segunda-feira, 30 de outubro de 2017

José Luís Peixoto - Uma Casa Na Escuridão

TÍTULO: Uma Casa Na Escuridão
AUTOR: José Luís Peixoto
PAÍS:Portugal
EDITORA: Record (no Brasil)
ANO: 2009
PÁGINAS: 302


Alguns já falam deste jovem escritor lusitano como o novo Saramago. Realmente dono de uma criatividade incrível, sua prosa é poética, e ambas se confundem ao longo da narrativa.



O romance entra no gênero do realismo fantástico, mas sem perder um pano de fundo de reflexão sobre as mais profundas angústias humanas, o sentido da vida e da morte. Um escritor, personagem narrador, habita uma casa imensa com a mãe e uma "escrava", e mais milhares de gatos que parecem ter uma atração louca pela casa. Profundamente introspectivo, o narrador encontra dentro de si, ao fechar os olhos, uma mulher lindíssima pela qual se apaixona.

O tempo do romance é contemporâneo, mas por todo caminho aparecem príncipes, nobres de todos os tipos, e escravos. Até que a cidade é invadida por um exército estrangeiro meio Game of Thrones, que mutila a todos com espadas.



Meio maluquete, o romance de Peixoto nos prende do início ao fim, com, como dito, uma belíssima prosa poética. Talvez estejamos realmente diante do novo Saramago.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Entrevista com José Cavalcanti, psicólogo do TRE/RS e membro da comissão contra o assédio moral

José Cavalcante é um brilhante profissional do TRE/RS. Promotor da comunicação não-violenta, ombro amigo em todas as dificuldades dos trabalhadores. Um dos idealizadores da comissão contra o assédio moral no Tribunal, dá uma enorme contribuição a todos nós sempre que necessitamos.


1. Por que você escolheu ser psicólogo?É uma profissão que me encanta. Através dela posso ajudar pessoas e comunidades, como a comunidade do TRE-RS.

2. Nestes tempos de "pós-modernidade" como você vê a psicologia?
A Psicologia se defronta com diversos desafios, os profissionais de psicologia também estão cansados e na tão falada correria, sofrendo os atravessamentos de um mundo muito veloz e exigente. Para mim, o fundamental é que a Psicologia se mantenha crítica, afeita a uma ética do bem-dizer. 

3. O que é para você "ser psicólogo hoje"?
É optar por uma atividade de cuidado, escuta e atenção para com as pessoas e comunidades.

4. Existem psicólogos clínicos sinceramente engajados num projeto de ajuda e escuta ao outro. Existem outros adaptados a um modelo "empresarial" de psicologia. Dentro do serviço público o que você tem a dizer sobre isso?
O serviço público brasileiro tem uma má fama de ineficiente e preguiçoso, mas penso que se o é, o é tanto quanto qualquer outro espaço em nossa sociedade. É muito fácil procurar culpados para aquilo que incomoda e fugir da responsabilidade desse incômodo, como se o problema fosse o outro. E, se o problema é o outro, eliminá-lo acaba com o problema. Daí essa animação com as privatizações. Em paralelo, outros modos de “eliminar” essa questão é exercer um controle maior, solicitar mais comprometimento, racionalizar processos de trabalho, etc, imaginando que seria possível melhorar essa reputação sofrida. Nesse ponto, a Psicologia é muitas vezes convocada a instigar as pessoas a oferecerem mais do que já oferecem, chegando mesmo a usar modelos em que cada um é uma espécie de empresário de si mesmo e o organismo fosse uma espécie de fábrica. A intenção pode até ser boa, só que quando estamos isolados assim no trabalho, cada qual cuidando da sua “empresa de si mesmo”, ansiosos por sucesso e reconhecimento, perdemos a dimensão coletiva, a única capaz de gerar uma comunidade de trabalho sustentável. É no coletivo que aqueles que trabalham desenvolvem modos de fazer capazes de lidar com os obstáculos reais, acionando aquela astúcia solidária frente ao imprevisto e fazendo com que se possa protagonizar a produção sem cair no vazio da solidão. Sozinhos estamos expostos a uma gigantesca perda de sentido do trabalho, a um fulminante sentimento de culpa e a um fracasso solitário.

5. Você é um profissional comprometido com o combate ao assédio moral. Defina essa violência, tanto o horizontal como o vertical, suas consequências e se possível relate um caso que exemplifique o que diz.
O assédio moral é uma violência psicológica. O termo assédio remete às máquinas medievais de cerco à cidades, tanto que em espanhol o assédio moral é chamado acosso. É como se a pessoa ficasse cercada, só que por uma ou mais pessoas que usam como armas atos negativos como fazer ataques pessoais, ridicularizar, intimidar, isolar ou também ser muito rigoroso no trabalho, como se fosse uma forma “exigente” de gestão do trabalho. Cada vez mais se tem observado esse último tipo de assédio moral, chamado organizacional, porque tem relação com o modo como o trabalho é organizado, normatizado, controlado. Se isso se dá de modo muito rígido, com supervisão excessiva, exposição das pessoas a constrangimentos, como se realmente se tratasse de uma guerra, daí todos ficam numa tensão insuportável, com medo de errar e, ao mesmo tempo, precisam fazer muito, mas têm pouco controle e recursos. Com o tempo, as pessoas acabam abandonando o trabalho, ou fisicamente, como numa remoção, ou psicologicamente, deixando de se importar. Também ficam muito vulneráveis ao adoecimento e podem experimentar transtornos como estresse pós-traumático e depressão. Não podemos revelar nada de nenhum caso específico atendido pela Comissão, mas o tipo de assédio que mais encontramos foi o organizacional e vertical, vindo da chefia superior. 

6. Você faz parte da Comissão contra o Assédio Moral do TRE/RS. Conte um pouco de como ela foi formada e como funciona para aquele que é vítima contatar a comissão.
A Comissão foi formada em 2014. Recebemos notícias de assédio moral através de email (assedio@tre-rs.jus.br) e telefone. Daí começamos as tratativas para a atuação, porque é essencial proteger a pessoa e esclarecê-la. Feito isso, visitamos o local de trabalho. Todo o processo gera bastante tensão, mas é um enfrentamento necessário. Realizamos uma pesquisa sobre o local, contexto de trabalho, atos negativos e entrevistamos servidores que lá trabalham e alguns que trabalharam, mas se removeram. No final, a Comissão escreve um parecer que é encaminhado para a Presidência, onde se posiciona se houve ou não assédio moral e faz recomendações. Isso é o suficiente para mudar a situação e levar a reajustes. A Administração tem nos apoiado bastante e tivemos avanços consideráveis. Para encontrar mais informações é só ir na intranet, no menu servidores e depois em Assédio Moral no Trabalho.


7. Fale das atividades circulares que estão sendo desenvolvidas no âmbito do TRE, em especial a experiência da CAE/Anexo I.
As atividades circulares são uma forma de se fazer atividades em grupos de um jeito mais afetivo. A ideia é que existam espaços de fala, para conversarmos sobre as relações de trabalho, comunicação, projetos, conflitos, etc. E a função disso é fortalecer o coletivo, pois trabalhar é também viver junto. No círculo podemos voltar a falar e ouvir uns aos outros, lidando com as diferenças que surgem e conhecendo um pouco mais daquela pessoa muitas vezes desconhecida, que está ali ao lado no dia a dia. Ora, não acho que estamos no trabalho pra baixar a cabeça e fingir que não tem ninguém ao lado. Pode parecer mais confortável assim, mas é sofrido tanto fingir que não vê quanto ser invisível. Por mais difícil que seja se aproximar desse desconhecido, por mais diferente que ele seja, minha humanidade e valor eu encontro junto com ele, mesmo que só um pouco ou aos poucos de cada vez.

8. O que é comunicação não-violenta?
É uma proposta relacional desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg. O desafio que ela propõe é criarmos espaços em que podemos nos comunicar de um modo tal que não nos alienemos e ao outro no processo. Quando estamos muito acostumados a não enxergar o outro ao nosso lado, quando estamos apressados e inconscientes de nossas necessidades e responsabilidades, tendemos a tratá-lo como uma coisa qualquer que existe para nos satisfazer. Costumamos imaginar que um pouco de violência é ok, tipo: só um tapinha na criança pra deixar de ser teimosa ou aquela pessoa que precisa levar um “aperto” pra se ajustar ou, ainda, aquela chefia que muda alguém de lugar ou de atividade sem falar antes com a pessoa e prepará-la. Parece pouco, mas esquecemos que somos constantemente agredidos por inúmeras ações como essa. O bom é que podemos utilizar um modo de comunicação mais afetivo e efetivo como a comunicação não-violenta. 

9. Como você vê o futuro da psicologia: um viés mais humanista ou uma tendência a uma integração ao sistema, hostil aos trabalhadores e instrumento de adaptação das pessoas?
Essas duas tendências coexistem na Psicologia. Por estranho que pareça, há coisas boas também na segunda delas. Por exemplo, os novos servidores precisam ser integrados, sem isso ficariam confusos. Às vezes uma adaptação é necessária, tanto por parte da pessoa como do ambiente, como quando alguém aprende algo novo ou ajustamos a altura da cadeira. Quanto à hostilidade, ela sempre vai permear as relações humanas, como um predador à espreita. Quem trabalha com Psicologia precisa entender o que há por trás da hostilidade e não se filiar a ela.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Programa Escola Sem Partido e os “Aparelhos Ideológicos de Estado

Autores:Por Rogério Avila Jean Souza

 De antemão, é preciso estabelecer a premissa de ausência de neutralidade. Essa ausência é condição sine qua non para a existência do pensamento humano. Em qualquer área de pensamento! Daí que temos o espírito fantasioso (e falacioso) do Projeto “Escola sem Partido” ou, ainda, “Escola sem Ideologia”. Sendo assim, temos claro que o projeto em questão é, acima de tudo, um projeto ideológico de dominação. Nesse sentido, afirma Althusser: (…) a escola (mas também outras instituições do estado como a Igreja e outros aparelhos como o Exército) ensina o “Know-how” mas sob formas que asseguram a submissão à ideologia dominante ou o domínio de sua “prática” (1985, p.58).





 Para o autor, a ideologia não se configura nem como um ideal, nem como ocultação ou distorção da realidade, mas como um mecanismo sem história e sem fim que estrutura a vida dos sujeitos, ou seja, que torna todo indivíduo sujeito a partir de um lugar pré-determinado na estrutura social. Esse mecanismo não se confunde com as ideologias particulares, estas que se encontram em constante embate em uma dada formação social. Esse embate é sempre dissimétrico, isto é, as ideologias advindas da luta de classes nunca têm a mesma força. Em outras palavras, há sempre uma ideologia dominante que, no caso do atual sistema de produção, o capitalista, é a ideologia burguesa. Os aparelhos ideológicos de estado, na acepção de Althusser, funcionam de forma a reproduzir a ideologia dominante e as relações de produção. Nesse sentido, pode-se dizer que a ideologia dominante apresenta-se para o sujeito como uma verdade que, como tal, é neutra. Essa aparência de neutralidade e objetividade garante a livre (e inconsciente) submissão dos sujeitos. Para o autor, a escola é o principal dos aparelhos ideológicos, pois forma a mão de obra necessária para a manutenção das relações dissimétricas de produção entre patrões e empregados, garantindo, assim, a mais-valia. Quem serão os novos médicos, engenheiros, advogados, juízes e professores das futuras sociedades? Qual “ser pensante” será “produzido” pela Escola? Quais serão as forças produtivas que deverão sair das salas de aula? Aptas a quais fazeres e pensares? Se se imaginar que o estudante sai de casa “pronto”, bastariam depósitos “lúdicos” e “instrumentalizadores” (como segurar um martelo, como usar um esquadro, como manejar um bisturi…). No entanto, é sabido que a família não é um organismo satisfatório de reprodução de força produtiva, a Escola é! Sabedores dessa realidade (não se reproduz forças produtivas satisfatórias às diversas demandas do capitalismo dentro de casa), é obrigatório (mais que necessário) que haja um instrumento capaz dessa tarefa indispensável ao capitalismo. Os detentores do Capital não são ingênuos. Não desenvolvem projetos que visem apenas diretamente ao acúmulo de riquezas. É necessário mais que isso. É preciso garantir que essas riquezas se auto-reproduzam. É preciso garantir a manutenção da produção de mais-valia. E, para isso, além da propriedade privada dos meios de produção, é necessário que as forças produtivas estejam “afinadas” com o Capital. O projeto em questão vem daquilo que é mais perverso na ideologia dominante, o fato de que todos os papéis sociais são pré-determinados antes mesmo do nascimento na formação social. A escola em questão, desde as séries iniciais, vai formar o sujeito para a tarefa a ele destinada e, mais do que isso, vai fazê-lo acreditar que não há para si outra tarefa possível. Baseado na aparência de neutralidade que a ideologia dominante assume, esse projeto faz crer que existe uma verdade única e que o professor deve “transmiti-la” aos estudantes que formarão a força de trabalho futura. Dessa forma, os aparelhos ideológicos, em especial a escola, vão desempenhar o papel de “domesticar” o proletariado, fazendo com que não somente aceite seu papel de submissão, mas com que acredite que é a única forma possível e justa de existência. A dominação é tão eficiente no apagamento das relações de submissão, que o proletariado sequer se vê pertencendo a uma classe e, muito menos, a uma classe dominada.



 O projeto “Escola sem Partido” atribui à ideologia um caráter subversivo, enquanto que ideologia aqui sejam os “ideais de esquerda”, novamente devemos deixar claro que, na concepção do projeto, diz-se falaciosamente que o processo transmitidor de técnicas e capacidades voltadas à produção laboral não é ideológico. Ou seja, somente será ideológico se for de esquerda. Se assim não for, ele é neutro. A escola é o maior aparelho ideológico de Estado, na concepção de Althusser. O Estado, hoje, é burguês. Logo, a escola já reproduz sistematicamente a ideologia dominante. O que o Projeto Escola sem Partido propõe é que nem essa constatação seja possível. Que sejam, quaisquer tipos de contestação à ordem vigente do Estado Burguês, uma subversão. Portanto, criminaliza-se aqui o próprio questionamento de um Estado Burguês ideologicamente dominante. ALTHUSSER, Louis, Aparelhos Ideológicos de Estado: notas sobre os aparelhos ideológicos de Estado. Trad. Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. 10ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985. ** Graduandos do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pelotas

terça-feira, 6 de junho de 2017

Resenha: Manual Russo de Finais (The Russian Endgame Handbook) de Ilya Rabinovich

Título: The Russian Endgame Handbook
Autor: Ilya Rabinovich
Editora: Mongoose Press (EUA)
Formato: capa dura
Páginas: 523




Um antigo ditado soviético dizia que os enxadristas amadores do Ocidente "jogavam aberturas como grandes mestres, meio-jogo como experts e finais como iniciantes". Isso vem daquilo que já foi tratado em outro post neste blog, de que a escola soviética de xadrez - a mais vitoriosa de todos os tempos - sempre tinha como método de estudo do jogo iniciar não com aberturas, mas com o domínio dos finais.

Jogadores soviéticos treinados  conduziam sem medo o jogo para o final, confiantes na sua habilidade superior. Este livro se conduz rigorosamente nesta linha.

Rabinovich conduz a um novo entendimento dos finais de jogo com um sofisticado nível, iniciando com os xeque-mates elementares e daí para patamares mais complexos. 

Trata-se de uma obra tanto para veteranos como para iniciantes. Infelizmente não temos tradução em português. Seus inúmeros diagramas nos ajudam a entender tudo que se explica.

O que é importante saber é que para cada final de xadrez, em especial os com poucas peças, o jogador em vantagem tem que apenas seguir uma técnica. O final pretas com um rei brancas com o rei e torre é infalível para as brancas, se não houver um erro crasso, o que levará ao empate, que é uma derrota moral.




O estudo do xadrez por principiantes deve, paradoxalmente, começar pelos finais.  Isso porque os iniciantes cometem tantos erros que quase invariavelmente chegam ao fim do jogo com poucas peças. Aquele que  tiver o domínio do final para levar ao mate será o vencedor. Além disso, no meio jogo surgem situações estudadas no final, e que quando bem jogadas decidem a partida.


sábado, 3 de junho de 2017

Relato de viagem - Patagônia Argentina

No início do mês de maio passei 12 dias na Argentina, conhecendo a Patagônia, ao sul (Terra do Fogo e província de Santa Cruz). Gostaria de partilhar no blog minhas experiências nessa aventura maravilhosa no país vizinho.

A primeira coisa que se destaca é a natureza de clima sub polar e temperado. Temos em nosso continente uma exuberante paisagem nevada que nada perde para a Europa. Ushuaia, capital da Terra do Fogo, é cercada de montes com neves eternas, lindíssimos. Quando chegamos lá o dia estava tremendamente chuvoso e nublado e não vimos nada. Na manhã seguinte, ao raiar do sol, me deslumbrei com todas aquelas montanhas de origem vulcânica, com seus picos cobertos de neve, rodeando toda a cidade.



Ushuaia é uma cidade simples, com aproximadamente 58 mil habitantes. Foi transformada em zona franca, com incentivos fiscais, a fim de industrializar e povoar a região, de clima inóspito. No passado, a tentativa de colonização da Terra do Fogo foi com a instalação de presídios, o que acabou fracassando. Infelizmente, o atual governo neoliberal de Macri retirou muitas das medidas protecionistas da indústria e comércia da região, aumentando o desemprego exponencialmente.



Ushuaia é a região mais austral do planeta, descontando a Antartida, que fica a menos de mil km. Neva o ano todo, visto que nuvens carregadas de neve vem de frentes polares da Antartida e, mesmo com temperaturas acima de 0º neva abundantemente na região. Com 40 anos nunca havia visto neve na vida e tive o privilégio de ver uma nevasca que deixou tudo branquinho nos montes de Ushuaia.



Existem diversas opções turísticas na cidade. Passeios de Catamarã no Canal Beagle, que separa a Terra do Fogo do pólo sul, onde se observa a fauna característica, com pinguins, leões marinhos e aves nativas.

Outro destino foi uma cidade da província de Santa Cruz, chamada El Calafate. O nome provém de uma fruta típica da Patagônia, que tem uma cor rosada e um sabor parecido com morango ou framboesa. A atração da cidade são os chamados "glaciares" (geleiras), que são quase montanhas de gelo que se formam a partir do acúmulo de neve no topo das montanhas, desce e se comprime, formando gelo maciço. São gigantescos. O Glaciar Perito Moreno, no parque nacional, tem o tamanho da cidade de Buenos Aires, e mesmo assim não é o maior de todos. O maior é o glaciar Upsala, batizado em homenagem a universidade norueguesa que primeiro estudou as geleiras. O passeio é de navio, pois as geleiras se encontram com lagos gigantes, como o lago Argentino, e ficamos bem próximo deles. É algo incrível.

Com muito menos investimento com viagens à Europa podemos ter experiências com um clima totalmente diferente do Brasil. Vale a pena.




terça-feira, 20 de dezembro de 2016

CAIXA DE PÁSSAROS: Não abra os olhos - de Josh Malerman


Título: Caixa de Pássaros
Autor: Josh Malerman (EUA)
Ano: 2014
Tradutora: Carolina Selvatici
Editora: Intrínseca
Páginas: 268


Josh Eliot




Sinceramente, só vou fazer a resenha deste livro porque me dei ao trabalho de lê-lo de capa a capa.

Mais que sinceramente, não gaste seu tempo e dinheiro lendo esta porcaria. Trata-se da obra de estréia de Josh Malerman, que é cantor e compositor da banda de rock "Hight Strung" (outra sinceridade é que nunca ouvi falar em tal banda).




Josh me parece, ou pouco habilidoso ou jovem demais para escrever suspenses de alta intensidade com fenômenos paranormais envolvidos. Você praticamente é obrigado a intuir tudo no livro (o que poderia ser encarado por certos intelectualóides como mérito). Os personagens - TODOS - são pessimamente construídos.


Fiquei seriamente decepcionado com o fato de que o livro foi muito bem recebido pela crítica, tanto na Grão-Bretanha quanto nos Estados Unidos. Diz a wikipedia:

A recepção crítica para a caixa de pássaro tem sido positiva e Malerman recebeu comparações com Stephen King e Jonathan Carroll . [3] [4] O AV Clube deu o livro uma classificação B, escrevendo "Malerman sobrealcança um pouco em sua estréia, o que poderia usar tanta atenção para o elenco como para o clima, mas o clima é assustadoramente eficaz. Lendo-se sente como aceitar um desafio de andar em um lugar estranho, olhos fechados, sem idéia de quem, ou o quê, pode ser chegando a fazer contato. " [5]



Um homem do gabarito literário no gênero como Stephen King, render algum tipo de elogio ao verdadeiro imbróglio com milhões de coisas sem sentido e que não levam a lugar nenhum. Sequer o livro é capaz de despertar uma reflexão do tipo "O Pequeno Príncipe".

Um conselho: fique longe do livro e do futuro filme.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Resenha: Como Eu Era Antes de Você e a continuação Depois de Você - Jojo Moyes

Títulos: Como eu era antes de Você e Depois de Você
Autora: Jojo Moyes
Editora: Intrínseca (Rio de Janeiro)
Formato: Brochura (capa mole)
Número de páginas: 318 (ambos)
País de origem: Inglaterra.


A saga de Louise Clark, uma jovem de vinte e poucos anos - já chegando aos 30 - e Will Traynor está há semanas na lista dos mais vendidos de, por exemplo, da revista Veja. Um sucesso editorial absoluto. O primeiro livro já virou filme hollywoodiano de grande bilheteria. 




Trata-se, por evidente, de uma nem tanto açucarada comédia romântica, mas bem ao gosto do grande público. Os personagens são bem construídos, mostrando o cotidiano de uma família de trabalhadores da Inglaterra (no caso de Louise) e de uma abastada - mas disfuncional - família burguesa do mesmo país, a de Will Traynor. O personagem masculino protagonista da trama teve, até os 33 anos, uma carreira meteórica de sucesso no setor de investimentos em valores mobiliários, chegando a ser aquilo que a burguesia chama de "CEO" de uma grande empresa de capital rentista. Tido como astuto e ousado, admirado e invejado por todos, vivia uma vida repleta de satisfações de todos os gostos, entregando-se as sacrossantas instituições do capitalismo, como o edonismo, a acumulação de fortuna e uma sexualidade que nunca respeitou suas parceiras. Apesar de vir de uma família abastada, não deixava de ser um self made man britânico, conhecidíssimo na "City", a versão londrina de Wall Street. Will realmente aproveitava tudo que o dinheiro pode comprar, principalmente fazendo viagens a lugares exóticos, esquiando, andando a cavalo na China, esportes radicais, etc. Uma espécie de sorte absoluta e de paraíso na terra o acompanharam nestas três décadas.

Mas como afirma o budismo, tudo é impermanente, ou nas palavras de Marx no Manifesto, "tudo que é sólido se desmancha no ar". Num dia comum de sua rotina de "trabalho", chuvoso, ao atravessar uma das rua da City, como já tinha feito milhares de vezes, Will encontra um destino catastrófico: é atropelado por uma moto, acidente que o deixa tetraplégico, movimentando só a cabeça e um dos dedos das mãos. Para ele era o fim de tudo.

Aí Louise entra na história. Carismática - apesar de uma enorme timidez - ela consegue impôr uma empatia com o destroçado emocionalmente Will. Ele cobra dela que "viva com mais intensidade", pois Louise nunca tinha saído da pequena cidade turística a 100km de Londres, só para poucas vezes conhecer a capital. Mas um abismo social os separa e suas visões de mundo são completamente diferentes. Will não vê nenhuma esperança em poder conviver com sua nova situação; Louise, ao contrário, tenta desesperadamente injetar-lhe doses elevadíssimas de otimismo, para dar um pouco de brilho à sua limitada vida.

Ambos trocam muito suas experiências, pontos de vista sobre tudo: vida, arte, diversões e até amor. Não é adiantar o final ou estragar o livro, mas é óbvio que entre os dois personagens surge uma afeição fortíssima, mesmo que Will, por conta do acidente, tenha ficado permanentemente impotente.

São hilárias algumas tentativas frustradas de Louise a levar Will a "divertir-se", particularmente o episódio em que ela o leva para assistir uma corrida de cavalos, onde tudo sai errado. Por outro lado, Will leva Louise, pela primeira vez, a um concerto sinfônico, e esta fica estasiada com tudo que vê, sente e ouve.

No mais não posso contar o fim, mas infelizmente uma mensagem otimista não vinga. Isso contamina a continuação - que é bem inferior ao primeiro livro - na qual Louise tem que lidar com as sequelas do desaparecimento de Will, particularmente seu encontro com uma filha encapetada dele, feita nos tempos de universidade, a qual ele nunca conheceu. Louise e suas crises pessoais - bem como de sua família - também centralizam o romance, mostrando bem o cotidiano de uma comum família britânica.

Cabe aqui comentar algo de cunho muito pessoal. Depois de ler "Como eu era antes de você" resolvi ver o filme. Apesar de ser um profundo questionador do projeto de vida que o capital nos oferece, senti uma ponta de inveja de Will, acentuada pelo fato de que o ator que o interpretou ser um homem de muito boa aparência. Quando ele interroga Louise sobre o que ela faz para "dar sentido à sua vida" me senti atingido, questionando minha própria existência, e o fato de todos - ou quase todos - sermos prisioneiros de uma certa ou grande rotina claustrofóbica. Não consigui ir adiante na pelícola.




Entretanto creio que os livros levantam questões relevantes, como a discussão da distanásia e do direito do paciente dipôr de sua própria vida. São questões muito importantes. Não vejo como causalidade o sucesso desta dupla.