugar pré-determinado na estrutura social. Esse mecanismo não se confunde com as ideologias particulares, estas que se encontram em constante embate em uma dada formação social. Esse embate é sempre dissimétrico, isto é, as ideologias advindas da luta de classes nunca têm a mesma força. Em outras palavras, há sempre uma ideologia dominante que, no caso do atual sistema de produção, o capitalista, é a ideologia burguesa. Os aparelhos ideológicos de estado, na acepção de Althusser, funcionam de forma a reproduzir a ideologia dominante e as relações de produção. Nesse sentido, pode-se dizer que a ideologia dominante apresenta-se para o sujeito como uma verdade que, como tal, é neutra. Essa aparência de neutralidade e objetividade garante a livre (e inconsciente) submissão dos sujeitos. Para o autor, a escola é o principal dos aparelhos ideológicos, pois forma a mão de obra necessária para a manutenção das relações dissimétricas de produção entre patrões e empregados, garantindo, assim, a mais-valia. Quem serão os novos médicos, engenheiros, advogados, juízes e professores das futuras sociedades? Qual “ser pensante” será “produzido” pela Escola? Quais serão as forças produtivas que deverão sair das salas de aula? Aptas a quais fazeres e pensares? Se se imaginar que o estudante sai de casa “pronto”, bastariam depósitos “lúdicos” e “instrumentalizadores” (como segurar um martelo, como usar um esquadro, como manejar um bisturi…). No entanto, é sabido que a família não é um organismo satisfatório de reprodução de força produtiva, a Escola é! Sabedores dessa realidade (não se reproduz forças produtivas satisfatórias às diversas demandas do capitalismo dentro de casa), é obrigatório (mais que necessário) que haja um instrumento capaz dessa tarefa indispensável ao capitalismo. Os detentores do Capital não são ingênuos. Não desenvolvem projetos que visem apenas diretamente ao acúmulo de riquezas. É necessário mais que isso. É preciso garantir que essas riquezas se auto-reproduzam. É preciso garantir a manutenção da produção de mais-valia. E, para isso, além da propriedade privada dos meios de produção, é necessário que as forças produtivas estejam “afinadas” com o Capital. O projeto em questão vem daquilo que é mais perverso na ideologia dominante, o fato de que todos os papéis sociais são pré-determinados antes mesmo do nascimento na formação social. A escola em questão, desde as séries iniciais, vai formar o sujeito para a tarefa a ele destinada e, mais do que isso, vai fazê-lo acreditar que não há para si outra tarefa possível. Baseado na aparência de neutralidade que a ideologia dominante assume, esse projeto faz crer que existe uma verdade única e que o professor deve “transmiti-la” aos estudantes que formarão a força de trabalho futura. Dessa forma, os aparelhos ideológicos, em especial a escola, vão desempenhar o papel de “domesticar” o proletariado, fazendo com que não somente aceite seu papel de submissão, mas com que acredite que é a única forma possível e justa de existência. A dominação é tão eficiente no apagamento das relações de submissão, que o proletariado sequer se vê pertencendo a uma classe e, muito menos, a uma classe dominada.



 O projeto “Escola sem Partido” atribui à ideologia um caráter subversivo, enquanto que ideologia aqui sejam os “ideais de esquerda”, novamente devemos deixar claro que, na concepção do projeto, diz-se falaciosamente que o processo transmitidor de técnicas e capacidades voltadas à produção laboral não é ideológico. Ou seja, somente será ideológico se for de esquerda. Se assim não for, ele é neutro. A escola é o maior aparelho ideológico de Estado, na concepção de Althusser. O Estado, hoje, é burguês. Logo, a escola já reproduz sistematicamente a ideologia dominante. O que o Projeto Escola sem Partido propõe é que nem essa constatação seja possível. Que sejam, quaisquer tipos de contestação à ordem vigente do Estado Burguês, uma subversão. Portanto, criminaliza-se aqui o próprio questionamento de um Estado Burguês ideologicamente dominante. ALTHUSSER, Louis, Aparelhos Ideológicos de Estado: notas sobre os aparelhos ideológicos de Estado. Trad. Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. 10ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985. ** Graduandos do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pelotas

terça-feira, 6 de junho de 2017

Resenha: Manual Russo de Finais (The Russian Endgame Handbook) de Ilya Rabinovich

Título: The Russian Endgame Handbook
Autor: Ilya Rabinovich
Editora: Mongoose Press (EUA)
Formato: capa dura
Páginas: 523




Um antigo ditado soviético dizia que os enxadristas amadores do Ocidente "jogavam aberturas como grandes mestres, meio-jogo como experts e finais como iniciantes". Isso vem daquilo que já foi tratado em outro post neste blog, de que a escola soviética de xadrez - a mais vitoriosa de todos os tempos - sempre tinha como método de estudo do jogo iniciar não com aberturas, mas com o domínio dos finais.

Jogadores soviéticos treinados  conduziam sem medo o jogo para o final, confiantes na sua habilidade superior. Este livro se conduz rigorosamente nesta linha.

Rabinovich conduz a um novo entendimento dos finais de jogo com um sofisticado nível, iniciando com os xeque-mates elementares e daí para patamares mais complexos. 

Trata-se de uma obra tanto para veteranos como para iniciantes. Infelizmente não temos tradução em português. Seus inúmeros diagramas nos ajudam a entender tudo que se explica.

O que é importante saber é que para cada final de xadrez, em especial os com poucas peças, o jogador em vantagem tem que apenas seguir uma técnica. O final pretas com um rei brancas com o rei e torre é infalível para as brancas, se não houver um erro crasso, o que levará ao empate, que é uma derrota moral.




O estudo do xadrez por principiantes deve, paradoxalmente, começar pelos finais.  Isso porque os iniciantes cometem tantos erros que quase invariavelmente chegam ao fim do jogo com poucas peças. Aquele que  tiver o domínio do final para levar ao mate será o vencedor. Além disso, no meio jogo surgem situações estudadas no final, e que quando bem jogadas decidem a partida.